Feito bestas é o primeiro romance da francesa Violaine Bérot publicado no Brasil. Em 2023, o livro recebeu o Prêmio Livrarias de Madri. Trata-se de um romance polifônico com características de narrativa policial, uma vez que cada capítulo apresenta um depoimento prestado a um delegado. Nunca ouvimos as perguntas ou a voz desse delegado. A tarefa do leitor é montar a história a partir das vozes de moradores de uma comunidade isolada nas montanhas que se vê diante de um acontecimento inusitado — uma menina nunca vista na região é encontrada nas proximidades de uma gruta. Ninguém sabe quem ela é nem quem são seus responsáveis. O que se sabe é que ela parece ter sido criada e cuidada por um habitante da região apelidado de Urso, conhecido por conta de uma deficiência. A história de Urso e de sua mãe, Mariette, bem como as relações entre os dois e a comunidade local, são o foco do romance. Ao longo dos depoimentos, as várias visões a respeito de mãe e filho são apresentadas de acordo com quem fala: a professora da escola, um antigo colega, habitantes e visitantes da região etc.
Os capítulos com os depoimentos são entremeados por poemas nos quais ouvimos a voz das “fadas”. Tais poemas trazem a presença de uma espécie de voz ancestral que observa e comenta o cotidiano dos moradores, funcionando também como um tipo de coro grego. Ao longo dos depoimentos, entendemos que há uma crença no local segundo a qual crianças que não se comportam podem ser roubadas por fadas que as mantêm na gruta da região. Tentar resgatá-las atrairia desgraça para as famílias. A voz das fadas, contudo, acaba contradizendo o que os moradores dizem, já que expressa o desejo de aliviar as mães e não de roubar seus bebês:
Nós as fadas não roubamos os bebês não
Nós as fadas não roubamos os bebês mas aliviamos suas mães
Se elas não querem saber de seus bebês as mães nós as fadas as aliviamos.
Nesse contexto, variando entre o policial e o místico, a obra se desenvolve, suscitando reflexões sobre a maneira de convivermos com quem é “diferente” de nós, caso de Urso. Os depoimentos ocorrem, pois, além da investigação em torno da menina, Urso está preso por ter atacado um montanhista. Há um clima de desconfiança em torno do modo de vida de Urso e sua mãe, Mariette, pessoas que vivem isoladas, pois sua integração à comunidade mostrou-se problemática e conflituosa. A partir dos depoimentos e da voz das fadas constrói-se uma história que explicita a dificuldade em lidar com situações que fogem à norma, ao convencional, além de revelar diversas formas de violência latentes em uma comunidade. A boa tradução do título (originalmente Comme des bêtes) nos remete a essa comparação entre homens e animais além de apontar para a perplexidade ou para a sensação de engano contida na expressão “feito besta”. Nenhum habitante da comunidade consegue entender como a existência da menina teria passado despercebida, nem mesmo como um rapaz com as limitações de Urso a teria criado.
Manifestações da violência
O centro do romance está na maneira com a qual os habitantes do local comentam suas impressões sobre Urso. Dentro desse tema, o ponto de destaque é como uma sociedade lida com aqueles que não se encaixam em determinados padrões de comportamento. A narrativa não especifica qual seria a deficiência de Urso, mas deixa claro que ele apresenta uma neurodivergência. Ele recebe o apelido quando criança por conta de seu tamanho e também porque não consegue falar, comunicando-se apenas por grunhidos. Urso gostava de ficar sozinho e podia se tornar violento ao ser irritado.
A violência surge na obra em diversas frentes. Se as reações de Urso são violentas, o bullying escolar sofrido no passado também o é, bem como as atitudes que acabam por isolá-lo ainda mais. A falta de capacidade da comunidade para lidar com alguém diferente faz com que Urso viva com sua mãe em um local ainda mais ermo e próximo à temida gruta das fadas. Longe das pessoas, mãe e filho encontram na natureza e no convívio com os animais uma rotina equilibrada. Mariette desloca-se para o centro apenas uma vez por semana para vender mercadorias. Ficamos sabendo que Urso acabou abandonando a escola. Nos depoimentos, vários moradores expressam ter aprendido a conviver com os dois personagens, sem, contudo, deixar de manter certa distância. Podemos dizer que há também uma violência nessa segregação que força mãe e filho a viver apartados para poderem sobreviver.
Dentro do tema da violência, um depoimento chama a atenção. Uma mulher se comove com a história da menina e aparece na delegacia para depor. Ela relata um estupro sofrido trinta anos antes, conta que engravidou, pariu e abandonou seu bebê:
A todas as moças que um dia vão viver esse horror, desejo que encontrem as fadas, para que elas as ajudem a se levantar. Era isso que eu queria dizer aos senhores. Essa que abandonou a filha, ela poderia ter sido eu, Viviane Desroches, farmacêutica de Saint-Marcel. Poderia ter sido eu ou qualquer outra. Uma moça daqui, qualquer uma. Queria lhe dizer isso.
A menção às fadas na fala da farmacêutica reforça esse elemento mágico capaz de fornecer alguma solução ou alento para situações traumáticas e violentas que não se resolvem no plano humano. No caso de Urso, diante da impossibilidade do convívio com os homens, há o desenvolvimento de uma espécie de dom no trato com os animais. Um dos depoentes revela que o rapaz consegue curar qualquer animal ferido e inclusive expõe que trabalhava com Urso no tratamento de animais, mantendo tal relação em segredo. Todos que viram a menina com Urso expressam que havia harmonia entre eles, como se fossem pai e filha, apesar de a existência da criança ser considerada um mistério. Urso teria agido como uma das fadas e criado uma criança abandonada? Como ela foi parar lá? Ele poderia ser de fato o pai da menina? O romance não explica.
Em aberto
Apesar de ter como uma de suas linhas a narrativa policial, o romance não fornece respostas para a investigação em curso. É como se o leitor fosse colocado no lugar desse delegado que ouve os relatos. O que concluir a partir dos depoimentos? O que se sabe é que, diante de uma tentativa fracassada de convívio com a comunidade, Urso e Mariette tiveram que se isolar e buscar um modo próprio de vida que oferecesse alguma paz. A história da menina talvez aponte para uma configuração familiar possível entre aqueles que foram, de algum modo, rejeitados. No entanto, por estar fora de um arranjo reconhecido socialmente, há desconfiança e medo por parte da comunidade.
Em diversos momentos, a fala poética das fadas chama nossa atenção para violências praticadas há muito tempo, sobretudo contra as mulheres:
Nós
as fadas
vemos
o que alguns homens
às vezes
fazem com as mulheres
sem lhes pedir nada.
Sem pedir
às mulheres
seu consentimento
sem lhes pedir
os homens
antes.
Seria a menina fruto de alguma dessas violências que perpassam a comunidade (e o mundo)? É uma especulação possível. Tragicamente, o final do romance nos mostra que a violência ainda vence quando, em vez do diálogo e da tentativa de integração, partimos para o confronto.