Toda cidade é um labirinto, uma extensão dos homens e das mulheres que se cruzam por ruas estreitas ou grandes bulevares. A multidão é a matéria-prima da metrópole, como se fosse possível uma solidão coletiva, uma dissolução da identidade para que o outro também possa existir. E, como todo labirinto, a cidade é construída para que o sujeito se perca, se debande dentro da massa. Ela é a epítome de um novo tempo, do momento de ruptura e da criação de um mundo novo, que chega com a luz elétrica e que não apenas ilumina, mas que também dá vida às sombras. Se existem as avenidas, hão de haver becos.
A primeira cidade, explica Ben Wilson, em Metrópole: a história das cidades, a maior invenção humana, foi Uruk, na Mesopotâmia, atual Iraque, cerca de 4 mil anos antes de Cristo. Aquela civilização não foi um protótipo do que temos hoje, mas a base sólida de uma sociedade organizada em torno da economia e dos interesses. Paris, Nova York, Londres, São Paulo e Curitiba são todas devedoras desse povo. Ao mesmo tempo, a literatura também tem as suas contas a acertar, sobretudo com Gilgamesh, poema épico sobre o rei de Uruk que dá nome à narrativa.
Com Uruk, as sociedades deixam de ser uma massa desorganizada e nômade, transformando-se em uma experiência de ressignificação do estar entre outros. A mudança mais importante, talvez, só acontecesse muitos séculos mais tarde e seria amplamente documentada, sobretudo por escritores e pintores: a modernização de Paris.
Quando Baudelaire criou a figura do flâneur, o poeta concebeu também um novo homem, capaz de se deixar levar pela cidade sem a necessidade utilitarista de outrora e se apaixonar por uma mulher que passa e que jamais verá outra vez. Se antes a cidade era um caos dickensiano — gente por todo lado em ruas cheias de lama, ladrões e esquisitices —, a Paris moderna — que surgiu dos escombros medievais colocados abaixo por Haussmann em meados do século 19 — é um divisor de águas urbano e literário, o cenário perfeito para que aparecesse um novo modo de observar o mundo. Flanar não é um movimento autônomo, mas a condição mais humana e inerente à vida moderna. “Caminhar”, escreveu Enrique Vila-Matas, “é desenhar”.
A partir desse momento, a cidade se transforma na síntese do homem. Manhattan, um dos primeiros “filmes sérios” de Woody Allen, abre com a tentativa frustrada de definir Nova York. E os verbos que vêm à boca — ou seria à mão, já que Isaac Davis, personagem de Allen, está escrevendo um livro? — demonstram a sua devoção à cidade: adorar, idealizar, romantizar. Ainda que Nova York seja a “metáfora para a decadência da cultura contemporânea” e que, naquela época, nos anos 1970, a Big Apple atravessasse um dos períodos mais conturbados da sua história recente, com ondas de violência, vandalismo, poluição, barulho e todos os abismos em que os citadinos de uma megalópole são obrigados a pular.
Paul Auster, em sua Trilogia de Nova York, explora os mesmos meandros urbanos que Allen; entretanto, vai ainda mais fundo, chegando às bordas da realidade, buscando muito mais as sombras que a claridade. Auster herda, portanto, a liturgia de Poe e de O homem na multidão, cujo protagonista gosta de se perder e seguir desconhecidos. Assim, transforma o flanar em engrenagem de uma literatura pós-moderna, que mais tarde voltaria em livros como Noites de oráculo, Sunset Park e Desvarios no Brooklyn. Veja só: nada mais humano que caminhar pelas ruas e pela própria memória.
Cidade e memória
Muito mais que um conjunto urbano, a cidade é um mapa sentimental, uma geografia íntima e inequívoca. Quando Walter Benjamin, em Rua de mão única, examina a relação entre as ruas e a memória, principalmente da infância, enxerga um ponto de contato entre o que fomos e aquilo que nos tornamos. São os dias passados nas ruas que moldam o caráter, que metamorfoseiam a criança em um adulto disfuncional ou não. Essa é a lógica, por exemplo, que nos impede de imaginar os personagens de Philip Roth muito longe de Newark.
Em suas memórias, Os fatos e Patrimônio, Roth mostra uma dose de pertencimento à cidade que não só obsessiva, mas também necessária à sobrevivência — de si mesmo e de seus personagens. Nathan Zuckerman é mais um alter ego, um duplo do escritor; entrementes, um duplo corrigido, mas não aperfeiçoado, já que as maiores virtudes estão justamente nos melhores defeitos. Quando Zuckerman, em O escritor fantasma, se dá conta de que está frente a frente com Anne Frank, na verdade se vê diante de um enigma identitário como judeu e como sociedade. Por isso, Zuckerman é um sujeito acorrentado tanto ao passado coletivo quanto à sua própria fricção moral, que o deixa em um impasse: revelar ao mundo a verdade perturbadora — de que Anne Frank vive — ou manter o silêncio complacente.
A literatura de Patrick Modiano só existe graças à memória, assim como a de Annie Ernaux. Os dois franceses se valem da historicidade — ele, coletiva; ela, individual — para tentar encontrar um diálogo entre passado, presente e futuro. Ronda da noite, de Modiano, é tão realista quanto A vergonha, de Ernaux, não por tratarem de temas que se cruzam, mas por escrutinarem a realidade até o esgotamento, na busca pela interpretação muito mais do que pela cópia em carbono. O que se entende é que a realidade é, em sua essência mais pura, apenas relativa, e não uma certeza absoluta. Como não pensar em filmes como Adeus, Lênin, A espuma dos dias — adaptado do clássico surrealista de Boris Vian — e Brilho eterno de uma mente sem lembrança? A pergunta que fica é sempre a mesma: onde está a verdade?
