De verdade em verdade

Em "Os anos de vidro", Mateus Baldi explora as muitas faces fictícias do real, num jogo vertiginoso de ambiguidades e espelhos
Mateus Baldi, autora de “Os anos de vidro” Foto: Marina Martins
01/03/2026

Em As aulas de Hebe Uhart, Liliana Villanueva ressalta dois ensinamentos da escritora e professora de escrita criativa argentina: “Todo conto tem um ‘mas‘” e “adentra-se — na história, no personagem — pela fissura”. O “mas”, aqui, refere-se às ambivalências na caracterização das personagens, o elemento que as humaniza. Já a “fissura” é o momento em que a trajetória começa a ruir, as coisas saem do eixo e o conflito se estabelece. A fissura seria, portanto, o ponto de partida e momento definidor na construção da narrativa. É a brecha por onde toda a tragédia, a comédia, a beleza ou o humor possíveis abrem caminho. De forma ligeiramente inversa, Maggie Nelson, citada na epígrafe de Os anos de vidro, diz a mesma coisa: When you try to hide, the spectacle can grow grotesque. Em consonância com essa ideia, a escrita de Mateus Baldi atravessa os onze textos vencedores do Prêmio APCA 2025 na categoria conto: tudo aqui parece seguir a premissa da mera sugestão, do mistério, esboçando apenas as muitas verdades possíveis sobre as personagens para que elas reverberem de forma diferente em cada leitora.

O primeiro conto funciona como uma chave. Com ele, uma porta é entreaberta e as histórias das muitas variabilidades, os desejos, os devaneios, tudo o que “poderia acontecer” se esgueira para uma dimensão intermediária onde coabitam a realidade e a imaginação; em outras palavras: o entre-espaço da ficção se instala. Neste território de liberdade absoluta — espécie de “Ma” japonês, que une as ideias de tempo e espaço num só intervalo e representa o “alinhamento de sinais num lugar vazio onde todos os tipos de fenômenos aparecem, passam e desaparecem”, segundo o arquiteto Arata Isozaki —, neste território, eu dizia, basta um olhar mais atento e uma pessoa sentada cinco fileiras à frente no mesmo avião se transforma em um amante, um assassino, um interlocutor. Ironicamente, o título deste conto-chave é: Uma verdade, deixando claro que diferentes versões do real são não só possíveis, mas bem-vindas.

Na sequência, em O sábado de carnaval, chama a atenção o salto não só geográfico e temático, mas também no estilo da escrita: aqui a linguagem é mais “rasteira”, cheia de gírias e testosterona: se na narrativa anterior estávamos num voo para um país distante e provavelmente agradável, aterrissamos agora em cheio num ambiente “ferruginoso, um cemitério no meio da cidade que nem é bem cidade”. Um lugar sem nome nem dono onde os contrastes coexistem — homens armados movimentam-se entre crianças que brincam e jovens que soltam pipas. Os dois protagonistas encontram-se ali num bar para combinar os detalhes do assalto a uma loja. Depois de se despedirem, aquele que antes parecia resistente à violência passa por uma completa transformação emocional durante uma curta viagem de ônibus de apenas algumas frases. E, súbito, o homem é tomado inteiro pela vontade irresistível do risco, como se entendesse ser esse o seu “verdadeiro” desígnio.

é preciso mais do que simplesmente ser um bom marido, um bom pai, bom filho, é preciso invadir a rotina e eliminar os riscos, enquanto você não está em risco todos os riscos existem, só no risco que o risco desaparece, que o perigo engana e te faz concluir que a verdadeira vida (grifo meu) é a que se desenrola quando um menor aprendiz te entrega sacos de dinheiro, uma senhorinha ergue os braços e suplica, um homem dá de cara com a mesa, o nariz partido, o rosto sem saber do imprevisto, do que vem por aí.

