Labirintos inescapáveis

No romance "O louco do Cati", Dyonelio Machado constrói uma narrativa de deslocamento, arbitrariedade e silêncio sob a sombra do autoritarismo
Dyonelio Machado, autor de “O louco do Cati”
01/02/2026

O louco do Cati, segundo romance do escritor gaúcho Dyonelio Machado, é o tipo de livro que exige do leitor, logo de cara, certa dose de abdicação: de compreender, de estar a par das motivações dos personagens, de tentar antecipar qual é o rumo daquele enredo. O adjetivo adequado para essa narrativa talvez seja insólito, e é no meio de uma estranha atmosfera que acompanhamos uma história de deslocamentos.

Inicialmente, trata-se de um deslocamento espacial: um homem cujo nome não sabemos e de olhar “sem conteúdo” encontra um grupo de amigos no fim da linha do bonde. Os amigos vão viajar à praia e, sem maiores explicações, o homem sem nome se junta a eles.

Ainda no começo do caminho, uma das poucas falas desse homem que aparece conformada em diálogo direto é “Isto! Isto é o Cati!”. Alguns dos temporários companheiros de estrada do protagonista reconhecem a palavra. Um deles, Norberto, explica aos outros que se tratava de um “Subestado” responsável por garantir a “ordem pública” após uma tentativa de revolução abafada pelo governo, um lugar de onde “quando saíam, era quase sempre degolados” — no posfácio da edição, Camila von Holdefer explica que o Cati “foi um quartel que abrigou, entre os anos de 1896 e 1909, o 2º Regimento Provisório da Brigada Militar do Rio Grande do Sul” que tinha “como pretexto a necessidade de conter os estertores da Revolução Federalista (1893-5)” nas proximidades da fronteira do estado com o Uruguai.

Antes, porém, que Norberto explique aos outros o que é o Cati, a história da viagem é interrompida brevemente pelo relato da lembrança de um menino que vê um homem amarrado, escoltado por soldados, e que ouve da mãe que o sujeito seria levado para morrer no Cati. É uma das poucas informações que temos do homem sem nome: essa lembrança que ecoa nele como uma imagem de terror.

A viagem com o primeiro grupo é interrompida em Florianópolis, onde o protagonista e Norberto são presos e encaminhados de navio ao Rio de Janeiro. O motivo da prisão é tão inexplicável quanto a motivação da viagem do “louco”. Há menções à palavra “desordeiro”, o que faz o leitor aos poucos apreender um clima de arbitrariedade do poder e das ditas forças de ordem, cujas decisões são incontestáveis e obscuras — em um diálogo já no fim do romance, um personagem faz uma breve referência à Guerra Civil Espanhola que estava em curso, ou seja, a história é ambientada na segunda metade dos anos de 1930, quando estava em vigor a ditadura do Estado Novo.

No Rio de Janeiro, o protagonista e Norberto passam um tempo na prisão e depois são soltos. Vivem em espaços temporários até que o protagonista é despachado de volta para o sul, um longo trânsito que envolve trajetos de navio, carro e caminhão, sempre com companheiros de viagem diferentes. São esses companheiros que conversam e tomam as decisões; o “louco”, sempre em cena, mas à margem, segue como uma presença silenciosa e inacessível.

Dividido em quatro partes, cada uma delas segmentada por breves capítulos, o romance é construído com uma linguagem clara, mas que entra a todo momento em choque com essa toada insólita, sombria e cifrada atrelada à dificuldade de compreender esse personagem que está sempre lá, presente, cujos pensamentos e palavras, no entanto, nunca nos são revelados — a não ser nas páginas finais.

A cada parada da viagem, o narrador encaminha a história com a construção de rotinas em meio à transitoriedade, articulando detalhes que, somados, revelam um quadro geral fragmentado, do qual parece faltar alguma peça para entender quem é esse estranho protagonista. Destaca-se também uma discreta ironia, que surge da disponibilidade do poder de se mostrar autoritário e da dificuldade que os “sãos” têm de entender este que é visto como um “louco” — que chega eventualmente a ser chamado de “seu Cati” ou de “Catarino” porque, longe do Rio Grande do Sul, ninguém compreende a que a palavra faz referência. Outro traço irônico é a escolha de “aventura” como subtítulo do romance, considerando a desproporção entre o usual significado da palavra e o sombrio enredo da história.