Por sinal, o paradigma da verdade é o mais perturbador e, ao mesmo tempo, o que transcende com maior precisão tempos, espaços e nações. Parte desse trânsito tem uma origem clara: Poe, outra vez. Agora, o escritor norte-americano — fascinado pela modernidade de Paris — pareceu entender como poucos o jogo de sombras que surgiu, e foi essa percepção, arguta e cruel, que o fez pedra angular de uma nova tradição: a literatura policial. Ao escrever Os assassinatos da Rua Morgue, Poe explorou a solidão das grandes cidades e a maldade enquanto experiência ética e estética.
Se Auster e Roth exploraram as astúcias de Poe para construir as suas interpretações urbanas, o chileno Roberto Bolaño conseguiu transportar essa tradição à América Latina como poucos autores fizeram. O Chile de Bolaño está muito mais na memória de seus personagens do que no percurso diário — algo que Cortázar fez muito bem em O jogo da amarelinha. Basta prestar atenção em como os protagonistas dos romances 2666, sua obra-prima, e A pista de gelo trafegam entre as memórias e o presente. Ambos são textos policialescos, recontextualizados pelas novas dinâmicas sociais: 2666 é, acima de tudo, uma investigação sobre identidade e pertencimento, enquanto A pista de gelo é um inquérito sobre lealdade — questões caras a Bolaño na condição de artista expatriado.
E se a cidade é memória, Wim Wenders é um dos grandes arquitetos de uma ficção capaz de escavar o diálogo entre os caminhos e a identidade. Em Asas do desejo, Berlim, ainda antes da queda do muro, é a síntese de um mundo antigo, marcado pelo nazismo e pela Guerra Fria. Pelas suas ruas, o anjo Damiel perde a sua auréola para poder amar Marion. A cidade é, portanto, perdição e redenção ao mesmo tempo. Em uma das cenas mais interessantes, Damiel e outros anjos estão em uma biblioteca brutalista, observando e brincando com as pessoas. Antes, logo no começo do longa, eles experimentam a condição humana ao entrar nas casas e apartamentos, sentindo cheiros, sabores e testando texturas.
Já em Dias perfeitos, Wenders usa a geografia de Tóquio como uma antítese à solidão moderna, repleta de informações e estímulos. Enquanto limpa banheiros públicos, Hirayama enxerga o mundo a partir de uma poética profunda: uma flor que nasce, os pássaros com seus cantos, a música de seus cassetes, a livraria antiga, a casa de banhos, os restaurantes comuns. Todos esses elementos dissipam a necessidade daquilo que não é real, mas interpretado pelas redes sociais. Hirayama tem fome de viver e come sem pressa, saboreando cada refeição.
Mundos possíveis
Freud, ao tentar explicar o que leva homens e mulheres ao não pertencimento e à histeria, enxerga que o mal-estar da civilização está centrado em três tópicos: a natureza, o corpo e as normas. Já o antropólogo Marc Augé, ao estabelecer uma arqueologia do pertencimento, define o conceito de não-lugar: espaços sem historicidade, identificação e pertencimento, como aeroportos, estações ferroviárias, farmácias e supermercados.
Em Olhe as luzes, meu amor, Ernaux usa a apatia dos supermercados para estabelecer uma interpretação possível entre os anônimos que passam, dia após dia, pelas gôndolas. Nos grandes caixotes de consumo, a escritora investiga a mesma geografia sentimental que aparece em outros livros seus. Em vez de se centrar em uma cidade, porém, volta os olhos para os templos de consumo — que, na Paris moderna, também foram objeto de fascínio. O que ela faz é vislumbrar mundos possíveis, ficcionalizados do ponto de vista utilitarista, sobretudo se pensarmos na moda do storytelling como tentativa de criar vínculos entre produtos e consumidores.
No lado oposto de Ernaux estão escritores como Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges, para quem a realidade imediata é apenas o alicerce de algo mais profundo. As cidades invisíveis, de Calvino, sintetiza a simbiose entre o real e o fantástico. Partindo das viagens de Marco Polo, o livro mergulha no abstrato e na fantasia. Em Marcovaldo e O castelo dos destinos cruzados, o escritor cruza uma linha que muitos ignoram: a cidade como duplo do indivíduo.
Já Borges usava da mitologia portenha para criar mundos. Quem lê contos como O zahir, O aleph, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius e O outro não deve esperar uma lógica cartesiana. Para Borges, a cidade é mais que cenário: é ameaça real. Textos como Emma Zunz e O homem da esquina rosada comprovam isso. Silvina Ocampo faria o mesmo em A fúria, ao mostrar como a cidade e as memórias de outro se apossam de alguém.
A hora da estrela, último livro publicado em vida por Clarice Lispector, percorre caminho inverso. Macabéa tenta, em vão, assumir a personalidade das mulheres do Sudeste. Rejeitada, não se encaixa na cidade nem no mundo. Ao fim, quando encontra a estrela prometida pela cartomante, percebe que tudo deu errado na mais perfeita sincronia.
A cidade, como se vê, não é apenas a soma de temores e solidões transformadas em arte. Ruas, becos, avenidas e prédios formam um quebra-cabeça afetivo e criativo. Quando Ben Wilson fala sobre o fim de Uruk, a cidade-mãe, fica a certeza amarga de que somos um império em declínio, registrado em páginas e páginas, impossível de conter.