Saltos e sobressaltos
Porém, mal essa ideia é esboçada e já acontece mais uma reviravolta: a ilusão descamba para a desilusão e ele próprio é assaltado por outro rapaz. São esses saltos e sobressaltos, cuidadosamente inseridos numa narrativa a um tempo lacônica e caudalosa, que tornam a caligrafia de Baldi tão peculiar. Nunca há tomada de fôlego: somos lançados diretamente em novas situações como as personagens em desafios; não há didatismo nem a tão obsoleta necessidade de verossimilhança, até porque a vida — das personagens, a nossa — não é verossímil. Para sê-lo, ela teria que se assemelhar à verdade que, como sabemos, não existe no singular.

Já em Boneco, voltamos a uma construção narrativa parecida com a do primeiro texto: toda a história é contada a partir de uma antecipação, que é ao mesmo tempo uma reconstrução na cabeça da narradora. Os diferentes incidentes se sobrepõem num caleidoscópio de tempos que deixa a leitora sem saber o que realmente aconteceu e o que é medo ou delírio. Este, como vários dos textos do livro pedem ao menos uma releitura, e cada uma delas desentulha novas camadas a serem descobertas.

O vaivém entre prosaísmo e linguagem poética, quase musical, adaptado ao registro oral das personagens, é outra característica da escrita de Baldi. O trágico e o cômico estão sempre de mãos dadas, suspensos sobre vários contos, como em Istmo e Situação, sem que se resolvam. Não há clímax, e essa é, sem dúvida, uma decisão consciente.

Em Uma narrativa de pressuposto, cujo título é programático para todo o projeto deste livro, a história de um amor é contada aos rodeios em torno do desaparecimento de um cachorro. Aqui também a morte paira no ar e convive em harmonia com o nascimento da paixão. Essa contiguidade permanente entre o trivial e o essencial, o belo e a dor, a vida e a morte, expõe o quanto somos frágeis.

O texto Cavalo que, segundo a autora, foi o ponto de partida para a coletânea, de fato condensa temas e recursos estilísticos centrais do conjunto. Esse conto traz — e questiona — os conceitos de liberdade, gênero, risco, desejo, medo, cotidiano e da própria escrita, em uma narrativa estonteante em forma de “fluxo de consciência” sem rede de proteção. Em certo momento, esse fluxo se transforma numa verdadeira torrente, arrastando tanto protagonista como leitora para dentro de uma longa frase-redemoinho onde giram prospecções, fantasias, uma miríade de imagens, sustos. E nos traz de volta à tona com a mesma mão firme. Alguns personagens entram na história para ficar poucos segundos e já desaparecem dentro de um ônibus; já outros acompanham a protagonista após se despedirem. Na verdade — e isso pode ser de fato “uma verdade” —, terminamos o texto com a sensação de que todas as personagens são apenas faces diversas da mesma protagonista, Marina, que transita pelas histórias com vários corpos, num carnaval narrativo – no melhor e mais profundo sentido do termo: carne levare ou carnis levale, que significa “tirar a carne” ou “afastar-se da carne”. Sendo que a carne aqui é a própria. De verdade em verdade, Marina vai se desconstruindo e reconstruindo ao longo dos onze contos. Termina-se o livro com a sensação de que a autora deve ter sentido um prazer catártico ao escrevê-lo, e esse prazer contagia.

Perguntado certa vez sobre o caráter enigmático de seus filmes, David Lynch respondeu: “Para mim, um mistério é como um ímã. Sempre que há algo desconhecido, há uma atração. Por exemplo, se você estivesse numa sala e visse uma porta aberta dando para uma escada que desce, e a luz ali simplesmente desaparecesse, exatamente por não ver o fundo, você ficaria muito tentado a descer até lá”. Os contos de Os anos de vidro exploram esta mesma fascinação pelo desconhecido para formar um livro forte e intrigante, urdido com os finos fios de mistério.

Os anos de vidro
Mateus Baldi
Nós
144 págs.
Mateus Baldi
Nasceu em 1994, no Rio de Janeiro (RJ). É mestra em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Seu livro de estreia, Formigas no paraíso, foi publicado em 2022.
Carla Bessa

É tradutora e escritora. Autora de Aí eu fiquei sem esse filho (2017).

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