A obra de Jorge Luis Borges é considerada desconcertante por muitos leitores. “Desconcertante” porque causa surpresa e espanto, gera confusão e desorientação, provoca incômodo e embaraço, perturba e desestabiliza a lógica “tradicional”. Diante dos inúmeros enigmas, referências verdadeiras e inventadas, citações subvertidas e criações absurdas na obra do escritor argentino, alguns leitores adultos acabam se afastando, vencidos diante da dificuldade em penetrar nesse rico universo. No entanto, paradoxalmente, tais propostas de desorientar a lógica não causam incômodo aos leitores infantojuvenis, muito pelo contrário: eles estão prontos para fazer parte do pacto de encantamento, dispostos a entrar fundo em mundos nonsense com um sorriso aberto e a alma desperta.
Um bichólogo na fazenda dos sonhos
Em 1942, Borges publicou o “desconcertante” O idioma analítico de John Wilkins. O ensaio encantou, desconcertou e inspirou o filósofo e historiador Michel Foucault na produção do seu livro (As palavras e as coisas, Foucault, 1966). Nas palavras do filósofo:
Meu livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento — do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia —, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro.
O ensaio de Borges cita “uma certa enciclopédia chinesa” em que está escrito que “os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”. Sobre essa taxinomia, Foucault escreve:
No deslumbramento dessa taxinomia, o que de súbito atingimos, o que, graças ao apólogo, nos é indicado como o encanto exótico de um outro pensamento, é o limite do nosso: a impossibilidade patente de pensar isso.
Se a questão, então, como diz Foucault, é a perturbação do pensamento de quem “tem nossa idade e nossa geografia” — isto é, os adultos — o mesmo não se verifica para o leitor infantojuvenil.
Nessa mesma teia de influência, o conto de Borges inspirou Jacques Fux na escrita da encantadora história Um bichólogo na fazenda dos sonhos (Leiturinha, 2024), aventura que convida o leitor, livre de amarras e angústias, a visitar esse lugar insólito-divertido. O convite, destinado a aventureiros destemidos, vem expresso nas palavras iniciais do texto:
Num lugar difícil de se chegar mesmo de carro, de ônibus, de bicicleta, de helicóptero, avião, tapete voador, patins com foguete mágico, barquinho de papel reciclado, carona nas asas de um dragão, segurando no pé de um sabiá, usando uma passagem vencida de vassoura voadora, no cangote de um grilo falante, dentro do bolso do terno de um coelho… Puxa, que lugar difícil de se chegar, parece que só podemos alcançá-lo pelas páginas deste livro! Pois é! E justamente nesse lugar havia uma fazenda. Uma fazenda repleta de bichos, cada um no seu devido lugar!
E a trama do livro se intensifica quando esse bichólogo se depara com animais nada convencionais. Diferentemente do que ocorre com os adultos, os jovens leitores sorriem com as invenções no estilo borgiano e com os temperos criativos e linguísticos de Fux. Ao fim, todos se encontram com o próprio Borges, inclassificável, inventivo e cego com sua visão infinita.
