Cinco mil vaga-lumes vivos

Entre o ninho vazio e a chama frágil, a salvação e a desolação perpassam os versos de "Voo breve sob o sol"
Ana Costa dos Santos, autora de “Voo breve sob o sol” Foto: Ronaldo Dimer
01/03/2026

Quero começar com uma pequena quadrinha de versos que Ana Costa dos Santos publica em seu Voo breve sob o sol. O poema se chama Não há terra à vista e nele lemos, como num autorretrato, uma imagem que a poeta faz de si mesma:

Tenho o olhar daquele
que em alto-mar
remava
o menor dos barcos.

A sensação é avassaladora. Pense no alto-mar em um dia de tempestade. Tenho em mente aqueles barcos em mares tempestuosos nos quadros de Turner, por exemplo. A tinta se confunde com a névoa, ou se espirala junto às tempestades, ou faz diluir o céu nas chamas dos navios naufragados. Tudo nessas pinturas é muito grande. No entanto, no poema, tanto o barco como os versos são pequenos.

Imantadas com o sentimento do sublime, dado a grandezas — a imensidão do mar e a coragem, talvez, daquele que o observa desde o seu centro —, essas palavras não buscam inspirar grandeza ou superioridade. Pelo contrário, elas evocam uma fragilidade própria da poesia lírica. Essa fragilidade se faz sentir na palavra “menor”, no comprimento dos versos (os dois versos mais longos, o primeiro e o último, são redondilhas menores, com cinco pés) e, sobretudo, no olhar de quem sabe que perderá tudo.

O olhar da poeta, então, que se assemelha ao do navegante prestes a naufragar, é um olhar extremamente vivo, capturado, no entanto, no exato momento em que a morte se aproxima e é certeira. Aqui acontece algo semelhante ao que Barthes afirmou, certa vez, sobre o que se imprime nas telas de Cy Twombly: vida-morte, como um único afeto.

Já no poema Utsuroi, que tenta definir, igualmente em quatro versos, o que é essa palavra em japonês, podemos ler a sensação que também está naquele autorretrato da poeta:

ela suspensa
entre a vida e a morte:
o momento
em que a flor vai murchar

É nesse entrelugar que Ana Costa dos Santos tenta nos colocar com os seus versos. Uma zona de suspensão, como ela diz, entre a floração e o murchar, entre a grandeza e a fragilidade, entre o que toma forma e o que perde forma.

O signo escolhido para essa tarefa ao longo do livro é o do pássaro que faz um “voo breve sob o sol”, como ela nos diz no título.

É breve a infância dos pássaros.
Primeiro abandonam o ninho,
depois a árvore, depois se perdem
entre outros tantos,
até que não os reconheço. 

Olhando o ninho vazio,
me pergunto se existiram,
como quem deixa de crer em milagres
como quem já foi feliz
e esqueceu,
como quem se vê sozinho
ao fim da festa.

Origem e fim se conectam num microinstante recortado pela poeta. A infância dos pássaros e o ninho vazio nos conduzem a um estado de incerteza entre a maturação da vida e a morte precoce. Isso é reforçado pelo fato de que os versos que citei agora são sucedidos pelo poema Voo: “Morto, o pássaro/ está a salvo:/ não há risco após a queda.// (…) Dizem que certos pássaros/ dormem voando —/ este talvez/ voe dormindo”.

Pressentimos uma desolação nesses versos. Mas também em nossas vidas. O mundo em que vivemos se desfaz a cada dia e boa parte dos cientistas mais razoáveis já nos avisou que o futuro da vida no planeta não é nada promissor. Quer dizer, o mundo vai acabar e estamos todos sabendo disso; no entanto, bebês e filhotes continuam nascendo e o mundo grande, como diria Drummond, cresce todos os dias.

Toda lírica possui um ponto de contato com uma trama coletiva. Somente encontrando esse nexo entre os fios da vida e os fios da Vida a poesia pode tocar o coração dos outros. No caso da poesia de Ana Costa dos Santos, esse nexo é o ponto de contato entre a promessa de vida por vir e a promessa de vida não cumprida, sintetizadas na imagem do “ninho vazio”. Essas promessas se cruzam com a iminência da destruição coletiva e o véu de normalidade que a recobre. Ou, nas palavras da poeta:

só a noite existe

 mas como nos iludem
estas lâmpadas
como nos ilude
a luz do sol

De que serve a poesia diante da catástrofe planetária? Por que poetas insistem em sua arte?

Todos os tempos conhecem as suas tragédias. Em Verso, reverso, controverso, Augusto de Campos compara os poetas a uma família de náufragos bracejando no espaço-tempo enviando mensagens em garrafas uns para os outros. Se isso for verdade, de que barco eles vieram? Qual foi o acidente que lhes trouxe até o alto-mar? Que tipo de trauma partilham os poetas?

Ésquilo nos legou, em Prometeu acorrentado, a história do castigo que Prometeu sofreu por ter roubado o fogo dos deuses para os mortais. Uma águia devora seu fígado dia após dia, enquanto o órgão se regenera para que a tortura continue. Para que serve o fogo que Prometeu roubou?

