Heróis banais

Em “O homem que colecionava manhãs”, o texto de Liberato Vieira da Cunha é límpido, simples e essencial
Liberato Vieira da Cunha: história costurada de modo impecável, sem pontas soltas.
01/02/2005

Homens comuns, no passado, nunca seduziram os artistas a representá-los. Nas epopéias, tanto as antigas quanto as modernas (aqui penso em Os Lusíadas), prepondera o herói, o qual, com a força dramática de sua personalidade, transforma seu tempo e pratica atos arrasadores. A partir da revolução burguesa o homem trivial assume o protagonismo. Aaron Copland compõe a sua célebre Fanfarra para um homem comum, e Picasso sabe, na Guernica, representar aquele pobre povo massacrado. A arquitetura equipa-se para atender às necessidades habitacionais das famílias, e o teatro e o cinema têm, desde o seu início, percorrido os caminhos do dia-a-dia.

A estética do prosaico ganha relevo maior, contudo, na literatura. Aí podemos evocar o Werther, o Pai Goriot, o Quincas Borba, o Paulo Honório, o Naziazeno Barbosa e um sem-número de outras personagens nas quais reconhecemos alguém igual a nós. A questão literária, entretanto, a paradoxal questão, é: como representar um homem comum e, ao mesmo tempo, dar-lhe estrutura psicológica suficiente para pô-lo de pé? Em suma: como tornar forte a sua fraqueza? Para o escritor, isso é andar sobre o fio da navalha.

Liberato Vieira da Cunha aceitou o desafio em O homem que colecionava manhãs. Este não é apenas é seu melhor romance, como é seu melhor texto dos tantos que pratica. Há, nesse romance, a intenção de trazer à sensibilidade do leitor as vicissitudes de Alberto Lins da Nave (ótimo nome!), alguém que nada mais deseja da vida senão vivê-la. Apegado a um cargo burocrático subalterno, vivendo sozinho por timidez e azares, escreve um diário. Para complementar seu miserável ordenado, compõe cartas por encomenda. O leitor pode pensar: mas isso não é inédito. Não o é, como não são inéditos os triângulos amorosos desde Mme. Bovary, passando por Ana Karênina e O primo Basílio. A questão não é o que contar, mas o como contar. E Liberato Vieira da Cunha sai-se muito bem nessa empreitada.

A ação passa-se em Porto Alegre no ano de 1945, de maio a dezembro. Nada mais rotineira do que a capital dos pampas naquelas eras. Cidade semi-interiorana, recém começava a ter seus arranha-céus. Bondes trafegavam pelas ruas sonolentas. Os botecos e os bordéis, que tanto atraíam Alberto Lins da Nave, eram instituições também de convívio. 1945: o País estava em vias de redemocratizar-se. Erico Verissimo publicaria, no ano seguinte, A volta do gato preto. Eis o espaço e o tempo por onde o protagonista perambula suas insônias, seus desejos e sua assumida insignificância. Ele é apenas Alberto, ocasionalmente usando o codinome de Gregory Peck. Nome de herói tem seu chefe, Jasão.

Idealista, almeja o amor impossível, materializado (ou imaterializado) em algumas mulheres de existência na linha da irrealidade, como certa deusa do olhar azul diáfano. Nessa busca há semelhança com a perseguição patética da senhora de vestido xadrez, posta em prática por Artur Corvelo, personagem de A capital de Eça. Os resultados são completamente diversos, e o de Eça, hilariante.

Alberto Lins da Nave vive numa pensão gerida por Dona Tilde, e nada mais anti-romântico do que isso. Tem seu passado de glórias, por certo. Nascera num berço de elite; seu pai era médico respeitado em Alhandra, mas as contingências da vida fizeram com que a honra e os bens da família escoassem pelo ralo. Não é, contudo, um homem isento de certa vida interior. Por vezes tem rompantes de lucidez e de originalidade simbólica, como na compra da máquina de escrever que pertencera à sua madrasta, a demente e originalíssima Ariana. Vive, como qualquer pessoa, atascado em vagos remorsos: “Me escondi perto do batistério, fiquei um tempão ali. Por que ajo assim, se minha ficha está limpa? De onde vêm esses pavores súbitos, essas culpas sem nome?”

O texto é límpido, simples e essencial, evocando o Machado de Memorial de Aires. Não há desabusadas aventuras lingüísticas ou gráficas; em contrapartida, há ganho em força ficcional e verossimilhança. Liberato Vieira da Cunha apresenta-se como autor maduro que não cede à tentação dos truques, dos estéreis experimentalismos, das pseudo-fragmentações que mascaram a ausência de fabulação.

Citei várias aproximações literárias deste romance com outros da literatura nacional e internacional. É importante sublinhar que, desse conjunto de influências e diálogos intertextuais, resulta uma narrativa única e exclusiva. Todo bom escritor, mais cedo ou mais tarde, descobre-se como resultado da tradição, mas, ao mesmo tempo, sabe construir seu próprio falar. E aqui, o caso é exemplo cabal.

Como se trata de um diário, o leitor pode incidir em dois preconceitos: pensar que se trata de algo intimista e sem história, pecados encontráveis no gênero. Terá uma surpresa: o intimismo é perfeitamente natural e jamais sufoca; e existe história, sim senhores, e por isso é um romance. Há uma história que atrai pela expectativa dos episódios seguintes. E essa história é costurada de modo impecável: não há pontas soltas. Quando pensamos que o autor esqueceu-se de tal ou qual fato ou personagem, lá eles retornam e têm seu destino. Disso resulta a sensação de um texto acabado com primor. O que mais podemos esperar mais de um livro?

A personagem, assim embalada em roupagem a condizer, pode apresentar-se adequadamente à leitura. Sendo um homem comum, e tendo esse caráter narrado pela mão competente, ele sai engrandecido. O homem que colecionava manhãs dá-lhe a dignidade da obra de arte, uma distinção que a vida não lhe deu. E é essa dignidade que justifica suas ações.

Alberto Lins da Nave é um herói na medida em que nós, os quotidianos heróis do banal, identificamo-nos com ele em seus ridículos, suas hesitações, suas pequenas mentiras, suas dúvidas, suas vilezas. E, de sobra, ganhamos em literatura.

O homem que colecionava manhãs
Liberato Vieira da Cunha
Objetiva
371 págs.
Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

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