Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências, as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Belchior
A infelicidade é a pedra angular da identidade familiar. Os conflitos, as diferenças, os traumas e os maneirismos íntimos são os elementos que nos moldam. Kafka não seria quem foi, não fosse pela força opressora do pai: “Querido pai, você me perguntou recentemente por que afirmo ter medo de você”. Quando escreveu a carta, jamais entregue, o escritor checo já não era um garoto, tinha 36 anos, e ainda assim vivia assombrado pela força invisível da figura paterna, como se ele próprio fosse o reflexo partido do pai. E é dessa imagem invertida, que se assemelha e muito à pulsão de morte, que Kafka erigiu a sua obra. Entretanto, muito mais que em Carta ao pai, é em A metamorfose que a noção de não-lugar familiar fica mais explícita. Gregor Samsa não se transforma em um “inseto monstruoso” à toa: o inseto é o alter ego de Kafka, a sua representação diante de um seio familiar tirânico. É o espírito de inadequação que o guia, em vez de atraí-lo para um abismo silencioso.
No sentido oposto, existe a libertação. Ivan Turguêniev foi, quem sabe, o autor que melhor condensou esse rompimento. Em Pais e filhos, a estabilidade familiar é destruída quando Arkádi Kirsánov visita o pai e o tio solteirão com o amigo Bazárov, um homem de ideias livres e mola propulsora do niilismo. O romance de Turguêniev não representa somente a desconstrução dos valores burgueses da família, mas também a tentativa de implosão de uma identidade forçada. Se Kafka aceitava a sua inadequação com certa mágoa, Kirsánov desejava que seu rompimento fosse gritado em alto e bom som.
E, ainda que a literatura não tente ser um antídoto contra os valores familiares, na sua história parece sempre haver uma confluência entre a fragmentação do núcleo íntimo e a possibilidade de libertação pela escrita. E esse processo — de olhar para o pai para buscar a si mesmo — não está estancado no passado distante — quando o chefe da família reinava como absoluto nas casas —, ao contrário, é ainda algo muito atual. Quando Chico Buarque escreveu O irmão alemão, não buscava somente o irmão, mas também seu pai e o enigma que havia deixado na Europa muitos anos antes. Em Ribamar, José Castello investiga o silêncio paterno para buscar a sua própria cura. Morreste-me, de José Luís Peixoto, é uma ode ao luto e à memória do pai. E existem ainda exemplos mais recentes — como Visita ao pai, de Cristovão Tezza; Deixei flores sobre meu pai, de Pedro Ângelo; O livro do meu pai, de Djaimilia Pereira de Almeida; e Em-nome-do-PAI, de Márcia Barbieri — e sobre os quais vamos conversar nesse texto.
O pai eterno
A obra de Tezza se divide em antes e depois de O filho eterno, seu livro de maior repercussão, e não somente por toda a sua obra ter mais visibilidade, mas por reescrever um novo capítulo na sua própria escrita. Se O filho eterno, um ajuste de contas com o primogênito portador de Síndrome de Down, é um passo importante em direção à realidade e à linearidade narrativa, os seus romances mais recentes são muito mais etéreos, repletos de fluxo de consciência e mais focados na metafísica do personagem — no seu estado psicológico —, do que na realidade mais imediata. O ponto mais alto dessa terceira fase da carreira de Tezza — a primeira, a fase hippie; a segunda, a fase adulta (realismo urbano); a terceira, madura (romance metafísico) — é A tensão superficial do tempo, que condensa a situação brasileira à época e uma narrativa elíptica vertiginosa.
Em Visita ao pai, que o autor define como “romance da memória”, Tezza faz algo parecido ao de O filho eterno: observa seu personagem para criar um retrato do todo. Tentando investigar a vida do pai, que morreu quando Cristovão tinha apenas nove anos, o livro mergulha na história íntima da família — na solidão do pai, na loucura da mãe, por exemplo — para que o próprio romancista-memoralista se veja espelhado em tantas ranhuras. É interessante pensar que Visita ao pai faz eco ao livro mais famoso do escritor, mas se distancia dele à medida que Tezza se transforma, ele próprio, em um filho eterno em busca de um pai também eterno. No final das contas, João Batista Tezza é uma esfinge, um mistério a ser resolvido, que não cabe de todo no livro, porém vai se transformar em um personagem mais palpável.
