🔓 Jack Kerouac, cem anos depois

Uma breve visita à trajetória do autor de “On the road”, que encabeçou a geração beat e morreu jovem, aos 47 anos, de cirrose hepática
Jack Kerouac, autor de “On the road”
23/03/2022

Março de 2022 marca o centenário de nascimento do norte-americano Jack Kerouac (1922-1969), autor de On the road e um dos patronos da geração beat. Um escritor que, ao lado de Allen Ginsberg, William Burroughs e companhia, fez um verdadeiro auê nos Estados Unidos dos anos 1950 — e sobrevive, até hoje, como sinônimo de liberdade criativa. Não sem uma pitada de loucura, é claro, como costuma acontecer com o pessoal que dá novos ares à literatura.

Apesar de ter sido publicado em 1957 na terra do Tio Sam, o clássico de Kerouac — morto aos 47 anos, em decorrência de cirrose hepática, numa pequena cidade de Massachusetts — só chegou às estantes brasileiras em fevereiro de 1984, pela Brasiliense. A edição, traduzida por um Eduardo Bueno de vinte e poucos anos, saiu pela coleção Circo de Letras e trazia na capa o nome Pé na estrada — por exigência de Caio Graco, dono da editora, de acordo com relato de Bueno.

A versão em português, que hoje é publicada pela L&PM (a casa de Kerouac no Brasil, autor também de Os vagabundos iluminados e Visões de Cody, entre outros), foi um sucesso. Lá fora, no entanto, a coisa já tinha explodido há muito tempo graças a uma resenha publicada no New York Times por Gilbert Millstein. O texto não poupava elogios e dizia, já na abertura, que a publicação de On the road era um marco histórico. O que realmente aconteceu — o livro é celebrado até hoje e influenciou um sem-fim de pessoas, escritoras ou não, e deu o start a um movimento revolucionário.

Kerouac é um dos patronos da geração beat


Geração beat
A introdução da HQ Os beats, com roteiro de Harvey Pekar e edição de Paul Buhle, é enfática: “Nunca houve um grupo como o deles na literatura e na cultura dos Estados Unidos e é improvável que venha a existir outro semelhante. (…) A contracultura dos anos 1960 parecia, de certa forma, ter sido feita por eles e para eles”.

Para além da superfície do movimento beatnik (termo cunhado pelo jornalista Herb Caen), que talvez fosse exageradamente dado às drogas e lutava pela liberdade do indivíduo em um país marcado pelo clima paranoico da Guerra Fria, a literatura dos “cabeças” do grupo — Kerouac, Ginsberg e Burroughs, entre outros — se preocupou com temas pouco comentados ou tabus à época, como homossexualidade, religiões orientais e os povos nativos dos EUA.

O papel das mulheres no movimento, aliás, que vem sendo revisitado há não muito tempo após longo período de esquecimento por parte da mídia, também foi importante e pioneiro. No Brasil, uma boa forma de conhecer o trabalho delas é por meio da antologia Meninas que vestiam preto, do selo Demônio Negro, que traz poemas de Anne Waldman, Elise Cowen, Marie Pensot, Denise Levertov e Diane di Prima, autora de Memórias de uma beatnik.

Não dá para deixar de lembrar, também, que Ginsberg — o guru dos beats — é um nome incontornável quando se trata de literatura e liberdade de expressão. Seu livro de poemas Uivo foi censurado nos Estados Unidos e gerou uma batalha épica entre os “doidões” e a corte americana. A vitória foi do primeiro grupo, o que beneficiou outros nomes caçados pelos bons costumes, como o de Henry Miller.

O poema de Ginsberg que dá nome ao livro se tornou o manifesto de toda uma geração de jovens “loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo”, emprestando um trecho de On the road. Uivo começa assim, em tradução de Claudio Willer: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela lou-/ cura, morrendo de fome, histéricos, nus,/ arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada/ em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, (…)”.

Kristen Stewart e Garrett Hedlund em cena do filme “On the road”


No cinema
O sucesso literário da geração beatnik alcançou Hollywood. O cineasta carioca Walter Salles dirigiu a adaptação de On the road. Mesmo que não tenha sido tão festejado por público e crítica, o longa-metragem traz nomes interessantes: Sam Riley (o Ian Curtis de Control), Kristen Stewart e Amy Adams.

No filme, Riley interpreta Sal Paradise, uma representação que Kerouac fez de si mesmo em On the road, e Garrett Hedlund é Dean Moriarty, a persona literária de Neal Cassady — maior inspiração do autor do livro e quem “puxou” o clima frenético da obra, com todas as viagens, festas e reflexões. Não à toa, Cassady morreu ainda antes de Kerouac, em 1968, aos 42 anos.

Há, também, uma ideia original de adaptação de On the road para o cinema que não saiu do papel. E que, tudo indica, seria de cair o queixo. Eduardo Bueno conta, no posfácio à edição da L&PM do livro, que Francis Ford Coppola tinha planos de produzir um longa baseado no romance em 1997. A direção seria de Gus Van Sant e Johnny Depp estaria no papel principal. Não saiu bem como esperado, mas Coppola assinou a coprodução do filme de Walter Salles, lançado em 2012.

On the road
Jack Kerouac
Trad.: Eduardo Bueno
L&PM
380 págs.
João Lucas Dusi

É autor do livro de contos O grito da borboleta (Penalux, 2019).

Rascunho