Um dos debates culturais que vêm ganhando mais atenção e espaço nos últimos anos na área da literatura e, mais em geral, no âmbito das ciências humanas no Brasil, é a investigação da relação entre o humano e o não humano, e o efeito cada vez mais nefasto para as outras formas de vida e para o planeta que essa relação causa em termos de impacto climático e de coexistência entre as espécies. Mais do que isso, o que tem interessado escritores, sociólogos, antropólogos e cientistas é algo que sabemos desde sempre — a natureza mutante e adaptável das várias formas de vida em relação ao ambiente — mas agora nos interessa adotar uma perspectiva menos antropocêntrica, menos centrada no comportamento humano, investigar como vivem e como se comunicam os outros viventes.
A poesia, como uma das manifestações humanas mais à escuta das angústias e dos anseios coletivos, desde a Antiguidade, soube anunciar — às vezes antecipando-se ao próprio tempo histórico — e de forma visionária, determinadas mudanças em curso na representação simbólica da vida, na maneira de pensarmos a existência. Mais do que anunciar, a poesia é talvez o gênero que melhor incorpora essas intuições/sensações e as materializa, tornando-as rastros contra a fugacidade do presente, justamente porque o corpo está profundamente implicado no ato poético: escuta, sopro, voz, gesto, palavra são manifestações radicalmente ligadas ao corpo vivo.
E é com essas reflexões em mente que lemos o livro mais recente de Ana Estaregui, Fazer círculos com mãos de aves, porque nos parece que Estaregui nos entrega uma anunciação poética, um compêndio oracular de visões de um mundo ainda pouco visível/apreensível a olho nu, mas que ela — como uma iniciada na arte de “acordar a terra” — consegue desvendar e traduzir.
Oracular, porque o mundo que a poeta tenta decifrar, ao longo dos 97 poemas que compõem a obra, divididos em nove seções internas, não apresenta contornos definidos, definíveis: são a neblina, o sopro, o voo, a escrita das árvores, o brilho da água etc. Ainda assim, ela tenta decifrar essa realidade usando o dispositivo que mais define nossa espécie: a palavra.
Só que a palavra de Estaregui não define, não captura, não encerra, não explica, nem margeia: trata-se (apenas) da artesania da qual ela dispõe — como se fossem, as suas, mãos de aves — para “desenhar no vento” círculos, enquanto ela escreve palavras, para abrir os sentidos, ampliar as dimensões, expandir a claridade em constelações. A palavra, no seu livro mais recente, é como um órgão físico, uma outra língua, uma terceira mão, a superfície da pele, a elasticidade do pulmão, que lhe serve para tatear, roçar e respirar o mundo ao redor, porque “o que temos, afinal, é isto: nossas mãos/ nossa forma de aferir o mundo”.
Estaregui tenta sair da centralidade humana que pensa o mundo para propor uma epistemologia sensível, plural, decentrada, pulverizada, como se lê no poema 49:
é pela respiração que se fundem
espaço interno e externo
enquanto respiro estou mais próxima
ao mundo — sou o mundo
respirar é retornar ao espírito
agora somos todas essas: nós que respiramos
[…]
Nesse fragmento é evidente a passagem do eu para o nós, e, principalmente, a tentativa de misturar-se com o outro-de-mim que é o mundo. Ao quebrar o pacto entre “palavra/sentido” que a palavra designa, expandindo as fronteiras da linguagem, Estaregui consegue tocar “desde dentro” a natureza das coisas, ouvi-las como se fosse pela primeira vez, reinaugurá-las.
Ampliar e desdobrar
Há sem dúvida no livro uma tendência a ampliar e desdobrar, de poema em poema, o efeito ritualizante de seu gesto escritural, e o risco que se corre nesses casos é o de perder o poder encantatório, mágico dessa “nova visão do mundo e das coisas” que seus poemas nos convidam a inaugurar. Mas Estaregui consegue manter tensionado, com delicadeza e espanto, diante de nós, leitores, esse mundo-movimento que é seu livro.
E esta é uma qualidade da obra que lhe confere uma beleza tão fascinante: não há nada que sobre em seus versos, nem que falta. Os 97 poemas mantêm uma coerência estética e uma potência cosmogônica muito grande, porque parecem brotar de uma mesma condição, compenetrada, quase “não humana”, e de uma consciência ampliada do universo, por parte de quem os escreveu.
Coerência, sim, mas não uniformidade: os poemas não são monocordes, de dicção única, ao contrário. Há variação de ritmos, de timbres, de vozes, ainda que se mantenha constante a marca da expulsão do sujeito lírico do seu casulo racional, na dispersão do individual no universal, numa inversão de perspectivas que gosto de chamar de “horizontalidade” da voz poética. Uma horizontalidade — a tentativa de sair da noção de “sujeito” para tornar-se um todo-um com a paisagem, à escuta das minúcias — que tende a ser característica comum nos poetas e nas poetas que fazem da observação dos contatos entre o humano e o não humano, entre o visível e o invisível, o motor central da escrita.
Esse procedimento, que aqui chamei de “horizontalidade”, está também presente, ainda que com a singularidade autoral de cada um, na obra de Manoel de Barros, Leonardo Fróes, Max Martins, Josely Vianna — só para citar alguns nomes da tradição brasileira — ou, ainda, nos versos da poeta norte-americana Mary Oliver ou nos dos poetas italianos como Andrea Zanzotto, Laura Pugno ou Fabio Pusterla.
Mas em Fazer círculos com mãos de ave, a escrita de Estaregui nos parece ir além, como também observa Alexandre Nodari na orelha do livro, ao acolher em sua própria escrita a “tecnologia do sagrado” da tradição extra-ocidental dos povos originários, presentes por meio de seus saberes ancestrais, inclusive através da epígrafe de abertura, e a tradição ocidental vanguardista, tão influente na poesia brasileira contemporânea, com seu projeto de chegar à “origem” da palavra viva.
Assim como já aconteceu em seu livro anterior, Dança para cavalos, Estaregui procura fazer da poesia um gesto incompleto e em movimento, e o título da obra confirma essa percepção. O movimento como base essencial de tudo aquilo que vive se desdobra em várias dimensões. Há o movimento da matéria e também o lento metamorfosear-se das criaturas, a contaminação de uma na outra, (“tenho um pássaro no lugar do coração”). E há, principalmente, o movimento do tempo e das gerações que se misturam, lentamente, tão lentamente como o movimento natural de ranhura da pedra:
às vezes os papéis se invertem
minha mãe e minha filha se misturam
somos muitas e dizemos
é preciso retornar à água
elas me abraçam com seus braços firmes
e suas guelras enormes
e dizem: vem cá, minha filha, deita no meu colo
não sei onde começa uma e termina outra
barbatanas uma trança línguas
numa boca cheia de dentes uma delas diz
sou a rainha da lava
enquanto a outra se enverga em pedra
Através desse pêndulo, que é o afastar-se e o aproximar-se ao mundo, que imita o de uma lupa, operado pela palavra poética, Ana Estaregui assina um livro de uma beleza rara, porque próxima à origem do poético. Um livro que, se Octavio Paz, que escreveu o belíssimo O arco e a lira, tivesse a oportunidade de ler, celebraria sem dúvida como um dos mais oraculares e “verdadeiros” dos últimos tempos: leve como uma pluma, frágil como um castelo de areia e antigo como um canto sagrado.