Do Instagram à estética questionável da inteligência artificial, tornou-se praticamente impossível evitar o bombardeio de imagens no dia a dia. São ilustrações excessivamente coloridas e religiosas no “bom dia” enviado por um familiar no grupo do WhatsApp, dezenas (talvez centenas!) de fotos postadas diariamente nos perfis de amigos, conhecidos e semidesconhecidos nas redes sociais e até um infográfico no portal de notícias, que insiste em tentar explicar, com poucas palavras e muitas imagens, o conflito geopolítico da vez.
O excesso resulta num caminho que parece antinatural: olhar imagens apressadamente. O ato contraria não apenas as reflexões de intelectuais que se aprofundaram no estudo da fotografia, como Roland Barthes e Susan Sontag, mas também um comportamento bastante comum ao leitor assíduo: o de só retirar um livro de Sebastião Salgado da estante quando estiver com tempo suficiente para apreciá-lo como ele merece.
Nos últimos meses, o excelente Histórias reais, de Sophie Calle, voltou a ser bastante comentado no Brasil, a partir de uma nova edição publicada pela Relicário, com tradução de Marília Garcia. A obra traz 66 textos curtos (em geral, relatos pessoais da autora francesa), acompanhados por fotografias que se relacionam de alguma forma às histórias narradas.
Sophie Calle aborda experiências amorosas, revisita momentos traumáticos da infância e reflete sobre grandes e pequenos temas, com uma linguagem confessional, precisa e, por vezes, bem-humorada.
No livro, textos e imagens se complementam e dão origem a um novo significante. Cada fotografia e cada palavra pedem uma leitura atenta e, aos poucos, revelam ser mais do que pareciam num primeiro momento.
Sem mostrar
Mas como seria uma obra literária que se dispusesse a descrever imagens sem mostrá-las? Essa parece ter sido uma das perguntas que nortearam o autor Tiago Velasco em seu processo de escrita de Naturezas-mortas.
A obra reúne 40 textos curtos que buscam, a princípio, descrever imagens. O autor aborda cores, diferentes percepções de profundidade espacial, expressões faciais, roupas e objetos para apresentar o que está em fotos, pinturas famosas, cartazes e até capas de revistas.
Mas, como bom escritor que é, Tiago Velasco não trabalha apenas a descrição. Chama a atenção para detalhes despercebidos, propõe novas interpretações sobre personagens, aventura-se na sutileza e apresenta um olhar único para cada imagem, mesmo aquelas que já foram vistas mais de mil vezes — desde a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, até a capa sensacionalista da Veja com o cantor Cazuza.
A obra intercala textos objetivos com outros mais poéticos, atentos a detalhes como galhos de árvores ou olhares tristes. Em ambos os casos, há espaço para subtextos sobre amor, relações familiares, guerra, violência e tanto mais.
Ao longo do livro, Tiago Velasco demonstra grande aptidão (e interesse) pela subversão. Primeiramente, por construir textos de difícil classificação. São descritivos, mas também são literários. Reúnem personagens e apresentam tramas, ainda que não façam isso de forma convencional.
Mas também existe outro tipo de subversão: a defesa da tese de que nenhuma imagem é definitiva. O escritor oferece novas possibilidades de leitura a quadros conhecidos e a fotografias que retratam acontecimentos históricos e culturais relevantes. É como se a obra se ocupasse de uma nova semiótica, atenta quase que exclusivamente ao não convencional, ao pouco abordado, a tudo aquilo que está desfocado.
E com isso, Tiago Velasco revela que esses personagens não são estáticos. Eles têm vozes, histórias e uma vida fora das imagens que os imortalizaram. Estão, por mais contraditório que pareça, em constante movimento.
Ao fazer uso de poucas palavras para construir narrativas profundas e não convencionais, o autor carioca se junta a outros nomes da literatura brasileira que têm se sobressaído nos microcontos, como Andréa del Fuego (autora de obras como Nego tudo e Engano seu) e Whisner Fraga (autor de livros como As fomes inaugurais e Usufruto de ruínas).
Todos os três têm em comum a capacidade de transformar uma cena simples em algo único e memorável, além da competência para chamar a atenção para tudo aquilo que é importante, mas que, por algum motivo, está à margem.
Memória e imaginação
Naturezas-mortas é, ainda, um exercício de memória e imaginação. Os textos provocam no leitor o desejo de tentar se lembrar dos detalhes descritos em cada imagem. Quando não consegue, fica tentado a refazer mentalmente a cena, muitas vezes atribuindo a ela um novo significado.
Isso só é possível por conta do perceptível trabalho do autor na busca pela palavra exata. Como está disposto a descrever algo com rigorosidade, Tiago Velasco precisa localizar o melhor termo a cada nova frase. E, do primeiro ao último texto, consegue.
Faz isso com toda a delicadeza de um bom ficcionista, longe das armadilhas do lugar-comum. Nesse aspecto, inclusive, o autor provoca a inteligência artificial, ao demonstrar que mesmo os textos descritivos exigem um olhar atento e sensível, que máquina nenhuma é capaz de alcançar.
Reconstrução
Ao longo de todo o livro, o escritor evoca imagens conhecidas, mas poucas delas são reveladas de maneira explícita. Em geral, as exceções ocorrem quando há personalidades famosas em cena, como um cartaz de Carlos Marighella, uma capa de revista com Tony Tornado e Arlete Salles e a já citada edição da Veja! com Cazuza.
No entanto, na maioria dos casos, os textos são capazes de fazer com que o leitor construa, pouco a pouco, a imagem descrita e até mesmo perceba detalhes antes totalmente ignorados.
A consequência do olhar atento do autor a cada cena retratada me levou de volta às aulas da faculdade, quando o professor de fotojornalismo, Gustavo Lopes, dizia que “uma imagem só vale mais que mil palavras para quem escreve mal”.
Tiago Velasco provou seu ponto, ao descrever (e reconstruir) com palavras o que poderia simplesmente mostrar. Sua recusa evidencia as muitas possibilidades de se olhar para algo e a importância de se abdicar da pressa para contemplar o que passou despercebido no quadro visto um milhão de vezes.
O próprio título do livro brinca com essa ideia, ao reunir textos que se recusam a enxergar objetos como inanimados e que rompem o silêncio introspectivo por trás das obras de arte.
Assim, Naturezas-mortas se arrisca pelos caminhos da não obviedade e alcança um resultado grandioso, ao propor uma literatura não convencional e demonstrar que é possível, sim, contar histórias autênticas e profundas com poucas palavras, desde que haja um trabalho rigoroso com a linguagem.