O argentino Julio Cortázar (1914-1984) gostava de cartas longas; o mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), por sua vez, divertia-se ao saber que era alvo de críticas de seus conterrâneos; já o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) escrevia um ou outro palavrão para reforçar a saudade dos amigos; e o peruano Mario Vargas Llosa (1936-2025) tinha horror ao que chamava de “literatura epistolar”. Essas são algumas das informações depreendidas da leitura de As cartas do boom. O volume, com quase 600 páginas, reúne a troca de correspondência entre os quatro escritores, que vai de 1955 a 2012. É um correio latino-americano.
“Essa conversa entre os quatro amigos brilhantes e exitosos nos oferece um acesso sem precedentes às suas relações pessoais e públicas, com todos os seus encontros e desencontros, e nos abre uma janela privilegiada à literatura e à política latino-americanas, especialmente durante um período crucial da sua história moderna de 1959 e 1975”, registraram Carlos Aguirre, Gerald Martin, Javier Munguía e Augusto Wong Campos, os organizadores da coletânea.
São 207 cartas, telegramas e bilhetes, atestando amizade, lealdade e divergências — isso principalmente a partir dos anos 1970 envolvendo Cuba. O recheio do livro, claro, está nas missivas enviadas nos anos 1960, período em que ocorreu, de fato, o chamado boom, quando os autores foram lidos, traduzidos e comentados em vários países. Um aviso: não se encontraram cartas de García Márquez a Cortázar e nem de Vargas Llosa a García Márquez (e só uma de Vargas Llosa a Cortázar). Um dos motivos é que o colombiano não era uma pessoa que tivesse todo um cuidado especial com a própria correspondência.
Bem editado, com notas explicativas, ao final da obra há um apêndice com ensaios, resenhas e entrevistas do quarteto de autores.
Um prato cheio, portanto.
O boom
Embora vivendo em locais diferentes — de Buenos Aires a Paris; de Cidade do México a Barcelona —, Cortázar, Llosa, García Márquez e Fuentes formavam, à frente do chamado boom, um “movimento e momento na história do romance nos anos 60 do século passado”, como apontam os organizadores. Conquanto outros nomes vez e outra sejam lembrados como parte dessa geração, os quatro missivistas tiveram mais destaque e status em comparação com os demais. Eles eram o boom. O termo, aliás, foi apresentado por um jornalista argentino em 1966, e Gabriel García Márquez foi o primeiro a utilizá-lo em uma correspondência despachada em 1967.
A primeira carta, datada de 1955, foi enviada por Carlos Fuentes a Julio Cortázar, então um nome já conhecido. Nela, o remetente apresentou uma nova revista dirigida por ele e pediu ao destinatário que, se possível, enviasse algo para ser publicado no periódico: “Todos nós conhecemos o seu valor como escritor; por Emma, também conhecemos seu valor como amigo. Contar com o senhor nos proporcionaria essa dupla colheita”, escreveu Fuentes em 16 de novembro de 1955, enviando do México à França. Em 21 de dezembro, do mesmo ano, Cortázar respondeu da capital francesa, encaminhando um conto e dizendo que já havia lido trabalhos do mexicano — demonstrando um cuidado que se repetiria com os outros amigos.
Não que fosse segredo, mas os autores foram parceiros mesmo. Dos 207 registros, em 85 aparecem os nomes dos três; em 33, dos quatro, provando haver um cuidado sentimental e artístico, apesar do distanciamento físico entre eles. Aliás, o grupo só vai se conhecer pessoalmente na década de 1960. E pasmem: eles só estiveram os quatro juntos em duas oportunidades, em 1970.
Nas trocas, eles também falavam um do outro, comentavam planos entre si, como a escrita de um livro em conjunto (que não foi para frente), ou planos de viajar em conjunto. E a amizade, claro, surgia em razão primeiro da literatura. De maneira direta, primeiro um lia o outro; depois, por meio de alguém em comum, descobria o contato do colega de profissão e, a partir daí, estabelecia-se o diálogo.
Acompanhar o desenvolvimento da conversa entre os quatro é ver a evolução do romance latino-americano, os prêmios chegando e os elogios mútuos — todos se liam e se comentavam. O mais generoso e crítico era Cortázar, que se dizia ser o que menos gostava de ações em público. Ele foi um entusiasta de primeira hora dos romances iniciais dos amigos — ajudando, por exemplo, a divulgar os livros dos outros três na França, onde viveu a maior parte da vida. O argentino, aliás, é visto como o grande escritor entre os amigos, como registrou Carlos Fuentes em uma carta enviada em setembro de 1964:
Nada do que eu disser será suficiente para expressar o quão importante é a tua presença para todos nós. O jogo da amarelinha é o romance latino-americano que enterra em definitivo o nosso provincialismo.
A leitura das cartas, conforme o tempo passava, também os aproximava. O autor de Cem anos de solidão, por exemplo, iniciou a correspondência com Llosa chamando-lhe de “estimado”, de modo protocolar; posteriormente, o pronome seria deixado de lado, vindo à baila um apelido: “grande chefe Inca”.
Para além das questões referentes à produção de cada um, havia a tentativa de olhar para o fenômeno que acontecia com a literatura latino-americana e o mundo. Não podemos esquecer que, nos anos 1960, ocorriam a Guerra do Vietnã, a Revolução Cubana, o existencialismo — tudo estava em ebulição, tudo mudava, e os leitores finalmente existiam para aqueles autores que, por anos, pareciam viver na periferia da cultura.
García Márquez escreveu para Carlos Fuentes em 26 de janeiro de 1967:
O romance latino-americano quebrou todos os recordes de vendas no ano passado na Colômbia, segundo recortes de imprensa que eu acabei de receber. […] Isso quer dizer que o nosso público está respondendo muito bem. Sobretudo a juventude universitária, na Colômbia, é gente que nos segue com enorme interesse, e te aviso que esse respaldo juvenil para um grupo de escritores é um fenômeno completamente novo no meu país.
Quanto aos autores brasileiros, dois são lembrados: Guimarães Rosa, quando morre, em 1967; e Jorge Amado, quando pensam em convidá-lo para um evento em Cuba. Não há comentário sobre a obra de nenhum deles.
E, claro, não havia mulheres.
Quatro homens
Talentosos, esforçados e vivendo em outro país que não o seu de origem. Há uma sensação de que eles estavam predestinados ao sucesso — uma sensação falsa, claro, que a leitura das cartas ajuda a desmontar. Houve muito trabalho, mas um fato é inegável: eles disputavam espaço e poder no campo literário. Isso acontecia de várias formas: em entrevistas, um elogiava o outro; em jornais e revistas, um resenhava e comentava o outro; ou indicava o trabalho do outro para prêmio e editora — sejamos francos, eles tinham qualidade literária para isso! À luz da história, era quase como uma luta simbólica para a criação de uma identidade latino-americana fora da própria América Latina.
Embora siga até 2012, o ouro do material termina em 1975, quando especialistas dizem ter chegado ao fim o boom. Os problemas da União Soviética, a censura em Cuba e alguns outros fatores foram os motivos que, pouco a pouco, acabaram afastando as ideias e os amigos — culminando no soco, em 1976, de Vargas Llosa em García Márquez, uma história hoje quase mitológica.
As cartas do boom não me parece ser a porta de entrada ideal para conhecer a obra de cada um dos autores, mas com certeza é um caminho necessário para quem quiser saber o que foi a literatura latino-americana nos anos 1960, cujo vulto está presente até hoje e, ao que tudo indica, permanecerá por muitos anos.