Todo texto narrativo é um bosque. A afirmação surge das aulas que Umberto Eco deu na Universidade de Harvard em 1993 e publicou em Seis passeios pelos bosques da ficção. Ali, Eco afirma que “qualquer narrativa de ficção é necessária e fatalmente rápida porque, ao construir um mundo, que inclui uma multiplicidade de acontecimentos e de personagens, não pode dizer tudo sobre esse mundo”. Cabe ao leitor preencher suas lacunas e terminar o trabalho.
Surge daí a ideia da leitura como um passeio pelo bosque. Primeiro, porque cada bosque tem uma configuração de trilha diferente; elas podem estar destacadas, ser apenas um rastro ou estar ausentes. Em paralelo, cada viajante também opta entre seguir a trilha ou não; escolhe os rumos que toma nas bifurcações; pode até mesmo ignorar o trajeto e adentrar na mata. O importante é que, a partir dessa metáfora, Eco afirma que a leitura é feita nesse espaço de contato entre o percurso do leitor e a topografia do livro.
Quando pensamos nas rotas dos leitores em narrativas que falam sobre desesperança, apatia ou luto, podemos nos deparar com uma troca incômoda que, enquanto nos aproxima das angústias dos personagens, coloca as nossas sob o mesmo escrutínio. E, apesar das dificuldades nesse encontro, a romancista japonesa Banana Yoshimoto afirma que a literatura não deve se afastar dessas discussões. Em uma entrevista à Folha de S. Paulo, a escritora disse que “é importante adquirir a capacidade de imaginar a dor dos outros, além de tolerar a sua própria. Se perdermos isso, creio que perdemos a maior virtude da humanidade”.
Entre as obras escritas por Yoshimoto está Kitchen, seu romance de estreia, relançado no ano passado. O livro discute a perda de entes queridos enquanto acompanhamos Mikage Sakurai em dois momentos distintos. No primeiro, Sakurai acaba de perder a avó, sua familiar mais próxima. Desnorteada, o único lugar capaz de oferecer algum conforto é a cozinha de sua casa, adormecendo com o som do motor de sua geladeira. Ela nos conta que
Três dias após o funeral, ainda estava atordoada.
Mal conseguindo chorar e completamente envolvida pela melancolia, fui arrastada por uma suave sonolência e estendi o futon na cozinha silenciosa e reluzente. Dormia enrolada no cobertor como Linus do Snoopy. O barulho do motor da geladeira me protegia dos pensamentos solitários, então pude passar tranquilamente pela longa noite até a manhã chegar.
Sua vida só muda quando um jovem colega conhecido de sua falecida avó, Yuichi Tanabe, a convida para morar em sua casa junto com sua mãe, Eriko. Sakurai aceita e se encontra em uma nova rotina, uma nova organização… e uma nova cozinha, com outra geladeira pronta para embalar seu sono. Tal deslocamento faz com que Sakurai consiga passar pelo processo de compreensão da perda e de reparação das dores até que, na segunda parte do livro, uma inversão coloca Yuichi Tanabe no centro da fragilidade.
Quando Eriko falece repentinamente, Tanabe e Sakurai compartilham um novo processo de luto. As dificuldades de comunicação e o distanciamento de Tanabe fazem com que o processo seja mais doloroso e complexo, exigindo que ambos passem por um processo de amadurecimento e de reflexão sobre a natureza do relacionamento que vivem — e assim compreendem que podemos viver um luto por pessoas que partiram, mas também por oportunidades perdidas com aqueles que estão vivos e se distanciam.
Espaço simbólico
Em Kitchen, a cozinha surge como um espaço simbólico. Apesar do grande destaque aos pratos compartilhados entre os personagens, o foco não é a descrição dos aromas e sabores; há, sim, a construção das cozinhas e de seus rituais como espelhamento das personagens e, principalmente, de Sakurai, que vai encontrar na cozinha um espaço de acentuamento da solidão, de acolhimento ou de realização profissional.
