Albert Camus carregava em sua mala o manuscrito do livro O primeiro homem no dia 4 de janeiro de 1960, quando viajava ao lado de Michel Gallimard, seu amigo pessoal e editor na Gallimard, e da família dele. Aos 46 anos, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, autor de obras que já haviam se tornado referência, o argelino tinha vários planos para aquele ano, mas tudo se encerrou às 13h55. Nessa hora, o Facel-Vega de Gallimard saiu de uma estrada em linha reta no interior da França, bateu em uma árvore, depois em outra, e aí se desmantelou. Camus morreu na hora. Michel, cinco dias depois. Outras duas pessoas que estavam com eles ficaram feridas. Dessa maneira terminou, de forma um tanto quanto absurda, a vida do escritor, cuja história está bem descrita na biografia Albert Camus: uma vida, do jornalista e escritor francês Olivier Todd, publicada originalmente na França em 1996.
Calhamaço com quase 900 páginas, que acaba de ganhar a segunda edição brasileira, recheado de informações obtidas a partir das cartas enviadas e recebidas pelo autor de A peste, bem como de jornais e pesquisas sobre o escritor, o trabalho é um prato cheio para quem quiser não só conhecer a vida de Camus, mas também compreender a sociedade intelectual e política francesa da primeira metade do século 20, principalmente no contexto da Guerra Fria, de tensões políticas que perpassavam aqueles tempos.
Quem foi Camus
Se em uma biografia já é difícil resumir alguém, imagine em uma resenha. Albert Camus foi muitos. Nascido em Mondovi, interior da Argélia, foi um dos mais importantes escritores do século 20, mas não só. Francês demais para os argelinos, argelino demais para os franceses; casado, mas com muitas amantes; menos filósofo do que romancista; fumante inveterado e tuberculoso — um ser humano, enfim. Nascido em 7 de novembro de 1913, veio de uma família de trabalhadores, com ascendência francesa e espanhola. Irmão mais novo, não cresceu ao lado do pai, morto em combate na Primeira Guerra Mundial.
Numa sociedade com divisões muito definidas entre as classes, Camus foi quase um milagre, ascendendo intelectualmente em razão de bolsas de estudo e ações do governo. Em sua pesquisa, Olivier Todd mostra que um professor foi fundamental para isso, pois, se dependesse de sua família, não haveria como ter educação formal — as crianças pobres deveriam, desde a infância, trabalhar e auxiliar a casa.
Na escola, principalmente, o pequeno Albert percebeu as diferentes classes e culturas, já vivendo em Argel, capital do país. Havia pessoas ricas, descendentes de europeus; havia os pobres, mas brancos, também descendentes; e havia os outros, que eram os nativos pobres, os muçulmanos e os árabes que, grosso modo, eram chamados de “indígenas”. Sabendo disso, não fica difícil para o leitor compreender o posicionamento futuro de Camus, tanto em sua produção ficcional como jornalística, carreira que ele abraçou após ter sido aluno com algum destaque na escola e de ter estudado humanidades na universidade.
Ainda na casa dos 20 anos, na década de 1930, Camus viu uma série de ebulições. Todd registra que, no período, houve o início do movimento nacionalista na Argélia, de libertação nacional. Esses debates apareciam em jornais para os quais Camus escreveu, como o Alger Républicain. Os movimentos de esquerda também tiveram destaque, principalmente por meio de sindicatos e grupos ligados a comunistas, socialistas e liberais. O jovem Albert se filiou ao Partido Comunista, e isso reverbera em sua produção artística, com dramaturgias feitas para o teatro amador que ele criara, abordando a exploração do homem pelo homem, bem como as mazelas sociais.
Mazelas, aliás, que não faltariam em sua vida. Ainda jovem, casou-se com sua primeira esposa, Simone Hié, com quem não teve filhos e viveu uma vida infeliz. A biografia registra que o marido sabia que ela era viciada em drogas como morfina, o que lhe causava constrangimento. Camus também sabia, e segurou o quanto pôde, o fato de que Simone o traía com um médico.
Da leitura do livro se depura um fato: esse momento de grande agitação e dificuldades foi uma fase frutífera, de formação, e em certo sentido feliz. Havia, claro, as contradições de uma sociedade dependente econômica e politicamente de uma metrópole, em um rumo de polarização, num contexto pré-Segunda Guerra Mundial. Talvez por isso toda a agitação criativa de Camus, que sentia desde garoto a vontade de escrever. Ainda antes dos 25 anos, comunista, embora não marxista, o argelino fazia da sua prática a própria teoria. “Camus não se pretende marxista. Longa tentação, precipitada pelos acontecimentos, lançado numa busca do absoluto, ele faz uma experiência comunista”, escreve Todd. Para Camus e alguns outros, o alinhamento natural à União Soviética tem seus problemas — e isso será um fator determinante para o autor de A queda no futuro.
