As invasões bárbaras

Contos do chileno José Donoso iluminam as relações de poder e violência na América Latina a partir de conflitos íntimos e cotidianos
O chileno José Donoso, autor de “Contos completos”
10/02/2026

Make America great again. O slogan trumpista deixa uma pergunta: qual América? Muito provavelmente, não a América Latina. Resumir os Estados Unidos da América a sinônimo do continente é a pista mais clara para entendermos a megalomania de um país que está por trás do colapso latino. A crise dos países em desenvolvimento é um projeto, como diria Darcy Ribeiro, um projeto cuja convulsão tem como ápice as ditaduras. Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile que o digam. O movimento sincrônico de fechamento e totalitarismo foi espantoso, não fossem as mãos estadunidenses tocando violentamente nessas nações, em geral de forma invisível. A Venezuela, que vivia há anos o calamitoso madurismo — também uma ditadura —, foi o alvo mais recente, porém sem qualquer cinismo. O objetivo era claro: o petróleo.

O estado-violência é uma constante latina, quase um epítome do nosso continente. Ainda estou aqui — tanto o filme quanto o livro — conseguiu dar uma dimensão agigantada da truculência estatal dos anos de chumbo. Entretanto, os melhores retratistas das dinâmicas de poder latino-americanas foram o uruguaio Eduardo Galeano (1940–2015) e o chileno José Donoso (1924–1996). Enquanto Galeano, que escreveu o clássico As veias abertas da América Latina, adota em sua ficção um tom anedótico — basta ler O livro dos abraços, O teatro do bem e do mal, Dias e noites de amor e de guerra para se ter uma ideia —, Donoso é um prosador em seu estado mais puro, como pode ser lido em O lugar sem limites, sua obra mais conhecida.

O escritor chileno, no entanto, muitas vezes passa ao largo do leitor brasileiro tão bem-acostumado com Cortázar, Borges, Bolaño, García Márquez e outros cânones do lado de cá do hemisfério — o que não é ruim, obviamente, mas apenas reducionista. Seus Contos completos perfilam os contrastes de um continente culturalmente rico, porém subjugado aos Estados Unidos ou à Europa.

O fator interessante é que Donoso, ao contrário de Bolaño e ao modo de Cortázar e García Márquez, investiga as tensões e hierarquias de uma forma indireta, em geral se apoderando de situações do dia a dia para refletir acerca de um cenário muito maior. Veraneio, conto que abre o volume, narra os impasses entre duas famílias em uma praia. O vértice do conflito é o “pai”, um homem ausente, mas cuja presença parece ser a única solução viável. Os filhos das duas famílias são os outros ingredientes desse drama ensolarado, que se revela uma boa analogia para as relações conturbadas entre a América Latina e o Velho Mundo, sobretudo quando pensamos na ótica da colonização e da dominação do nosso continente. Entre as duas famílias há uma história que não sabemos, mas intuímos — e é nesse vão narrativo que o conto esconde a sua verdadeira trama, pedindo atenção do leitor.

Xarás, o relato seguinte, é a exegese da misoginia que reinava na cultura ocidental até há bem pouco tempo. Partindo da coincidência entre o nome de dois personagens, Donoso elabora uma tensão interessantíssima sobre as relações de poder e contrato social. Esse, quem sabe, é o seu texto mais direto, menos sutil, mas nem por isso menos arguto. O que é revelado ao longo do conto constrói uma colcha de retratos intrincada, dolorosa e muito contundente, que escancara feridas que parecem nunca cicatrizar.

Mundo civilizado
A literatura de Donoso é assaz reveladora. Os segredos da sua escrita estão nas aberturas que entrega ao leitor. Contos completos não é um livro que possa definir a sua obra, mas é uma entrada fundamental para quem pretende se aventurar no que fez o chileno. Em Güero, voltamos à questão da colonização e às relações hierárquicas. Nesse relato, a história de uma mulher que perdeu o marido e o filho se revela algo muito maior e intenso. Donoso — ao criar a sua narrativa — não faz concessões e vai embaralhando as cartas, uma a uma, como se o acaso fosse o grande leitmotiv da sua literatura. Esse é um texto sobre dor e aceitação, uma linha temporal que se monta de forma direta e clara, sem perder a elegância. Penso que pode ser um dos textos mais importantes para se entender a literatura de Donoso.

A cidade, ainda que invisível, também é personagem. O conto Uma senhora usa o trajeto do bonde — como em Ônibus, de Cortázar — para criar paralelos entre o cotidiano e o absurdo. E, mesmo que breve, é um relato intenso, quase maníaco, em que o escritor não titubeia em transformar realidade em obsessão. Nesse tarô literário, novamente é o acaso quem governa o caos, que estabelece as regras daquilo que não é dito, mas está ali, sempre presente — como um fantasma.

Não vamos investigar todos os contos, um a um, mas é preciso dizer que Contos completos revela Donoso como um dos prosadores mais instigantes da América Latina. Se a sua produção de narrativas breves é diminuta, e cabe em um livro tão pequeno, ao mesmo tempo é intensa e incisiva, perspicaz e com uma capacidade original de revelar os segredos do nosso continente.

As histórias não se entrelaçam de forma direta, mas existe um eixo que perpassa todas elas — e isso fica muito distinto em contos como Dinamarqueiro e O homenzinho — que é o diálogo truncado entre o mundo civilizado e o resto do globo, que, obviamente, inclui os latinos. À medida que o leitor avança, o desconforto que a literatura de Donoso causa é um deleite, não como sofrimento, mas tal qual os olhos que se abrem após muito tempo adormecido.

Triângulo narrativo
Contos completos é uma obra de emancipação, que desconstrói as ideias que se tem tanto do autor quanto da literatura chilena. Esse vértice do triângulo narrativo do livro fica claro no primeiro e no último conto, Santelices. As outras duas pontas são a identidade — que perpassa, em alguma medida, todos os relatos — e a reconstrução, que está muito bem delineada em textos como Ana Maria e Passeio.

A lógica, portanto, acaba sendo muito clara: a descoberta da identidade gera a emancipação que pede, urge, por uma reconstrução. Pode-se dizer que esse foi o caminho latino-americano durante os regimes ditatoriais para a parcela da população que não aceitou a intervenção norte-americana em seu país. Para os que abaixaram a cabeça, bem, aí só restaria ser subjugado mesmo. É difícil ler Donoso e não pensar em dois filmes de Costa-Gavras: Z e Missing, longas que refletem muito bem os anos de Pinochet no Chile.

Como se vê, o itinerário de Donoso não é exatamente simples, e isso vale para qualquer um de seus livros; entretanto, revela uma literatura que consegue retratar as nuances sociais sem os lugares-comuns que encontramos, sobretudo na literatura de nossos dias.

Contos completos
José Donoso
Trad.: Bruno Cobalchini Mattos
Mundaréu
224 págs.
Jonatan Silva

É jornalista e escritor, autor de O estado das coisas e Histórias mínimas.

Rascunho