Sem saída
Antes de O louco do Cati, a Todavia lançou, em 2022, o primeiro romance de Dyonelio Machado, Os ratos, de 1935, que conta a história de um dia na vida de um personagem que precisa dar um jeito de pagar a dívida com o leiteiro e, assim, conseguir voltar para casa com o leite do seu filho. Como O louco do Cati, de 1942, este é um livro que explora a opressão — social e econômica —, mas também aquela que se desenrola na dimensão subjetiva.

A capacidade do autor de aludir à desigualdade da sociedade brasileira ao mesmo tempo em que representa os labirintos internos de seus personagens pode ser articulada à sua formação e à sua atuação. Antes de sua primeira coletânea de contos, Um pobre homem, de 1927, Machado escreveu o ensaio Política contemporânea: três aspectos. Seu empenho social também se reflete na militância política, o que motivou sua prisão durante os anos do Estado Novo. Além de escritor, era médico e trabalhou por mais de 30 anos em um hospital psiquiátrico de Porto Alegre.

Na sua prosa, a ligação entre os sistemas que regem a sociedade e a mente humana é retratada como uma pressão que vem do meio, dos outros e dos próprios pensamentos. A condição marginalizada ganha forma por meio de uma linguagem crua e oralizada e de imagens, como, por exemplo, o “fim da linha” que abre O louco do Cati ou os deslocamentos geográficos sucessivos que remetem à própria condição de deslocado do protagonista.

Animais
Se o título do primeiro romance do autor é Os ratos, o protagonista d’O louco do Cati é reiteradamente aproximado, pelo narrador em terceira pessoa, a um cachorro. Há uma expressiva desproporção nesse modo como o autor retrata a exclusão: enquanto quem está às margens é associado aos animais, a injusta sociedade dos homens não é exatamente exemplar no quesito humanidade. Mesmo nos breves momentos em que é direcionado ao protagonista um pouco de compaixão, trata-se de uma oferta temporária — como, de resto, tudo na narrativa é transitório —, distanciada, fria e expressa como um gesto desconfortável porque em geral — talvez com exceção de um médico que conhece em uma das viagens de navio —, seus interlocutores não sabem muito bem como lidar com ele.

Durante a maior parte do enredo, o ponto de observação do leitor tende a coincidir com o mundo dos homens, de modo que o protagonista, fechado em si mesmo, permaneça como uma presença enigmática. O pouco que sabemos dele é a marca que a violência da “ordem pública” deixou, uma marca tão forte que o condena a uma irremediável segregação, mesmo quando ele coexiste com outros “homens”. É uma condição que remete a uma solidão profunda e dolorosa, no entanto a forma como a sombra do Cati o separa do mundo ao redor é tão radical que parece não haver espaço em sua dimensão interior nem mesmo para se sentir solitário.

A impossibilidade de se aproximar desse personagem, cujos trânsitos encaminham o enredo, e esse desencontro inconciliável entre o mundo dos homens e o enclausuramento em si mesmo do “louco” fazem do romance uma leitura angustiante. Entretanto é justamente essa angústia que revela a força da voz do narrador de Dyonelio Machado, até porque, no meio de tudo que é nebuloso e obscuro em O louco do Cati, algo de muito claro se destaca: não há saída.

O louco do Cati
Dyonelio Machado
Todavia
320 págs.
Dyonelio Machado
Nasceu em 1895, em Quaraí (RS). Teve uma longa atuação como psiquiatra e escreveu ensaios e artigos jornalísticos para a imprensa gaúcha, contos e romances. Em 1981, ganhou o prêmio Jabuti com Endiabrados. Morreu em 1985, em Porto Alegre. Além de Os ratos (2022) e O louco do Cati (2025), publicados pela Todavia, a editora Zouk relançou o romance Fada (2021).
Iara Machado Pinheiro

É jornalista e mestre em teoria literária.

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