É ainda na juventude que ele escreveu, mas não publicou, um livro que, em certo sentido, seria o embrião de O estrangeiro, chamado A morte feliz, cujo protagonista é um franco-argelino chamado Mersault que mata um homem a sangue frio (no outro livro, será Meursault, uma letra de diferença, que também matará a sangue frio). O que vem à luz, mesmo, ainda na Argélia, foi O avesso e o direito, um volume de contos.
A questão é que, desde sempre, em um cenário incerto do jornalismo, Camus teve dificuldades financeiras, vez ou outra sendo socorrido por amigos e principalmente por parentes. Certa feita, ele escreveu que nunca desejaria viver fora da Argélia: “Tenho a sensação de que, em outro lugar, estarei sempre no exílio”. A vida prática, porém, impôs-se, e ele se mudou para Paris.
Paris, cidade mundo
Em Paris, polo da intelectualidade cujos sonhos são destruídos, como registrou Balzac em As ilusões perdidas, Albert Camus não teve muita escolha a não ser se arriscar. E o fez, a ponto de, pouco tempo após a mudança, buscar a então namorada, Francine Faure, que será sua segunda esposa e com quem terá dois filhos, um casal de gêmeos.
Ali, numa cidade ocupada pelos nazistas, Albert Camus se integrou à Resistência, grupo que envolvia políticos, intelectuais e militantes que atuavam para auxiliar pessoas prejudicadas ou perseguidas pelos alemães. No dia a dia, no jornalismo e nos cafés, discutiu, aprendeu e dialogou com homens como o escritor André Malraux e o filósofo Raymond Aron.
Foi nesse período que escreveu seus livros mais conhecidos, O estrangeiro e A peste, publicados pela Gallimard, uma das editoras mais respeitadas à época e até hoje. A casa editorial, aliás, é quem vai dar meios de subsistência a Camus, que passa a trabalhar por lá. “Editor da Gallimard, redator-chefe do Combat, escritor, Camus leva três vidas profissionais”, registra Todd. Camus ficou mais feliz como escritor, mas o tempo ficou cada vez mais curto.
Na efervescência parisiense, um nome, ou melhor, o nome de um casal, foi ganhando destaque e, anos depois, estaria consolidado: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Os três se tornam amigos, mas com algumas desconfianças e inseguranças entre si. Eles se leem e, de forma geral, elogiam-se mutuamente na imprensa. Em princípio, tudo certo: uma amizade formada pela intelectualidade, pelas noites (Sartre e Camus gostam de dançar!), pela atmosfera de luta e pela necessidade de uma nova sociedade. Aos poucos, eles vão se afastando, principalmente por questões políticas. O casal era mais alinhado à União Soviética e aos dogmas do Partido Comunista, enquanto Camus desejava outro tipo de orientação à esquerda, menos engessada. O argelino via problemas tanto no mundo capitalista, guiado pelos Estados Unidos, como no guiado pela URSS.
Citanto o escritor, Olivier Todd registra: “A liberdade é poder defender o que não acho, até mesmo num regime ou num mundo que aprovo. É poder dar razão ao adversário”. O livro conta, vale mencionar, que Sartre achava Camus menos filósofo do que romancista; e Camus considerava o outro menos romancista que filósofo.
Em Paris, o sucesso. As tiragens, na casa dos milhares, bem como a recepção majoritariamente positiva por parte da crítica, fizeram de Camus um homem famoso e bem-sucedido, mostrando que valeu arriscar a mudança de país. A peste, de 1947, por exemplo, teve uma tiragem inicial de 22 mil exemplares, vendendo mais de 50 mil cópias em poucos meses.
“Desde o sucesso de A peste, Camus poderia viver de seus direitos autorais, mas recusa que a sua vida material dependa do sucesso de seus livros e não quer que seus livros dependam do sucesso. Sua segunda profissão numa editora lhe dá os direitos da liberdade, mas também os deveres de suas obrigações”, escreve o biógrafo.
E fama, bem, não era algo de que Camus gostasse. Anotou ele em seus cadernos que “A fama! Na melhor das hipóteses, um mal-entendido. […] Aos trinta anos, quase que de um dia para outro, conheci a fama. Não o lamento. Poderia imaginar que fosse pior. Agora sei o que é. É pouca coisa”.
Sim, Albert Camus era inseguro e depositava suas dúvidas nos amigos mais próximos e nas amantes, com quem trocou muitas cartas ao longo da vida. O fato de ter sido bolsista na escola, de não ter se tornado professor de liceu ou de universidade, de não ter passado pelas melhores instituições da França, filho de uma mãe pobre, talvez tenham constituído esse perfil que, embora com relativo sucesso, guardasse para si uma melancolia.
E havia motivos externos para isso também, claro.
Desencantamentos
Camus era um homem desejado, segundo Todd. Comparado a Sartre, por exemplo, ele era mais atraente, e o filósofo sabia disso. Além disso, Camus vendia livros, era reconhecido nos meios intelectuais (mesmo que criticado), e isso lhe trouxe mulheres. Muitas. Até o fim da vida, ele permanecerá com três: a esposa Francine, a atriz Maria Casarès e Mi, uma jovem fã que ele conheceu e com quem manteve um longo caso.
