Horas depois da morte de Jim, seu cachorro preto de treze anos, o belga François Schuiten começou a desenhá-lo. Foi a maneira que encontrou para parar de chorar. Desenhar imediatamente preencheu o vazio deixado pela partida de Jim.
Desde então, Schuiten o desenhou diariamente, criando uma espécie de diário de imagens que o ajudou a sentir sua presença enquanto não se acostumava com a ausência.
Jim é um compilado desses desenhos. É um livro ilustrado sobre a relação única de um animal com seu tutor e um alento para quem acabou de passar por algo semelhante. Todo mundo sabe que eles provavelmente vão partir antes de nós, mas ninguém está realmente preparado para a partida.
As ilustrações são ricas em detalhes, ocupam quase toda a página, e Jim muda de tamanho de acordo com o que está sendo narrado, chegando, em alguns momentos, a ficar do mesmo tamanho de seu tutor, mas em outros, muito maior que ele. A escala entre Jim e François varia a cada história.
A história é contada de um jeito fixo e ritmado. O livro tem um ritmo estruturado para narrar memórias que surgem na ordem em que desejam aparecer. É um diário de memória contado como a rotina de um cachorro: acorda, passeia, volta para casa, dorme. Mas, a cada dia, a história é a lembrança daquele dia — pode ser algo de que Jim gostava, um hábito, uma parte do cotidiano.
Nas páginas da direita, um desenho de Jim ocupa toda a página. À esquerda, há um texto curto acompanhado de uma vinheta (uma imagem pequena e sintética) de Jim, que não se repete ao longo do livro. Cada dupla de páginas corresponde a um dia na vida de François. O tempo é linear, mas as lembranças não.
A estrutura fixa e ritmada abarca as lembranças aleatórias. Esse ritmo previsível remete à rotina de um dia de cachorro, sempre na mesma ordem, como o ciclo do dia.
A cada dia, somos apresentados a algo novo de Jim. A cada página virada, avançamos mais um dia na ausência de Jim na vida de François.
Experiência com quadrinhos
Além de ilustrador e cenógrafo, François Schuiten é também autor de quadrinhos e sua experiência com HQs aparece nas páginas de Jim.
Em um dos dias, para representar a ausência do cão em um momento cotidiano, como deitar no sofá, François utiliza o recurso de três quadros verticais. O primeiro mostra a imagem completa, a cena inteira tal como ele a lembrava. O seguinte apresenta Jim já sem cor: os pelos negros do cachorro passaram a ficar brancos, como se estivessem realmente sumindo. No terceiro e último quadro, vemos apenas o sofá e a mão de François, sem nenhum vestígio de Jim.
Em outros dois momentos, ele também se apropria desse recurso para narrar — um antes e um depois — durante o passeio de carro. No primeiro quadro, Jim era visto pelo espelho retrovisor; no segundo, ele já não estava mais lá.
Um pouco mais à frente, quando ele descreve Jim como “boca mole”, explica que sua raça é de caçadores de patos e, por isso, eram treinados a não mordê-los para não matá-los. Nessa dupla, há uma sequência de imagens de Jim segurando objetos na boca sem destruí-los. São vários quadros, um ao lado do outro, formando uma sequência que completa a página.
Mas, mesmo que a lógica dos quadrinhos apareça aqui e ali, este é um livro ilustrado em que o autor utiliza, com muita habilidade, as riquezas e os recursos específicos desse formato
A dupla de páginas de um livro ilustrado constitui uma unidade narrativa. François utiliza sempre a página da direita como a página da ação, ocupada apenas pela imagem de Jim em toda a sua extensão, e a da esquerda para o texto, sempre curto, preciso e nunca redundante em relação à imagem.
Em um livro ilustrado, texto, imagem e suporte se fundem para construir uma narrativa. A equação entre esses três elementos pode ter muitas combinações: pode ser um livro mais gráfico do que textual, um livro em que a importância do design se destaca ou em que o texto ganha maior relevância.
Aqui, a imagem é predominante; o texto, curto e íntimo, mas, em alguns momentos, literal demais. Se o texto fosse menos colado à imagem, algumas páginas ganhariam mais camadas de leitura.
Voltando à estrutura, o livro avança para a direita na sequência dos dias. Mas lembra das vinhetas de Jim que apareciam em toda página de texto?
Então, elas se movimentam como um “cineminha” se as páginas forem viradas rapidamente do final para o começo do livro. É como se, ao voltar, déssemos vida às vinhetas, relembrando Jim vivo.
O livro finaliza com uma pequena coleção de desenhos de Jim feita por amigos do autor, que, assim como ele, trabalham com ilustração. Surge então uma sequência muito simpática de desenhos com estilos variados, com os quais François foi presenteado.
Jim é um livro poético, que trata com delicadeza da ausência e do luto. Quem já perdeu um animal de estimação sabe que esse é um luto muito específico — nem todo mundo compreende. É daqueles livros que, para quem já viveu essa experiência, a leitura faz com que se sinta menos sozinho.