As gentinhas e suas vidas

Nos contos de Gentinha, Marcelo Moutinho observa vidas comuns e transforma afetos, memórias, desejo e contradições em uma crônica de costumes cariocas
Marcelo Moutinho, autor de “Gentinha” Foto: Leo Aversa
01/10/2026

Gentinha é o mais novo livro de contos de Marcelo Moutinho, escritor que, no cenário atual da literatura brasileira, apresenta uma versatilidade composicional de que a presente obra é um registro típico.

Nela encontramos seu apego à música brasileira, seu gosto pela “biografia” (ao compor ficcionalmente em torno de figuras reais), sua satisfação em retratar os costumes comezinhos e mais simples do povo carioca, fonte da qual extrai o tutano de sua literatura.

Uma literatura “pé no chão”, diga-se. Sua prosa circula pela vida comum, mais preocupada em descrever os costumes de tipos nada atípicos do que em colher insights extraordinários da existência. É a escolha deliberada do escritor, escolha esta que condiciona as ferramentas de que lança mão.

Olhar descritivo
Assim, em todos os contos constata-se uma predominância do tom descritivo:

Embora ainda flexíveis, as piaçavas confessavam o tempo de uso em pequenos vãos na base antes compacta. Falhas de uma boca que começa a perder os dentes, mas ainda é capaz de mastigar alimentos mais duros. Acima das franjas, um breve fio em dourado, sobre o qual a faixa larga e vermelha fazia a conexão com o cabo de madeira clara. O vermelho era vazado pelo camafeu de uma mulher que varre o chão. Ao lado dela, em letras azuis, a logomarca se nomeava, orgulhosa de si mesma: Vassoura Rossi.

Sim, é a descrição de uma vassoura, no conto Dança da vassoura. Por que o narrador deste conto, que versa sobre a solidão amorosa juvenil, detém-se tanto na figura desse objeto? O leitor é levado a supor, dado o desenvolvimento e sobretudo o desfecho do conto, que a atenção à vassoura deve mesmo predominar sobre qualquer outro par romântico presente no baile em que está o protagonista.

Já em outros contos, essa ênfase na descrição tem o forte sabor de uma crônica de costumes cariocas, satisfeita em desfilar ante o leitor esses tipos vivos:

Jéssica era Vasco, mas resolveu ir ao show com a camisa do Flamengo. Chamou a Bia, amiga que fez na manicure e se tornaria quase uma irmã, com a condição de que lhe pagasse o chope depois.

No trecho acima, extraído de Eu sou seu lírio, você é minha rosa, Moutinho traz uma de suas outras obsessões artísticas: o papel da música em sua prosa, bem como o gosto de lidar com os cantores e compositores, no caso Jorge Ben Jor.

Música e intimidade
Essa inclinação pela pincelada carregada do cotidiano e a atração pela música e por sua relação com as pessoas encontram-se também no conto Sentimental eu sou. Trata-se de uma narrativa que segue em paralelo duas distintas duplas de amigos que as circunstâncias tratarão de unir em um desfecho impactante e dramático. Há, no título, uma ironia encontrável também em narrativas como Amarelinha e Da janela, o horizonte.

Ainda no campo do conteúdo, observa-se na obra a preocupação em lidar com o mundo interior dos personagens, seus traumas e fetiches. No aspecto traumático, vale mencionar, dentre outros, o conto Mictório. Nele, por meio de uma urdidura narrativa verdadeiramente interessante, dois homens urinando em um banheiro público estabelecem uma relação inusitada com a cena, alhures, de um homem sendo torturado presumivelmente pela ditadura militar.

Já nos contos que tratam dos fetiches humanos, cultivados e cuidadosamente ocultados no íntimo, sobressai o conto Baunilha, em que o leitor acompanha a relação afetiva, mas um tanto protocolar, de um casal jovem às vésperas do casamento. O rapaz da relação, contudo, oculta da noiva e dos próprios pais algumas inclinações censuráveis (no contexto tradicional de sua família em que foi educado). Para a surpresa de quem lê, neste conto, excepcionalmente, são utilizadas imagens, tornando patente ao leitor cúmplice o que permanece latente aos demais personagens da narrativa.

Verdadeiramente, o tema erótico é uma obsessão do autor (o termo “pau”, com seus derivados, é, talvez, o mais recorrente em todo o livro). Abarca desde o autoconhecimento (o citado conto Baunilha e O experimento) até as relações acessórias (Quarto 203). É interessante notar que, seja no primeiro, seja no segundo caso, o rito sexual se dá no “breu das tocas”, no subterrâneo literal de um quarto de motel ou da própria mente dos personagens.

