Em busca da vida eterna

Em "O louco de Deus no fim do mundo", o espanhol Javier Cercas mistura reportagem e ficção ao acompanhar o papa Francisco na Mongólia
Javier Cercas, autor de “O louco de Deus no fim do mundo”
01/04/2026

Desde que Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote (entre outros) inventaram o chamado new journalism, ainda nos anos 1960, os livros-reportagens vêm conquistando um espaço crescente no mercado editorial, beneficiados pelo ritmo rápido de leitura e pela quantidade de informação que oferecem. Se, por um lado, esse êxito fácil popularizou o formato; por outro, tornou mais difícil as suas transformações internas (em time que está ganhando, não se mexe). Por isso mesmo, Emmanuel Carrère teve grande mérito ao aperfeiçoar o gênero, já na década de 1990, criando o roman non fictionnel; assim como Svetlana Aleksiévitch, que lhe aplicou outra renovação vigorosa, graças à sua técnica de polifonia coral. Depois disso, tudo parecia indicar que já não houvesse espaço para outra contribuição de peso às reportagens em forma de livro. Até que ela veio! Veio da Espanha, logo no início do século 21, mais precisamente da pena de Javier Cercas, de quem a editora Record publicou, no final do ano passado, O louco de Deus no fim do mundo, sua obra mais recente, que chegou ao Brasil poucos meses após o lançamento simultâneo nos países hispânicos.

Antes de abordar a questão da “mutação genética” provocada por Cercas nos livros-reportagens, vamos cuidar um pouco dessa obra recém-lançada, que emplacou o primeiro lugar na lista dos melhores livros espanhóis de 2025, elaborada pelos críticos de Babelia — o suplemento cultural do jornal El País. Trata-se de um livro sob encomenda, e a sua gênese está descrita no corpo de suas próprias páginas; um convite — feito a Cercas pelo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé — para que integrasse a comitiva que acompanhou o papa Francisco na viagem à Mongólia, realizada em 2023, e escrevesse o relato da experiência vivida. Tudo sem compromisso. Se, após retornar da viagem, não quisesse escrever nada, não precisaria fazê-lo. A primeira reação de Cercas foi de incredulidade, também reportada no livro:

Mas, olha, os senhores não sabem que eu sou um sujeito perigoso?

Ao que tudo indica, não só sabiam, como era exatamente o que buscavam. Um escritor desvinculado das questões do Vaticano e, mais do que isso, um ateu declarado, ao qual é dada total liberdade para dizer o que quiser, mesmo que ao final da viagem tenha somente críticas a fazer. Toda essa generosidade se explicaria por um lento processo de abertura do Vaticano aos artistas, independentemente de suas crenças e/ou posições religiosas, e “aos que não têm fé” ou pelo menos não a têm muito sólida, porque às vezes há que buscar seus pastores entre os pecadores, como ensina o próprio exemplo de Cristo, ao escolher Pedro — o mais pecador de seus discípulos, aquele que o negou três vezes seguidas — para liderar o povo de Deus.

Sim, tudo isso também está mencionado no livro, porque, como todo livro-reportagem que se preze, O louco de Deus no fim do mundo contém doses maciças de informação. O leitor pouco familiarizado com as questões da Igreja e do papa Francisco em especial será apresentado ao personagem Jorge Mario Bergoglio; seguirá sua trajetória desde criança, a adolescência como dançarino de tango e namorador; o momento da opção pelo sacerdócio, após sair de um confessionário na basílica de São José; o trabalho desenvolvido nas comunidades mais carentes da periferia de Buenos Aires; os altos e baixos da carreira eclesiástica até o conclave que o transformaria em papa. A partir daí, acompanhará sua luta (nem sempre exitosa) para reformar o Vaticano, livrá-lo do excessivo clericalismo, sanear as finanças dúbias da Santa Sé e reintroduzir Cristo na alma da Igreja. Conhecerá os homens de confiança do Santo Padre (“os soldados de Bergoglio”), entrevistados por Cercas, embarcará na aeronave que conduz a comitiva papal à Mongólia e aterrissará em sua capital, Ulan Bator, para acompanhar o dia a dia da viagem e conhecer também a realidade dos fiéis e missionários católicos em terras inóspitas e de difícil penetração para o cristianismo. Por fim, refletirá ainda sobre “o segredo de Bergoglio”.

Leitmotiv
Conhecedor das técnicas de sedução e conquista de leitores, Cercas introduz, desde o início do livro, um leitmotiv que o acompanhará até o final. De fato, logo após a epígrafe, há um breve texto de sete linhas do autor, no qual ele afirma que a sua principal motivação ao aceitar o convite para integrar a comitiva do Papa foi a de poder manter um breve encontro com o pontífice e perguntar-lhe sobre a ressurreição da carne e vida eterna, de forma a levar a resposta à sua mãe, que espera reencontrar o marido após a morte. Embora a conversa com o Papa acabe ocorrendo já no voo de ida para a Mongólia, ou seja, ainda na primeira metade do livro, Cercas não revela o que Francisco lhe respondeu e utiliza o artifício de fazer com que o leitor, em sua curiosidade, se identifique com um dos companheiros de comitiva, o chefe da Libreria Editrice Vaticana (editora da Santa Sé), por meio da transcrição de um diálogo:

— Fez a pergunta que queria fazer?
— Sim.
— E o que ele respondeu?
— Não vou contar.
— Não vai nem me dizer se ele respondeu?
— Nem isso.

Pronto, está garantido o suspense até o final da leitura. Para os leitores que já conhecem a mãe de Cercas, ou melhor, “o personagem da mãe de Cercas” de outras obras (sobretudo, de O impostor), essa motivação tem ainda o sabor de reencontro e propicia páginas de forte emoção ao final do livro. Para não dizer que reforça a hipótese da fabulação ficcional dentro da reportagem, com Cercas que, na melhor tradição da autopsicografia de Pessoa, chega a fingir que é motivação a motivação que deveras tem.