Um labirinto labiríntico
E o nosso Fux continua visitando enigmas, livros e os mistérios do raciocínio, agora incorporando a inspiração de um livro clássico da lógica: Alice no País das Maravilhas. Leitores de todas as idades se encantam com as histórias complexas, convexas e perplexas da pequena, grande e espichada Alice, a protagonista desse texto fantástico de Lewis Carroll, em que são confrontados enigmas profundos da lógica e da matemática, enigmas ligados ao tempo, ao espaço e ao infinito. Se é essa a proposta, de antemão é preciso enfrentar um probleminha-problemão: se lógica quer dizer razão, ideia que vem lá do grego logike — não é, aparentemente, isso que falta nas aventuras de Alice? Mas a lógica do nonsense, como escreveu Gilles Deleuze, em Lógica do sentido, não quer trabalhar com o avesso ou a negação do sentido, mas revelar os mundos criativos da ficção e também novos sentidos, antes escondidos e invertidos. Em Um labirinto labiríntico (FTD, 2024), Fux revisita o universo de Alice e também o conto de Borges A escrita do Deus. Usando e abusando de labirintos linguísticos, intertextuais e lógicos, Fux, na voz de um inventor menino — ou de um menino inventor —, quer desvendar-descriptografar o nome secreto que deu origem ao universo — ideia que aparece no conto de Borges e também em muitos textos cosmogônicos. Fux inicia seu livro-enigma assim:
De repente, como num susto, num soluço ou num sonho, o menino detetive se viu perdido num labirinto. Mas não era um labirinto qualquer. Era um LABIRINTO LABIRÍNTICO. Como sairia dali? Não tinha a menor ideia… O detetive menino não viu placas mostrando o melhor caminho a tomar, nem marcas no chão, nem paredes ou muros para pular. Muito menos havia alguém sentado num guichê de desinformações para ajudá-lo. Só havia um quebra-cabeça misterioso. E do lado de fora da caixa do quebra-cabeça misterioso, havia um desenho. Detetivesco, o menino olhou mais de perto e percebeu que se tratava de uma imagem do mundo todo. UAU! Porém, o mais fantástico ainda estava por vir. Ao aproximar o nariz o mais perto que conseguiu da imagem, o menino viu a figura de um menino investigador aproximando o nariz o mais perto que conseguia da imagem. UAU! Um abismo de imagens!
Em Através do espelho e o que Alice encontrou por lá, Carroll brinca com expressões ao pé da letra (a matemática e a lógica brincam bastante com isso), como nesta passagem:
Só olhe estrada abaixo e me diga se consegue ver um deles.
— Ninguém na estrada — disse Alice.
— Quem dera eu tivesse esses olhos — o Rei comentou amedrontado. — Imagine conseguir enxergar Ninguém! E dessa distância! Ora, com essa luz eu mal consigo ver as pessoas que existem!
Alice não prestou atenção em nada disso, pois ainda estava observando a estrada, protegendo os olhos com uma das mãos.
Também Fux, em Um labirinto labiríntico, faz suas peripécias intertextuais e lógicas:
Um tigre forte e com listras quase falantes. E de bigode, claro. Apesar de aparentar tranquilidade e sabedoria, o tigre ainda não era um tigre de bengala. Azar dele ou do menino o fato de nenhum dos dois usar bengala? O menino ficou sem saber. Talvez, num próximo encontro, eles já estejam velhinhos e, então, amparados em bengalas. O astuto menino notou que as listras do tigre eram fascinantes. Quando começou a admirá-las, lembrou-se de que estava apavorado! Abraçado ao quebra-cabeça, ele e o tigre voltaram a fugir um do outro (ou a perseguir um ao outro?).
O enigma do infinito
A biblioteca de Babel é um dos textos mais conhecidos de Borges e um dos mais reveladores em relação ao que ele pretende com a literatura — abarcar todo o conhecimento existente e inexistente. Nesse texto, Borges concebe uma biblioteca que “promete o infinito”, mas que poderia ser “facilmente” substituída por apenas um livro — um livro com infinitas páginas. Em seu O enigma do infinito (Maralto, 2019), Fux entra nessa biblioteca, “explica” um pouco das relações entre literatura e matemática e mostra (com as ilustrações), a sua estante de livros. Lá aparecem, obviamente, os autorreferenciais Alice no País das Maravilhas, O idioma analítico de John Wilkins, A biblioteca de Babel e A escrita do Deus. Mas, escondido no último local da sua estante, aparece um livro desconcertante — desconcertante como a obra de Borges, Carroll, Perec, Rosa e tantos outros que Fux sempre homenageia —: Todos os livros escritos/ Todos os livros não escritos. Sem dúvida, o livro preferido do autor, afinal, é o livro mais insólito de todos.
Os três livros infantojuvenis de Jacques Fux são ilustrados numa comunhão perfeita entre texto e imagem. Vale a pena, com o olhar desarmado de “adultices”, ler, saborear, participar dessas aventuras lógico-matemáticas.