Para alguns acadêmicos, o fogo é representação da razão e da ciência. Mas na sua Carta do Vidente, Arthur Rimbaud chama o poeta, esse ser que parece ser pura sensibilidade, de ladrão de fogo. E para que o poeta execute a sua tarefa, Rimbaud exige dele um desregramento de todos os sentidos — para chegar ao desconhecido.

O fogo roubado dos deuses vai de Prometeu a Rimbaud como que de mão em mão, de náufrago em náufrago. E esta chama da poesia, que já foi grande, chega ao nosso tempo muito fraca.

O que essa chama ilumina? Alguns poetas tentam iluminar coisas grandes. Outros, como Ana Costa dos Santos, lançam uma fraca luz às pequenas: “salvam-me as delicadezas”, ela diz. Aproximando catástrofe e delicadeza, sua poesia se faz contemporânea da poesia de outras como as de Ana Martins Marques, Leila Danziger e Mar Becker. Salvam a poeta “o pequeno mar nas conchas/ a companhia dos pássaros/ (…) o suposto/ peso da alma:/ vinte e um gramas”.

Como as coisas pequenas podem salvar o mundo grande? Lembro-me de que o filósofo Walter Benjamin era fascinado pelo fato de que alguém no Museu de Cluny escrevera os primeiros versos da Torá num grão de arroz. Benjamin também pensava a salvação. Ele dizia que “a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação”. E também gostava da história do teólogo Origenes, que propunha algo impensável para a Igreja Católica: que no dia do Juízo Final aconteceria a apokatastasis, isto é, a salvação de todas as almas, sem exceção, inclusive as infernais. A doutrina, obviamente, foi considerada herética e seus textos condenados pelo Segundo Concílio de Constantinopla no ano de 553.

A salvação é um tema importante — e complementar à destruição iminente — na poesia de Voo breve sob o sol. É graças à sua poética da salvação que a poeta liga o incomensurável ao infinitamente pequeno. O grande fogo que Prometeu roubou e o fogo do ladrão Arthur Rimbaud retornam em sua poesia como uma pequena chama de uma vela acesa. Essa vela, no entanto, encontra-se com outro elemento ainda menor: o vaga-lume.

Custou-me tanto esta chama.
São cinco mil
vaga-lumes vivos.
Não me distraias: preciso
levar ao outro lado
a vela acesa

A poesia salvará o mundo? Sem oferecer respostas, Ana Costa dos Santos tece seu livro em torno de um silêncio angustiante. Em vez de procurar a potência da poesia e o que ela pode nos dizer, a poeta recua até a dimensão de indizível que há no que é dito. Dessa forma, ela recusa o salvacionismo estético. Não é exatamente a beleza que nos salvará. Nem poderá, a beleza, indicar o que nos salvará.

Mas existe esperança e fé em seus versos. Elas se depositam sobre algo infinitamente menor. É a fragilidade da infância que está no centro da catástrofe individual e coletiva como uma pequena chama. Essa fragilidade é, aqui, a origem e o destino da poesia.

O poema mais emblemático a esse respeito é dedicado “À memória de Andrei Tarkóvski, com esperança e fé”. É com ele que gostaria de me despedir desse texto. O poema recria parte do filme O sacrifício do cineasta russo homenageado. Seus versos possuem uma atmosfera oracular. Pressentimos um conselho e alguma arte divinatória, mas cabe a quem escuta a mensagem decifrá-la ou atribuir-lhe algum vago sentido. Quer dizer, essas palavras parecem roubar alguma chama, pequena e fraca, mas messiânica (ainda que sem qualquer religião), para o nosso agora.

Se uma criança rega
uma árvore seca
à mesma hora
dia após dia
esperando que volte à vida
e floresça
pouco importa
que jamais volte à vida
e jamais floresça.

Uma criança rega
uma árvore seca
à mesma hora
dia após dia.
Eis o milagre.

Que mensagem sobre a salvação esse poema nos lega? Não sabemos. Está dentro de uma garrafa muito frágil e, se ela se partir, também perderemos a mensagem.

Voo breve sob o sol
Ana Costa dos Santos
Círculo de Poemas
112 págs.
Ana Costa dos Santos
Nasceu em Porto Alegre (RS), em 1984. Publicou o livro de contos O que faltava ao peixe (Libretos, 2011) e os livros de poemas Voo breve sob o sol (Círculo de Poemas, 2025), Móbile (Patuá, 2017) e Fabulário (Confraria do Vento, 2019), vencedor dos prêmios Governo de Minas Gerais de Literatura e Minuano.
Rafael Zacca

Poeta e crítico literário. É doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Professor de Estética do departamento de Filosofia da PUC-Rio. Ministra oficinas de criação literária. Autor de O menor amor do mundo (7Letras, 2020, poemas) e Formas nômades (Urutau, 2021, crítica).

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