Como explica Joy N. Afonso, professora especialista em literatura japonesa que escreve a orelha do livro, Yoshimoto questiona a construção do feminino e seu papel de cuidado a partir da cozinha e de seu lugar estigmatizado. Vemos essa reflexão, por exemplo, na importância que a figura de Eriko, mãe de Tanabe, adquire no processo de amadurecimento de Sakurai. Eriko surge como uma expressão de feminilidade possível e de sucesso fora das rotinas esperadas, já que é uma mulher transexual que trabalha em boates noturnas, cuja família é amorosa e estável, além de possuir ela mesma uma beleza estonteante.
(E um pequeno parêntese sobre a construção de Eriko. No começo do livro há uma nota dos tradutores sobre o desafio de traduzir os trechos com a personagem, uma vez que a marcação de gênero na língua japonesa não é tão ostensiva quanto no português. Assim, há momentos de termos neutros, masculinos e femininos que tiveram de ser adaptados de acordo com a forma explícita ou implícita descrita pela autora e pela temporalidade narrativa dos momentos anteriores ou posteriores à transição de Eriko — acrescentaria, também, que a conquista de direitos LGBTQIAPN+ nos últimos anos torna datadas algumas construções narrativas, como as afirmações de que é difícil acreditar que Eriko é homem.)
Junto das questões sobre a cozinha e o feminino, surgem também reflexões acerca da inevitabilidade do luto ao longo da vida. Sakurai enfrenta um luto concreto que envolve a partida de entes amados ao mesmo tempo que encara a perda da juventude frente às novas situações. No entanto, não são raras as epifanias que surgem com frases de efeito que correm o risco de soar forçadas. Em certo momento, Sakurai diz que “conforme eu envelhecer, muitas coisas vão acontecer e chegarei ao fundo do poço de novo. Muitas vezes sofrerei e muitas vezes me reerguerei. Não serei derrotada, não vou desistir”.
Parte do incômodo na construção dessas frases surge da tentativa de Yoshimoto cristalizar o momento da passagem do choque emocional para o equilíbrio, transformando em palavras um processo que seria mais sutil se visto nas mudanças comportamentais. Tal dificuldade não acontece em Moonlight shadow, conto de Banana Yoshimoto que encerra o livro.
Nessa narrativa, acompanhamos dois jovens que precisam lidar com a perda simultânea de seus namorados em um acidente de carro. O luto, ainda mais intenso devido à idade das vítimas, enfrenta resistência dos protagonistas. Ambos constroem rituais que tentam emular a permanência de seus parceiros no mundo dos vivos, como o uso de um certo uniforme escolar ou da repetição constante de um barulho de guizo.
No entanto, o processo terapêutico dos personagens aqui é feito a partir de outros filtros. Em primeiro lugar, há o local recorrente de uma ponte que marca a passagem entre dois mundos distintos, desde os destinos diferentes ao retornar para casa até a partida para o mundo dos mortos. Soma-se a isso a relação dos personagens com os rituais descritos acima, que se torna uma marcação corporal que nos permite compreender o estado emocional sem a necessidade de “pílulas de sabedoria” ao longo da narrativa.

Apatia e desesperança
Em Tédio terminal, coletânea de contos da escritora japonesa Izumi Suzuki, olhamos para outra sorte de sentimentos negativos. As narrativas apresentam futuros apocalípticos com personagens tomados pelo desejo de anestesia frente a uma desesperança avassaladora e catastrófica.
A obra é a primeira da autora publicada no Brasil e chega acompanhando um movimento internacional de valorização de sua produção. Suzuki foi um dos ícones da contracultura japonesa e teve uma vida breve, mas bastante prolífica. Além de escritora, foi modelo fotográfica e atriz de filmes pink, como eram categorizadas as obras que continham nudez. Foi casada com Kaoru Abe, um saxofonista de vanguarda que morreu de overdose devido à sua condição de dependente químico. Após o falecimento do companheiro, Suzuki passou a escrever contos de ficção científica e ensaios sobre cultura. Aos 36 anos, foi vítima de suicídio.
