Carlos tem 16 anos e mora numa casa agradável numa pequena cidade ao pé da Serra da Mantiqueira. Ele vive com a mãe, Diana, professora e poeta, o pai, contador, Ernesto, e o agregado Sérgio, ex-editor de Diana. É uma família tolerante e progressista, e sua vida poderia ser algo próximo a um idílio, não fossem os seus reveses: Diana ama mais a própria liberdade do que o papel de mãe, o relacionamento de Carlos com um homem nove anos mais velho parece fadado ao fracasso e, o mais exasperante de tudo, o mundo está perto do fim.
Este é o ponto de partida do romance Tarde no planeta, de Leonardo Piana, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Com narrativa fluente, capítulos curtos e segredos que se revelam aos poucos, é uma obra que se lê com prazer. A prosa de Piana é legatária da poesia — como toda boa prosa —, o que se percebe com as inúmeras citações, espalhadas por todo o livro, de poetas como Adília Lopes, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Hilda Hilst, Emily Dickinson e outros.
Se Carlos é o protagonista da história, sua mãe, Diana, é a personagem mais interessante, a meu ver, pois destoa daquilo que se imagina ser uma poeta contemporânea. Aqui, Piana, talvez ecoando um sentimento próprio (e bastante nobre, diga-se de passagem), faz com que Diana desconfie do próprio talento e do fazer literário. Quando a história começa, Diana já desistiu de escrever. Nascida em uma família humilde, tornou-se professora, depois publicou livros de poesia e chegou a vencer o maior prêmio literário nacional. Porém, algo em seu íntimo lhe dizia que ela não era uma grande poeta. As palavras, para ela, não vinham naturalmente, mas tinham que ser buscadas com enorme esforço nela própria, no mundo e nas coisas. Após um tempo, por cansaço e frustração, ela parou de tentar. Um trecho do livro não só explicita o que Diana sente, mas é um tapa de luva de pelica em muitos autores atuais, mais interessados em holofotes do que na labuta:
(Diana) deixou de participar de mesas de debate sobre literatura. Tinha pouco a dizer, não construía reflexões inteligentes sobre poesia nem sobre os seus escritos. Às vezes até os poetas a faziam desgostar de poesia. Não queria ter que demonstrar grandes pensamentos a respeito de nada. Queria escrever — o gesto, a magnitude das palavras vindo ao seu encontro. Então deixava as demonstrações de sabedoria para os outros, havia muitos interessados em demonstrá-la.
Diana é uma alma livre, porém parece viver em uma espécie de vácuo emocional. E, se devemos nos guiar pelo farol dos poetas, cabe aqui repetir a famosa frase de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome”. Diana não sabe o que deseja, mas sempre soube o que não desejava: ter um filho. No entanto, Carlos existe, e ela precisa aprender a amá-lo. E é esse doloroso aprendizado que testemunhamos ao longo do romance, em pequenos gestos, em alguns acertos e em inúmeros erros.
Carlos, por sua vez, desde pequeno, decidiu tornar a vida dos pais (e principalmente da mãe) um inferno. Parece mesmo que cada palavra e cada gesto seu têm como objetivo ferir Diana, como nesta passagem de sua infância:
O Sérgio não pode fumar, o filho disse depois daquela conversa, sentando-se no colo do padrinho, que fez cócegas no menino para se livrar dele. O Sérgio tem trabalho amanhã, não pode fumar.
Qual a relação entre o trabalho e o cigarro? Ernesto perguntou ao filho, provocativo.
As pessoas que trabalham não fumam.
Eu trabalho e fumo, Diana disse.
Você não trabalha, só dá aula. Carlo se manteve encerrado em si mesmo. Continuou:
E fuma tanto que por isso eu não vou mais no seu colo. Parece até que carrega um bicho morto aí dentro.
Desforra final
Diante da vida hedonista dos pais, entre cigarros, bebedeiras e conversas de adulto, Carlos, ao crescer, se isola em seu quarto — que ele chama de bunker —, se torna vegano, e passa a exigir que não se consuma determinados alimentos em casa. Aproxima-se dos animais, da natureza. Sente e vê nessa natureza os sinais de que o fim se avizinha: queimadas são cada vez mais frequentes, a temperatura está cada vez mais alta, abelhas passam sobre sua cabeça em enormes enxames, pássaros caem mortos no quintal de sua casa. A família assiste a documentários sobre o desastre climático iminente, com o derretimento das calotas polares e o aumento do nível do mar, mas é Carlos o grande fatalista e parece aliar-se à natureza em seu ocaso. Talvez deseje, no íntimo, o fim dele e todas as coisas, como se a sua morte fosse a desforra final contra a mãe.
Diana precisa buscar dentro de si o amor pelo filho, como buscava as palavras certas ao escrever seus poemas; Carlos precisa mover uma enorme rocha feita de ódio e ressentimento, para encontrar o seu avesso. Ao receber um prêmio literário, Diana sobe ao palco e agradece ao marido, a Sérgio e a Carlos, “filho que me permite trabalhar no mecanismo secreto do amor”. Mais tarde, o filho reflete:
Carlos não esquece as palavras da mãe nesse dia, embora não as tenha entendido plenamente na hora. Não sabia o que isso queria dizer, que o amor tivesse um mecanismo secreto. Pensava que, se havia qualquer mecanismo do amor, ele não deveria ser secreto, ele deveria ser revelado — e, na revelação do seu amor, Diana tinha falhado. Conhecer o amor daqueles que nos amam talvez possa mudar o curso da História, mas desse amor Carlos não se deu conta.
Um grande segredo que vai aos poucos se descortinando na narrativa é o lugar exato que o personagem Sérgio ocupa na família. Ao mesmo tempo adorado e desprezado por Diana, que o considera um grande amigo e um editor fraco, ele forma uma estranha aliança com Ernesto. Juntos, os dois homens passam fins de semana numa cabana na serra e escalam rochedos, talvez por um desejo vão de dominar a natureza. Durante toda a vida, Carlos percebeu os pais e Sérgio conversarem baixo, como se tratassem de segredos, e por esse motivo se sente duplamente excluído: do amor de Diana e do mundo misterioso dos adultos. Ele é um exilado na própria família, na própria casa e no mundo — não é de se estranhar que ele deseje o fim do planeta quase com lascívia. Porém, um evento trágico levará a família à sua redenção final, no último ato do romance.
O leitor pode se perguntar, ao longo de Tarde no planeta, se o mundo realmente está acabando, apesar dos pequenos sinais dados pela natureza. Eu creio que isso é o que menos importa, pois a literatura de Leonardo Piana se ocupa da vida íntima dos personagens, relegando o suposto apocalipse a uma mera alegoria. Além do mais, lendo esta obra, me veio à mente um trecho memorável de O beijo de Schiller, de Cezar Tridapalli: “O mundo lá fora não quer saber de nós. (…) Muitos morrem de modo trágico em meio a uma paisagem exuberante. Outros recebem notícias excelentes abafadas por raios e trovões. São mundos sem pontos de contato, indiferentes um ao outro. (…) Nem de longe parecem a mesma natureza”. Se o fim do mundo antecipado por Carlos é real ou apenas imaginado pouco importa: são os terremotos internos que verdadeiramente nos aterrorizam e, por fim, nos moldam.