— Meu sobrenome é italiano.
— O meu japonês.
As crianças da escola particular do Parque Edu Chaves exibem a origem estrangeira de suas famílias. Quem escuta é uma menina estudiosa, moradora de um conjunto habitacional, que foi matriculada no colégio São Judas porque, na escola pública, recomendaram que os pais “se esforçassem para pagar uma escola melhor” para ela. Essa menina crescerá para se tornar a narradora de Apolinária. “Na Cohab, não lembro das crianças se interessarem em contar a origem de suas famílias”, ela reflete. “Mas os velhos gostavam de falar da terra de onde vinham.” Piauí, Maranhão, Pernambuco. De forma breve, a narradora nos apresenta o Brasil urbano: as vaidades da classe média, a cultura oral dos migrantes internos, os silêncios da família.
Apolinária é um romance de memórias, que nos apresenta a ascensão social construída em três gerações, a partir da personagem-título — Dona Polu — nascida no interior da Bahia, sem data, sem registro, sem pai nem mãe. Ela enfrenta o serviço doméstico desde a infância, a fuga para São Paulo, a precariedade de habitação e trabalho e, apesar de tudo, sua família se mantém unida em torno das figuras maternas. As vozes da avó — Apolinária — e da neta — Bianca — se alternam em capítulos curtos, apresentando a saga familiar em tom suave e minimalista: poucas palavras, e muito nas entrelinhas.
Dona Polu é uma personagem que brilha em originalidade, acima de todas as dificuldades. Gosta de joias e, ao visitar o ex-marido, “colocava todos os anéis e pulseiras que acumulara ao longo da vida”. Gosta do azul, que lembra o rio São Francisco, às margens do qual ela cresceu. Levou o rio para São Paulo, por meio de pequenas lembranças: enfeites que se vendiam na gruta do Bom Jesus, e a caneca de alumínio sobre o filtro de barro. Em homenagem à personagem, que se orgulhava de andar bem arrumada, a capa do livro (linda) tem joias douradas sobre fundo azul. Destaca-se sua personalidade, em prosa objetiva e sem condescendência. Prática, ela ironiza a mulher loira e rica que largou tudo para casar com um preto pobre: “Bonita e burra a dona Judite”. Sua oralidade é construída com inteligência: “ê em”, “catrumano”, “fazia era graça ver o povo” são expressões pontuadas aqui e ali, sem excesso, sem frear o fluxo da leitura.
A personagem da neta — de nome Bianca, espelhando a autora — é, no entanto, mais intrigante, por apresentar mais entrelinhas. Na superfície narrativa, sua função é evocar a história da avó. O que ela nos conta de sua vida — a escola particular, a vida infantil entre os parentes — são decorrências da trajetória de Apolinária; o livro destaca os ciclos, as repetições:
Dois meses era o meu tempo de vida quando meu pai saiu de casa. Os exatos dois meses que tinha minha mãe quando o pai dela saiu de casa.
Alguns eventos são narrados duas vezes, pelas duas vozes que compõem o romance. Por exemplo, a dificuldade de constituir um patrimônio — a família junta economias para comprar uma casa, mas escolhe mal o imóvel e precisa revendê-lo com urgência, perdendo dinheiro na transação — surge em dois capítulos, na voz de Apolinária e na de Bianca. A neta é objetiva, enquanto a avó ri das ilusões de ascensão da filha diplomada: “Mas não é perigoso? Não é gente que vem da favela?”, pergunta Aparecida (filha de Polu, mãe de Bianca), desconfiando da Cohab. Dona Polu não abre a boca, mas pensa: “A menina não lembrava do nosso primeiro barracão?”.
O espelhamento das três gerações — Apolinária, Aparecida e Bianca (a vogal “a”, aberta, as expõe à luz) — é contrastado, ao final, com um relatório do Ministério da Saúde. O texto técnico governamental sugere (em 2012, como um vampiro eugenista que não morre) a “predisposição biológica das negras para doenças como a hipertensão arterial”. Ao trazer esses dados históricos, o romance projeta a história íntima na história social. Há resistência (“permanecer viva”), mas muita dor engolida em silêncio.
Em parágrafos tocantes, a narradora reflete sobre como a pobreza, o alcoolismo e a violência pesam sobre as identidades em formação. É enorme o esforço necessário para construir um “eu” em terreno minado:
A inveja que senti de vó Polu quando ela morreu, o alívio que vi em seu rosto, quando, finalmente, acabou, me acompanharam por anos (…). Em turbulências de voos, eu fechava os olhos, imaginava o avião caindo e sentia paz.
A narrativa, permeada de emoções contidas, constrói-se com frases limpas, objetos e espaços bem definidos. A memória se agarra a datas e evidências materiais — fincando-se no tempo, recusando o apagamento. Assim, protegida pela linguagem racional, a sensibilidade pode florir, em lição bem aprendida: “as notas do boletim precisavam ser as melhores (…). Era preciso fazer, sempre bem, e muito. Sem cansaço ou enrolação. Ser boa não bastava (…), minha vó exigia que eu fosse ótima. Em tudo”.