De acordo com o biógrafo, Camus amava Francine, mãe de seus filhos, mas a considerava uma irmã. Francine, professora de matemática e pianista, desenvolveu depressão e tentou se matar algumas vezes. Além disso, passou por tratamentos, alguns deles consistindo em sessões de eletrochoque.
Olivier Todd conta que Francine e a própria família dela sabiam dos casos de Albert Camus. Por vezes, a família incentivava a separação, que nunca aconteceu. Da mesma forma, as amantes também sabiam da esposa, e todo mundo ia vivendo. É curioso, num sentido triste, saber que Sartre e Simone de Beauvoir tinham o que hoje chamaríamos de relacionamento aberto, algo que Camus não via com bons olhos (enquanto traía a própria esposa…). Essa sensação de culpa, ou algo parecido com isso, angustiava o argelino, que também se entristecia com os rumos políticos da França no pós-guerra, bem como com os comunistas.
Criticando publicamente alguns aspectos da União Soviética, ele trouxe para si a antipatia dos comunistas. Todd diz que criticar, então, esse modelo de sociedade era quase um sacrilégio. Em Paris, Camus também tinha dúvidas quanto à independência da Argélia, que, para ele, significaria o fim dos argelinos descendentes de europeus, como era o caso de sua família, que continuava por lá. Por isso, era visto por alguns grupos argelinos mais como francês do que como concidadão. O escritor parecia estar sempre em um não lugar: no casamento, na política.
Esse não lugar, por outro lado, o levou a alguns lugares, como os Estados Unidos. Por lá, encantou-se com o que viu. “Ele gosta da Broadway, de seus teatros, de suas luzes de néon, da Bowery”, escreve Todd. Nos EUA, fez sucesso e viu com bons olhos a chamada terra da liberdade. “Não vou, como Sartre, cuspir no prato depois de ter aceitado tomar a sopa oferecida”, registrou Camus.
Em 1949, Albert Camus veio ao Brasil e registrou a pobreza vista em lugares como o Rio de Janeiro. Nessa turnê, aliás, ele teve ao menos duas ideias de suicídio.
Fato é que, em 1957, Camus foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura aos 44 anos, um dos mais jovens a receber o título na história. E a vida dele se encerrou pouco tempo depois, após ter passado o fim de ano com a família e amigos em Lourmarin, interior da França.
Sobre o texto
Talvez acostumado aos trabalhos de biógrafos como Ruy Castro, Paulo César de Araújo e Mário Magalhães, em que o texto é delicioso e ritmado desde as primeiras páginas, confesso ter tido alguma dificuldade nas primeiras 350 páginas deste Albert Camus: uma vida.
O autor, faço o registro, deixa claro que se trata de um ensaio biográfico, ou seja, um livro de análise, comentários e afins ao longo do texto. Isso de fato ocorre, principalmente quando elucida a recepção da obra de Camus — o ponto alto da biografia, para mim.
Por outro lado, especialmente no começo da obra, há um amontoado de informações em um linguajar quase taquigráfico. Um exemplo:
Os alunos desembarcavam nas faculdades ignorando tudo sobre os métodos do ensino superior. Martino desejava que fizessem uma introdução ao assunto. As khânges dos grandes liceus da França preparam para o concurso de ingresso à Ecole normale supérieure da rua d’Ulm, em Paris. Os melhores alunos do liceu são mandados para Paris, ao Louis-le-Grand e ao Henri-IV, ou ao liceu do Parc de Lyon. Grenier, professor, frequentemente não comparece. Estuda-se pouco na hypokhâne de Argel, intervalo de luxo. Os alunos se cultivam, se distraem. Jogam futebol com alunos de outras classes preparatórias.
Se pensarmos na história do autor, contada de forma linear, há certo cansaço na leitura: a família, o nascimento, a escola, a universidade, o trabalho, o casamento e assim por diante. Rico em informação, o que é positivo, mas, por vezes, um texto reto demais, ao menos para mim.
Vez ou outra, o autor se arrisca artisticamente, colocando o discurso direto livre na biografia — uma tentativa de estilo próprio? Ao citar Jean-Paul, Olivier Todd escreve aspas ou algo do tipo para emular uma possível fala do filósofo. “Camus é sensível. Sartre tem couro curtido. Quem me segue me ame, se lhe convier, e os outros, todos imbecis, menos minha mãe, uma santa, e o Castor… não verdadeiramente santa.” Castor, a propósito, é o apelido de Simone de Beauvoir.
Aos que vencerem esses pontos, o livro recompensa em razão do personagem apresentado.
LEIA TAMBÉM

Escreva muito e sem medo: uma história de amor em cartas
Albert Camus e Maria Casarès
Trad.: Clóvis Marques
Record
1.286 págs.