Tédio terminal é composto por sete contos que colocam o funcionamento da sociedade sob um filtro de distorção e nos colocam em um espaço incômodo de profundo estranhamento. O primeiro deles diz respeito à construção do masculino e do feminino e ao estabelecimento dos gêneros como fluidos e bastante performativos. No conto que abre a coletânea, Um mundo de mulheres com mulheres, os homens foram dados quase como extintos. Devido ao seu comportamento agressivo e à sua ânsia por progresso, a Terra atingiu níveis insalubres e a existência masculina se tornou inviável — parte da narrativa nos leva a entender que houve uma mudança genética, mas, depois, descobrimos que há bebês isolados em campos de trabalho exclusivamente masculinos, considerados mortos ao nascer.
Aqui, as reproduções são quase todas realizadas em laboratório. A relação sexual passa a ser vista como algo repugnante, violento. A dinâmica de casal, no entanto, continua vigente, e as mulheres organizam-se em performatividades masculinas e femininas, em posturas “ativas” ou “passivas” e, às vezes, até como “marginais”. Todas essas construções são complexificadas quando a protagonista tem um vislumbre do que parece ser um homem caminhando pelas ruas.
O desprezo pelas relações sexuais parece ser uma discussão bastante atual em algumas obras sobre o Japão, como o recente Vanishing world, de Sayaka Murata, em que a relação conjugal é como a adoção de um irmão e o sexo entre companheiros é visto como tabu, um incesto. Em Tédio terminal, conto que dá nome ao livro, um menino e uma menina formam um casal romântico “ideal”: são parecidos, como irmãos gêmeos, e ambos avessos ao sexo. Em certo momento, uma das protagonistas comenta como isso é algo repugnante, algo de animais.
Nesse mundo, dois protagonistas lutam contra a apatia de uma sociedade futurista e violenta, extremamente vigiada e automatizada, repleta de desemprego e guiada pelo alto consumo de telas. A apatia aqui é tão grande que uma das grandes inovações é a implantação de um chip que emula o prazer proporcionado ao assistir à TV, “como uma droga intracerebral”. A descrição é feita por um personagem que só volta a sentir emoções ao assistir ao vídeo de um crime real.
Ao longo dos contos, os personagens fazem uso recorrente de drogas que distorcem a realidade, causam alucinações ou anestesiam a existência e afastam as angústias. Em A fumaça entre os olhos, uma das mulheres faz uso abusivo de um medicamento e envelhece diversas décadas em um curto período. No conto Lembranças do Seaside Club, um tratamento alienígena leva pessoas a espaços oníricos para terapias que funcionam à base de amnésia.
As inovações e avanços tecnológicos tampouco servem para criar expectativas em relação ao futuro, mas funcionam como ferramentas de ampliação das dificuldades e alienações. No segundo conto da coletânea, You may dream, a população é convocada a entrar em sono criogênico para o futuro. Não há justificativa para o sono induzido, não há datas para o despertar nem garantias de sobrevivência ao processo.
Para remediar as consequências, as pessoas passam por um processo de transferência de consciência: elegem algum conhecido e passam a habitar seu inconsciente, vivendo nos sonhos dos outros. A narrativa passa a ocupar esse espaço liminar, a vida em suspenso… o objetivo de uma das personagens é conseguir atingir a inexistência em definitivo.
Suzuki nos apresenta um mundo sem nenhum encantamento. Somos como os monstros de Piquenique noturno: estamos fingindo nossa humanidade, aprendendo como agir em sociedade, testando nossas formas de sociabilização. Mas, quando somos expostos em nossa farsa, não há comunidade: as pessoas não se reúnem nas ruínas para recomeçar em algo melhor. Nós nos espalhamos, vamos cada um para um canto. E que seja cada um por si.