Memória e crítica
O leitor encontrará também o tema da persistência da memória. Eis um elemento comum em contos como Jurupoca dos bichos e Mictório, assim como em Queda para o alto, Licor de anis e Amarelinha. Em especial, nestes dois últimos e em Jurupoca…, a memória revisita elementos passados e os ressignifica, estejam os personagens conscientes ou não disso.

Por fim, há que se falar também no elemento de crítica social, mais pincelado do que aprofundado, em contos como Da janela, o horizonte e Conto de Natal. No contexto de um mundo que se norteia pelo consumo e pelo poder aquisitivo, as relações humanas são tingidas por uma forte ideia de hierarquia social que sonega dignidade ao indivíduo (Da janela…); essa lógica também cria um impulso de obtenção e posse de bens socialmente valorizados, corrompendo a ética do homem e adulterando ironicamente a simbologia de uma efeméride (Conto de Natal).

A despeito do título da obra e do tratamento crítico e irônico que o autor dispensa a seus personagens, não se pode ignorar certa simpatia que nutre por eles. É uma afeição que transcende o desapreço por suas superstições, suas crenças tradicionalistas, seus preconceitos e banalidades.

Estilo
Marcelo Moutinho, como já dito, parece mais guiado pela pena da crônica do que pela do conto nas peças que compõem a obra. Contos como Paladar infantil, Eu sou seu lírio, você é minha rosa e Quarto 203 reforçam essa impressão. Sua força está na pintura de cores vivas dos ambientes e de seus tipos mais do que nas tramas que se desenvolvem. Estas se entregam na primeira lida. Há pouca margem para especulação ou insight.

Também a esquematização de alguns tipos deve mais à crônica que ao conto, como é o caso dos pais de Baunilha. Ei-los planificados, nas figuras de pequenos burgueses que desejam para o filho uma projeção social, um casamento tradicional, e que se persignam ante a fluidez de gêneros da atualidade… Os tipos marginalizados de Conto de Natal e Sentimental eu sou passam a mesma impressão.

Uma leve ironia se faz presente na narração. Um caso ilustrativo é Amarelinha, que brinca com o pavor da personagem principal diante dos doces de Cosme e Damião. No entanto, sua paixão por guloseimas acaba por vencer sua superstição. Após devorar um doce de abóbora, acaba por “brincar de amarelinha” no piso de sua casa: uma piscadela que o autor dá às manifestações de erês nas religiões de matriz africana.

Forma fragmentada
O autor, ao conduzir grande parte dos contos, lança mão de blocos fragmentados, subdivididos por asteriscos, como a captar instantâneos da vida. Essa também parece ser sua forma de conceber a realidade: não de maneira linear, mas fragmentada, muito afim à tendência contemporânea, seja na ficção, seja fora dela. Tal recurso dá azo à condução em paralelo de diferentes tramas dentro da trama, algumas genuinamente engenhosas, como a de Mictório, e outras que engajam o leitor, como a de Sentimental eu sou.

Na escrita propriamente dita, observa-se um escritor parcimonioso com os recursos que mobiliza. Seu uso de figuras de linguagem, em especial a metáfora, é controlado. A descrição sobressai ao comentário, à especulação. Os períodos são, em sua maioria, curtos, objetivos. Sente-se, na leitura de sua prosa, que a preocupação é com a economia e com a concisão, cuidados próprios a quem se aventura na narrativa curta:

Então sentamos pro almoço. Os moleques engoliram a comida quase sem mastigar. Juvenal tomou duas cervejas de garrafa, das grandes, e deitou no sofá da sala. Pegou no sono rapidinho. Ficamos eu e a Fatinha tendo que controlar as feras.

Eis o que há de mais típico na prosa de Marcelo Moutinho. Uma vida que se reconhece facilmente por qualquer leitor, seja qual for o contexto em que vive.

Gentinha
Marcelo Moutinho
Record
192 págs.
Marcelo Moutinho
Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1972. Conquistou o Prêmio Jabuti em 2022, na categoria Crônica, com A lua na caixa d’água (Malê) e o Prêmio Clarice Lispector de 2017, da Fundação Biblioteca Nacional, com os contos de Ferrugem (Record). É também autor dedicado ao gênero biografia, bem como a obras voltadas ao público infantil.
Clayton de Souza

É escritor, autor do livro Contos Juvenistas.

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