Bem-vindo à ficção

“Leda”, primeiro romance de Roberto Pompeu de Toledo, reúne a ironia e a erudição que já caracterizam a obra de seu autor como ensaísta
Roberto Pompeu de Toledo: preocupação com a clareza.
01/07/2006

É provável que o leitor menos eventual da coluna Ensaio, assinada por Roberto Pompeu de Toledo e publicada toda semana na última página da revista Veja, já tenha alguma vez imaginado a bela obra de ficção que poderia nascer dessa mesma pena. Dono de um estilo ímpar na imprensa atual, Toledo pertence à velha e boa cepa de jornalistas que cultivam a erudição e também uma visão muito peculiar do mundo sobre o qual se debruçam. O resultado é uma argüição consistente que extrai um sentido sempre inusitado e grave do que aparenta ser o mais banal e óbvio dos fatos. Soma-se a isso um discurso cativante que mescla elegância e fina ironia, além de um delicioso toque retrô por conta da forma culta com que emprega os pronomes átonos e da preferência pela ênclise, à maneira lusitana. E ainda a habilidade com que ele chega ao essencial de uma história usando poucos recursos, uma vez que no ensaio ela se restringe a ser ponto de partida ou ilustração de uma idéia que se pretenda desenvolver — nada mais distante do que acontece no texto ficcional, onde a história é o próprio meio e também seu fim. Para completar, Toledo tem conhecimento e gosto pela literatura, evidenciados na freqüência com que ele refere seus autores preferidos. Ou seja — parodiando-se aqui um dito gauchesco —, o cavalo já passava encilhado, bastava querer montá-lo.

Com Leda, Toledo finalmente nos satisfaz a curiosidade. Antes que se abra o livro, porém, um pomposo subtítulo — Relato romanesco em 13 capítulos e epílogo, contendo uma versão condensada de A busca vã da imperfeição — consegue a façanha de aguçá-la ainda um pouco mais. De pronto, vê-se confirmado um traço peculiar do ensaísta mantido agora na ficção: o anacronismo, entendido aqui não como vício mas como opção estilística, que — logo adiante se perceberá — vai combinar muito bem com uma propositada imprecisão temporal da narrativa.

A história é fascinante. Adolfo Lemoleme, obscuro professor de literatura num hipotético país latino-americano e apaixonado pela obra do conterrâneo e celebérrimo Bernardo Dopolobo, propõe-se a escrever sua biografia. Autor de um romance kafkiano com título em esperanto, dentre outros muitos exotismos, Dopolobo, a princípio relutante, acaba aceitando a idéia e colaborando com o projeto. Ao fim de sete anos de obstinado trabalho, Lemoleme consegue reunir mais material do que comportaria num único volume e decide publicar a biografia em duas partes. A primeira delas torna-se um sucesso instantâneo de vendas e crítica, ameaçando sombrear, em certo momento, o próprio biografado. Este, por seu turno, espanta-se ao ler o livro e sentir-se “uma estátua”, visto que o biógrafo parece conhecer sua vida bem mais do que ele próprio conhece. Vencido o estranhamento inicial e um período em que passa a evitar Lemoleme, Dopolobo descobre estarrecido ter este se apropriado de uma passagem importante de sua vida, revelando-a publicamente como se tivesse acontecido com ele, Lemoleme. A vingança de Dopolobo a esse roubo, que ele se vê impedido de simplesmente denunciar, vem numa estranha e inspiradíssima solução: A catedral invertida, seu novo livro, traz justo uma biografia de Adolfo Lemoleme.

Dizer que o novo livro de Bernardo Dopolobo causou surpresa é dizer pouco. Causou furor. Deixou críticos e leitores, amigos e admiradores, inimigos e detratores, desconcertados. “Eu não me surpreenderia tanto se ele publicasse uma versão em versos da Constituição da República da Bulgária”, reagiu um crítico. “Bernardo Dopolobo nos deu um susto”, escreveu outro. “Estava escondido atrás da moita e nos saltou à frente.” O novo livro do célebre escritor era nada mais nada menos que… uma biografia de seu biógrafo! A história de Adolfo Lemoleme, da infância pobre ao triunfo como autor de uma festejada biografia do mais importante escritor de seu tempo. A própria Veridiana Bellini, quando se deparou com o volume, ficou atônita. “Que é isso, que é isso!?”, perguntava, à medida que o folheava, sentada na cama, e se dava conta do conteúdo, olhando alternadamente para suas páginas e para o companheiro, de pé diante dela. Bernardo Dopolobo a contemplava, divertido. “Se ele pode, por que eu não posso?”, dizia. Adolfo Lemoleme caiu doente.

A essa biografia nem um pouco inocente (a propósito de seu efeito sobre o biografado, observe-se o belo corte ao final do parágrafo acima), segue-se a segunda parte da de Lemoleme, com novos e sempre interessantes desdobramentos.