E parte da capacidade de equacionar o pai advém de tentar enxergá-lo como um homem do seu tempo. O que talvez tenha mais peso contra ele seja a sua queda pelo integralismo e nem tanto pelo que representava na época — já algo bastante nefasto — e muito mais pela leitura contemporânea. Um anacronismo? É possível. Ainda assim, Tezza, o filho, consegue perceber que os ditames de Plínio Salgado seriam um bom atrativo para um homem que nasceu na roça, sem perspectiva e se fez por si mesmo. Muito da construção e da evolução intelectual de Tezza, o pai, o leitor testemunha nas cartas transcritas, entretanto, está na sua relação com a sociedade — mesmo sem abandonar certos costumes e paixões.
No final da carta, um pequeno detalhe, o rádio, dispara o momento político, que passa a ser o assunto, e o entusiasmado simpatizante integralista de pouco tempo antes aparentemente dá lugar a um observador mais distante, quase ecumênico: Temos um rádio no hotel: ouvi muitos discursos: José Américo e sua plêiade; Armando de Sales e seus correligionários revoltados; Plínio e os camisas verdes; todos falam, todos trabalham pela honra da pátria.
Nessa colcha de retalhos, encontramos pai e filho mimetizados na mesma sombra, tentando se encontrar mesmo que em planos diferentes. Visita ao pai é uma obra que fragmenta a memória e reconstrói o passado em uma análise sentimental, como se fosse possível encontrar uma brecha no tempo, capaz de corrigir o passado e reparar os erros. Tudo passa, como se é de imaginar, a ser somente uma questão de tempo.

Valor sentimental
A ausência, e, portanto, um tempo fraturado, é o que entrelaça as identidades e as memórias em suspensão. A literatura, que vem como uma análise dos espaços em branco, revela uma espécie de necessidade de preenchimento, de conclusão do que foi deixado em aberto. Em Deixei flores sobre o meu pai, Pedro Ângelo escrutina as lacunas e a percepção de tempo, partindo, obviamente, da morte do pai. Se no livro do Tezza, temos uma leitura do tempo e do espaço, nessa obra testemunhamos a literatura como diálogo com a realidade. E a chave dessa conversa está em Respiração artificial, de Ricardo Piglia.
Os livros não são exatamente espelhos — como Joyce faria com seu Ulysses e a Odisseia —, mas se cruzam diante dos silêncios. Piglia, enquanto investiga certas relações familiares, intelectuais, faz seus personagens elaborarem uma diferente concepção de realidade, uma realidade que também está alicerçada na desconstrução das certezas e no restabelecimento — ao menos na tentativa, obviamente — daquilo que se entende como realidade, como se essa mesma realidade fosse um passo importante para a liberdade física e de pensamento. Já Deixei flores sobre o meu pai usa as fraturas do real para conhecer a verdade.
Entendemos junto com o autor as nuances da vida de Ângelo, o pai. A morte, que também veio de repente, é um assombro e um fascínio. Se por um lado ela ceifa, por outra abre uma porta de interpretação de mundo, cujo entendimento está na relação da família com Sérgio, um judeu, um tanto misterioso, que cria conexões entre aquilo que o narrador imaginava do seu pai e a visão dos conhecidos do morto. De certa forma, quanto mais conhece o pai, mais o narrador mata os lugares-comuns que ocupavam as lembranças, verdadeiras e inventadas.
A mãe, ainda que viva, orbita à sombra — às sobras — do marido morto. Ela é também uma chave do romance e da perspectiva humana da existência de Sérgio, como se fosse mesmo uma testemunha ocular de um crime. Não é sem motivo que o narrador resolva inquiri-la também.
Mãe. Na verdade, eu gostaria de saber algumas coisas de você, do meu pai e de vocês dois, juntos. Queria entender algumas coisas, porque tem muita coisa que… Eu não sei… A vida vai passando e a gente vai esquecendo, assim, de conversar, de perguntar. E acho que… Eu imagino, né… Porque também você nunca me falou muito sobre. Mas imagino que deve ter sido um momento difícil pra você, na época da morte dele. E como eu era muito pequeno e a minha irmã, mais ainda, não sei se a gente tinha maturidade pra conversar sobre isso. E também não sei qual foi o seu instinto, primeiro, de talvez querer, de repente, poupar a gente um pouquinho de certas coisas…
Percebe-se que o silêncio da mãe é uma questão, entretanto, ao mesmo tempo em que investiga essas lacunas, o protagonista-narrador tenta justificá-las — “imagino que deve ter sido um momento difícil pra você, na época da morte dele” — sem abandonar a genuína curiosidade que o move — “Queria entender algumas coisas, porque tem muita coisa que… Eu não sei… A vida vai passando e a gente vai esquecendo”.