Mas tudo isso apenas descreve o conteúdo do último livro de Javier Cercas, sem esclarecer o que faz com que a contribuição do autor ao formato do livro-reportagem seja diferenciada. E já não é possível postergar esse tema. Então, façamos a pergunta com todas as letras: o que distingue os seus livros-reportagens das outras centenas de livros desse gênero que se publicam a cada ano? Por que, na longa viagem das reportagens em forma de narrativa, algumas das obras de Cercas são uma escala importante e não somente uma mera parada para abastecimento?

Responder a essa pergunta é fundamental para entender a razão de Cercas desfrutar hoje de uma quase unanimidade (Deus o livre dela!) de público e crítica, tendo sido empossado em novembro de 2024 na Real Academia Espanhola, com seus livros cada vez mais vendidos e traduzidos mundo afora. Sem essa resposta, tampouco entenderíamos o porquê do convite para integrar a comitiva do Papa e escrever o livro do qual estamos aqui a tratar.

Resposta
Pois bem, a resposta está em outro livro, um livro que os leitores mais fiéis de Javier Cercas já sabem qual é: Soldados de Salamina (2001). Nesse romance, ao qual Cercas deve praticamente tudo o que realizou depois e também o reconhecimento que obteve no mundo literário, produziu-se um entrelaçamento inédito, praticamente inextricável, entre livro-reportagem e ficção. Como se não bastasse, essa eclosão “do novo” foi coroada pela “felicidade” de um estilo narrativo capaz de arrastar multidões. De quebra, Cercas construiu ainda uma espécie de fórmula, que acabou repetindo nos demais livros-reportagens que escreveu (Anatomia de um instante; e O impostor; além, é claro, de O louco de Deus no fim do mundo). Em todos esses livros, independentemente do grau maior ou menor de ficção que possuam (ao contrário do que possa parecer, nenhum deles é reportagem pura), estão presentes os mesmos elementos e quase sempre na mesma ordem, a saber: a ideia ou projeto do livro, a dúvida do autor sobre se o livro “funcionará”, a troca de impressões com amigos, pessoas da família e especialistas no tema, as informações sobre os fatos reais e o preenchimento de suas lacunas com ficção.

É provável que uma fórmula dessas, se utilizada por outros escritores (mesmo os mais talentosos), resultasse em livros patéticos, mas nas mãos de Cercas ocorre o milagre: surgem obras excelentes, justamente premiadas, que merecem ser lidas pelo enorme prazer e conhecimento que proporcionam. E, no caso de Soldados de Salamina, o resultado vai muito além, produzindo uma autêntica obra-prima, que, nas palavras de ninguém menos que George Steiner, “deveria tornar-se um clássico” (a modern masterpiece that should become a classic).

De qualquer forma, trata-se de uma fórmula muitas vezes repetida, e as fórmulas em literatura encerram riscos para os escritores que as aplicam, ainda que se trate de seu próprio inventor. Ninguém sabe disso melhor do que Cercas, que não apenas exorcizou as tentações do demônio nas páginas de seus livros-reportagens, dizendo que “tinha de voltar a escrever ficção”, como o fez na prática, dedicando-se à sua trilogia policial Terra alta. Mas o diabo não se deixa driblar assim tão facilmente, e insiste com as tentações, por vezes apresentando-as em nova roupagem, acima de qualquer suspeita. Digamos, por exemplo, um convite para acompanhar o Papa e escrever um livro…

E por vezes obtém algum êxito em suas emboscadas. No caso de O louco de Deus no fim do mundo, embora a excelente recepção da obra, já relatada acima, há que dizer que a comparação com os livros-reportagens anteriores de Cercas lhe é desvantajosa. Além de repetir a fórmula um tanto gasta, o livro não possui o efeito hipnotizador de Anatomia de um instante e de O impostor. A transcrição das conversas com “os soldados de Bergoglio” é longa e repetitiva, e tem-se a impressão de que eventuais pressões editoriais para que o lançamento da obra praticamente coincidisse com a morte de Bergoglio (como de fato ocorreu) tenham acelerado a sua redação, com os conhecidos efeitos que a pressa costuma ter sobre os textos.

Mas que ninguém se engane: com todos os senões e poréns, O louco de Deus no fim do mundo pode ser classificado como um ótimo livro. Se todas as obras que se publicam estivessem nesse nível, o cenário literário seria o paraíso na Terra. O fato é que Cercas havia colocado o sarrafo muito alto em seus saltos anteriores, e fica difícil repetir certas performances, sobretudo quando a fórmula é a mesma. Talvez seja o momento de retornar à ficção.

O louco de Deus no fim do mundo
Javier Cercas
Trad.: Joca Reiners Terron
Record
480 págs.
Javier Cercas
Nasceu em Ibahernando, Cáceres (Espanha), em 1962. É escritor, tradutor, jornalista e professor universitário. Reconhecido por unir reportagem e ficção em narrativas híbridas, ganhou notoriedade mundial com Soldados de Salamina (2001), traduzido em mais de vinte idiomas e adaptado para o cinema. Entre suas obras destacam-se A velocidade da luz (2005), Anatomia de um instante (2009), O impostor (2014) e a trilogia policial iniciada com Terra Alta (2019). Em 2024, foi eleito membro da Real Academia Espanhola, consolidando-se como um dos principais nomes da literatura contemporânea.
Milton Coutinho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1966. É escritor e diplomata. Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela Universidade de Barcelona. Autor de volumes de contos e romances, dos quais o mais recente é Autobiografia Póstuma de Machado de Assis (2024, 7Letras).

Rascunho