Desnecessário falar da riqueza de possibilidades literárias que o caminho sugere. O duelo através das biografias é um achado e tanto, e Toledo joga-se nele com uma segurança invejável a quem está estreando na ficção. E não se atém apenas a esse jogo de espelhos que por si só renderia um alentado romance: ao trazer para dentro dele a “versão condensada” do fictício A busca vã da imperfeição, um livro de sucesso de Dopolobo, além de referir argumentos de outras obras do escritor, Toledo abre espaço para um exercício metalingüístico de surpreendente efeito. Lemoleme não se contenta em ser um competente e isento biógrafo e começa a viver como se fosse dele a vida do outro, tomando de empréstimo, sem nenhum pudor, situações e personagens reais, ao mesmo tempo em que desmascara ao mundo a porção verídica que esconde cada uma das famosas histórias criadas por seu ídolo. Vaidade, inveja e disputa são as palavras-chave da motivação dos protagonistas.

Sem sombra de dúvida, o melhor de Leda está nesse enredo. A condução firme da história, por sua vez, mostra que a racionalidade do ensaísta migrou intacta para a ficção. Tudo é tão lógico, tão solidamente estruturado que, em algumas vezes, o leitor terá a sensação de estar lendo algo que não parece pertencer ao gênero proposto. É Moacyr Scliar, em resenha publicada na já referida revista Veja, quem melhor define esse aspecto quando afirma tratar-se de “um romance que, de certo modo, também pode ser lido como um ensaio sobre os aspectos mais insólitos do trabalho literário e de sua relação com a existência”. Obviamente não intencional, a comparação acaba transcendendo o puramente metafórico. Para contrabalançar essa marca indelével de seu discurso, Toledo apela então ao burlesco: não só os personagens são batizados com nomes esdrúxulos, às vezes cacofônicos — Adolfo Lemoleme e Bernardo Dopolobo são apenas o começo de uma lista que inclui Carlos Nochebuena, Felícia Faca, Salustiano Fático, Oriano Lettera, Rita Tanajura, Jurema Melo e Marino Sephora, entre outros —, mas também os títulos das obras que vão sendo citadas contemplam esquisitices como O tomate implausível, O elefante de duas trombas, O ditador de cuecas, A fera indormida, O docente indecente, Sexo é para desocupados e por aí vai, além, é claro, de Mi havas bonajn amikojn, o tal título em esperanto. A caricatura também pode ser percebida na estereotipia proposital dos personagens — e a figura extravagante de Bernardo Dopolobo é o melhor exemplo. Em suma, esses ingredientes todos acabam levando à fantasia e conferindo um tom fabular à narrativa.

Uma outra curiosidade: a personagem Leda não protagoniza o livro que seu próprio nome intitula. Sua participação na história é das mais discretas, sem contudo deixar de ser emblemática. Leda simboliza na trama o ponto sempre nebuloso onde ficção e realidade se entrecruzam, o que, no fundo, é o mote do romance. E mais não se pode avançar, sob pena de se antecipar ao leitor o que não deve ser antecipado. Eis aí outra virtude de Leda: embora não se possa considerá-la uma história de suspense, a tensão é mantida do início ao fim graças à objetividade com que o autor constrói o fluxo narrativo costurando situações tão inusitadas.

No que diz respeito à linguagem, Roberto Pompeu de Toledo consegue em Leda nem mais nem menos do que se esperava dele. Ali estão presentes os elementos todos que compõem o estilo singular do ensaísta: a ironia refinada, a elegância, a erudição, a precisão do léxico, a concisão, a sobriedade. Toledo não decepciona quem queria ver isso tudo a serviço de uma peça ficcional. Em alguns momentos, porém, o já referido uso dos pronomes átonos soa um pouco exagerado, assim como as muitas vírgulas acabam travando o andamento de um discurso onde o cuidado com a eufonia é evidente. Por outro lado, a preocupação com a clareza, tão desejada no texto técnico ou jornalístico, pode levar ao excesso no plano literário. Um exemplo: na referência a uma varanda, é desnecessário qualificá-la como sendo “da propriedade” onde a cena está ambientada. Os diálogos tampouco escapam desse padrão: os personagens falam todos no mesmo e elevado registro do narrador, em prejuízo da naturalidade. Detalhes, obviamente, que poderão ser facilmente aperfeiçoados nas obras futuras.

O principal, contudo, Roberto Pompeu de Toledo já alcançou em sua primeira aventura como ficcionista: Leda é uma obra densa, original e muito bem-realizada. Quase uma raridade na atual entressafra da produção literária brasileira.

LEIA ENTREVISTA COM ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Leda
Roberto Pompeu de Toledo
Objetiva
160 págs.
Roberto Pompeu de Toledo
Nasceu na cidade de São Paulo, em 1944. Jornalista desde 1966, trabalhou no Jornal da Tarde, no Jornal da República, na Isto é, no Jornal do Brasil e na Veja.
Luiz Paulo Faccioli

É escritor. Autor de Trocando em miúdos, Estudos das teclas pretas, entre outros.

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