É nesse ponto que se descobre o valor sentimental da sua própria vida, que começa a se desvencilhar do passado, não sem antes entrar em uma espiral caótica que leva o protagonista até a Europa. Nesse prisma, a presença de Ângelo é quase kafkiana, não no sentido estrito da opressão, mas como uma figura mítica que não habita lugares-comuns. Então, se Hermann Kafka é o terror, o pai em Deixei flores sobre o meu pai é uma espécie de bálsamo, de estrutura social invisível capaz de trazer certo alento e conforto ao filho. O livro, portanto, não está tão próximo de Carta ao pai, e sim de Morreste-me. E o que o une às duas obras não é somente a temática, mas o caráter de corolário dos três livros, como se afirmasse — e reforçasse — os efeitos da ausência.

Mitologia e intuição
A morte, podemos dizer, nem sempre é o final — às vezes, é a descoberta de uma vida que não sabíamos que existia. Em O livro do meu pai, Djaimilia Pereira de Almeida usa a partida de Joaquim para revirar seu baú de memórias, partindo do famoso e mítico livro que ele escrevia. Se em Visita ao pai e Deixei flores sobre o meu pai os fatos são matéria-prima para a busca pessoal, em O livro do meu pai o que temos é um mergulho poético, metalinguístico e metafísico das relações familiares. Djaimilia se apoia na realidade, mas ela não é fundamental para o desenvolvimento da sua obra, ao contrário, o pai, muito mais que a materialização de Joaquim, é uma entidade sagrada, uma criatura que habita nas paixões e nos medos.
O luto não é, nesse sentido, uma dor, ao menos, não somente. Ele se revela a mola que impulsiona a escritora a transmutar as lacunas em força-motriz para vencer a angústia da ausência. Aos poucos, a história, que era unicamente do pai, torna-se um olhar sobre toda a família, como se cada membro tivesse o quinhão de Joaquim, sendo Fidel, um agregado sentimental, o mais importante desses espaços em branco familiares. Por isso, O livro do meu pai tenta elucidar as mitologias que existem nesse universo íntimo, a começar pela obra inacabada e um tanto macedoniana, tal qual o Museu do romance da eterna, um volume babilônico que pode conter tudo e nada ao mesmo tempo.
Quando é o vazio aquilo que Djaimilia experimenta, então é preciso catarse, fazer-se transbordar, transfigurar, a realidade para torná-la possível de suportar.
No dia em que vi Joaquim pela última vez, estavam nove graus na rua, tinha os pés e as mãos roxos. Ele não tinha frio. As suas grandes mãos, que eram já mãos de partida, insensíveis à temperatura. Fiquei a vê-lo da janela, saído da minha casa. Andava muito, muito devagar, com a ajuda da sua mulher. Caminhavam no passeio a caminho do carro como dois velhos, embora não o fossem. Seria a última imagem. O meu pai de casaco aberto, no dia gelado, rua fora.
A teimosia de irromper contra o destino era o que tornava vivo — até deixar de ser. E a consciência de vida e morte é uma linha tênue que Djaimilia Pereira de Almeida explora com beleza e poesia, conseguindo extrair até mesmo certa leveza no meio de tanta atrocidade. Joaquim, a entidade, não se foi, permanece como mitologia e intuição no seio dos seus, mas ainda assim simboliza uma espécie de exílio íntimo, de conjuração de perpétua tristeza e melancolia, dois sentimentos ambivalentes, mas que são, em última instância, a matéria-prima da escrita de pai e filha. E é interessante pensar que, antes de Djaimilia, quem tinha o sonho de escrever um livro era Joaquim. Os ventos, às vezes, erram a direção, dizia a canção, não?

Solidão mágica
A arte é um lugar de refúgio, um espaço seguro para a dor e o desamparo. Quando Picasso criou Guernica, o painel tinha uma única função: expurgar os horrores da Segunda Guerra Mundial. Hemingway fez o mesmo com Por quem os sinos dobram, desta vez com a Guerra Civil Espanhola. É isto um homem?, de Primo Levi, foi a forma como o escritor conseguiu sobreviver ao Holocausto. O romance Em-nome-do-PAI, de Márcia Barbieri, é uma empreitada pós-modernista que segue o mesmo caminho e usa as memórias entrincheiradas para tentar vencer o luto.
A morte, muito provavelmente, é o lugar mais comum da existência humana. E, ainda assim, lidar com ela não parece ser a mais fácil das tarefas. O luto é espaço para a catarse e o descompasso, para a ausência de sentido e de sentimento. E Em-nome-do-PAI transforma a mortalidade em uma linguagem transcendente e em um fluxo quase ininterrupto do mais puro desespero. Se por um lado essa abordagem pós-moderna tem um quê de psicanálise, por outro cria uma obra cuja fluidez está dissolvida no pânico e na quase impossibilidade de superação.
Ao longo de todo o livro há certo assombro pelo descalabro e sofrimento. A relação de Don Silvério com a família se torna cifrada pelas escolhas sintáticas e narrativas da autora. Se percebemos um tom onírico na obra, não é sonho, mas um pesadelo a partir da perda.
Não conhecemos nenhum louco que admita a sua insanidade; Todo nascimento é uma dívida ancestral; Seríamos cobradas; Não negaríamos nossa dívida, embora faríamos pouca questão de pagar; Comeremos o pão que o diabo amassou; Não nos desviaríamos da filiação, da surdez congênita ou da mudez adquirida, mesmo que tardiamente, romperíamos a placenta, arranharíamos a parede interna do nosso genitor, sairíamos largueando a rachadura entre o seu ânus e o seu saco escrotal; Confundiríamos o seu falo rígido com o cordão umbilical; Cuspiríamos o resto de esperma que entrou por engano em nossas cavidades bucais; Deixaríamos um vácuo no seu ventre; Despencaríamos e descobriríamos a gravidade, berraríamos, nos afogaríamos no líquido amniótico de Don Silvério e logo em seguida nos alimentaríamos de suas tetas e as morderíamos quando o leite fosse escasso.
O deslocamento entre realidade e insanidade é, em simultâneo, a dissolução completa das relações de tempo e espaço. É o luto como linguagem, mais uma vez. Paul Auster fez o mesmo em A invenção da solidão, em que também investiga a morte do pai sob os escombros das lembranças e da convivência conturbada, e que leva à solidão involuntária. A diferença está, entretanto, na maneira como essa solidão é experienciada. Em Auster — que mais tarde trabalharia o luto outra vez, desta vez ficcional, no seu último livro, Baumgartner —, o leitor é um espectador passivo da dor. Na obra de Barbieri, quem lê é também colocado no olho do furacão.
O que, à primeira vista, soa como uma estratégia interessante, na prática se revela um pouco confuso, sobretudo, como já comentamos, graças às construções frasais da autora. Ainda assim, no meio desse devaneio doloroso, encontramos conexões com o realismo mágico, e as mais óbvias talvez sejam com Cem anos de solidão, em que a família é, paralelamente, bênção e maldição, loucura e sanidade.
Imagem invertida
Para Foucault, a família é um dos elementos de opressão social — outros dois são a escola e a polícia (poderíamos colocar o trabalho, acredito) — com os quais o sujeito ocidental precisa, quase que impreterivelmente, conviver. Oscar Wilde tentou burlar dois, deixando somente o ambiente acadêmico como salvação. Como consequência, foi preso e morreu na sarjeta. Em O retrato de Dorian Gray e em muitas de suas peças, a família é uma peça no xadrez social, que desempenha um papel muito mais figurativo que propriamente sentimental. No clássico A Bela e a Fera, de Jean Cocteau, a família da Bela é a sua perdição e, posteriormente, alento indireto, afinal é por conta do seu pai que ela vai parar no castelo da besta.
Como se vê, no século 21, as dicotomias familiares não estão distantes do que já viveram nossos antepassados. Essa constatação tem duas faces: a) não existem soluções possíveis que sejam capazes de dar cabo às inconsistências íntimas; b) não evoluímos, na verdade, ou nas palavras de Bruno Latour, jamais fomos modernos e permanecemos a imagem invertida de antes, de sempre. A diferença está em como essa imagem é colocada: como fotografia ou mero espelho. Ambas são a representação imprecisa, porém, fiel da essência humana.
Enquanto Tezza tenta encontrar o pai entremeado na história do país, Pedro Ângelo usa o mundo como mapa e território. Djaimilia Pereira de Almeida faz da ausência um material poético, proposital e repleto de intencionalidade. Já Márcia Barbieri prefere a loucura como uma maneira de interpretar a realidade. As famílias e suas infelicidades as fazem todas iguais, não porque a dor se assemelha, mas porque é impossível fugir ao instinto de sobrevivência que paira diante do absurdo e dos abismos cotidianos. No final das contas, foi Belchior quem esteve sempre certo: “ainda somos os mesmos/ e vivemos como os nossos pais”.