As formas de um segredo

"Dança de enganos", que encerra a trilogia O lugar mais sombrio, é um romance em que memória, política e drama familiar se entrelaçam
Milton Hatoum, autor de “Dança de enganos” Foto: Renato Parada
01/01/2026

Numa conferência intitulada Literatura & memória, notas sobre Relato de um certo Oriente, proferida na PUC-SP em 1996, em que discorreu sobre o processo de elaboração de seu primeiro romance, de 1989, Milton Hatoum começou com uma referência a uma invasão brutal do campus daquela universidade pela polícia em 1977, como reação a um ato de protesto contra a ditadura militar, do qual participava.

Na continuação de sua conferência, leio as seguintes palavras que, a meu ver, elucidam a elaboração da trilogia O lugar mais sombrio, que se encerra com o romance Dança de enganos:

Durante o meu primeiro ano na Europa (primeiro em Madri, depois em Barcelona) [1979], fiz vários esboços de um romance político. Queria aproveitar a experiência que tivera como estudante secundarista em Brasília, no biênio do terror 68-69, e depois aqui em São Paulo, onde na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP ajudei a fundar uma revistinha de poesia e desenho: POETAÇÃO. Mas à medida que escrevia e rejeitava o que escrevia, percebi que alguma coisa não dava certo. Percebi que o meu texto nada mais era do que uma crônica dos acontecimentos recentes. Tudo o que eu escrevia ainda estava no tempo, quero dizer no tempo quase-presente, como se o texto fosse uma reportagem sobre eventos ainda vivos, talvez vivos demais na minha memória… Não conseguia imprimir no texto o poder de fingir, que é o mais inofensivo dos poderes, mas que numa obra de ficção me parece fundamental. Esse poder de fingir… tem a ver com muitas coisas: a relação do tempo do discurso com o tempo da história, a construção das personagens, a organização do enredo com seus saltos temporais, digressões, etc.

O texto é revelador, em primeiro lugar, do procedimento que tem marcado toda a obra de Hatoum: uma escrita sem pressa, publicada somente após encontrar a forma que lhe pareça exata para retratar dramas pessoais ou sociais.

Era preciso dar tempo ao tempo para encontrar a forma e o momento histórico de desenterrar o passado pela memória, retratar seus “militares terroristas” e lembrar que “o futuro é um devaneio da nossa esperança”; que homens da morte “ainda [es]tão vivos por toda parte”, expressões presentes em Dança de enganos.

O tempo da memória vai sobretudo de janeiro de 1968 a 1973 — o período de terror —, mas se estende a julho de 1981, quando se vê um menino espancado por policiais, e acende alertas para nossos dias: “na América Latina e no mundo todo esses monstros fascistas agonizam, mas não morrem. E o que é pior: voltam com força”. Não por acaso, existe uma referência ao ano de 1933 na Alemanha.

Passaram-se 38 anos para que a experiência que Milton Hatoum tivera como estudante secundarista em Brasília, no biênio do terror 68-69, fosse apropriada por um texto de ficção. O fingimento e a realidade crua se fundiram com a qualidade requerida pela alta literatura. Surgiu um personagem capaz de rememorar sua experiência dos tempos sombrios, Martim, protagonista e narrador de A noite da espera, romance de 2017 e primeiro da trilogia.

A experiência de São Paulo, também mencionada naquela conferência, vai ser levada por Martim para Pontos de fuga, o Livro II da trilogia, publicado em 2019.

Agora, quase seis anos depois, sai Dança de enganos, narrado pela mãe de Martim, Lina, que rememora seu passado enquanto lê as memórias do filho.

O pano de fundo político que esteve presente noutros romances do autor agora vem ao primeiro plano, porém com o distanciamento que julgava necessário e a extraordinária elaboração literária — tanto na linguagem quanto nas escolhas feitas para o conteúdo — que caracteriza toda a sua obra.

Os elementos fundamentais da obra de ficção lembrados por Hatoum naquela citada conferência estão elaborados com primor: a relação entre o tempo do drama íntimo e o do país, a construção de personagens verossímeis e complexos, a criação de enredos que se entrelaçam dentro de uma rigorosa arquitetura, em que não faltam saltos temporais nem descrições e reflexões que, à margem das histórias, se detêm sobre ambientes ricos de significado.

O primeiro esboço, diz o escritor naquela mesma conferência, data da época em que se encontrava entre Madri e Barcelona, ou seja, os anos de 1979 e 1980. A política percorreu sua ficção posterior a Relato de um certo Oriente, lado a lado com os dramas de família, em diferentes intensidades, de maneira mais evidente no terceiro romance, Cinzas do Norte, de 2005. Este livro colocou o autoritarismo como um tema central, por meio de um personagem repressor do filho e ligado à ditadura, da perseguição política do jovem e de seu exílio forçado.

O exílio
O ponto final de Dança de enganos e, portanto, da trilogia é uma referência ao exílio, cujo mapa está delineado ao longo do livro — do exílio no próprio país e em cidades estrangeiras até aquele que separa e corre o risco de separar para sempre os dois personagens centrais do drama familiar da trilogia, Martim e sua mãe Lina.

O simbolismo que rege a trama central da relação entre Lina e seu filho Martim — o ausente sempre presente por meio da memória dela e das memórias por ele escritas — se exprime mais na brutalidade da política do que na desventura dos dois, marcada pela culpa.

Martim, fruto da “dança de enganos”, sofreu a repressão do pai. Numa espécie de introdução da trama, a narradora, Lina, casada com esse fanático da religião e do regime militar, afirma: “Meu pensamento saiu do Salão…, desceu a Serra do Mar…, e de repente regressei à noite do baile” — o que leva o leitor à “dança de enganos” responsável por aquele casamento e pelo nascimento de Martim.

Milton Hatoum pratica, como ele mesmo diz, uma literatura de vingança — a vingança contra as injustiças de um passado sombrio que teima em estar presente. Há complexidade em todo o espectro da luta contra a ditadura militar, por meio de personagens diversos, do revolucionário combatente ao desertor e aos dedos-duros em suas distintas faces; de protetores benevolentes, que conseguem a soltura e o exílio de um dos potenciais combatentes, a traidores e delatores; dos desaparecidos para sempre aos reaparecidos. Uma personagem que namorou um delator que “usava máscara de revolucionário” é o vértice de um triângulo amoroso do qual Martim participa, numa das atraentes tramas paralelas.

Martim, solitário, alheado segundo os intolerantes, poderia ser considerado covarde por não entrar na guerrilha como um de seus amigos, mas a deserção “nem sempre é um ato covarde”. Ele, preso, foi salvo pela poesia, embora esta fosse considerada por seus carcereiros coisa de comunistas.

Se, pelo viés político, a trilogia dialoga com Cinzas do Norte, a narração em primeira pessoa por uma mulher em Dança de enganos retoma, em grau menos lírico, a experiência de Relato de um certo Oriente, cuja narradora principal é uma mulher que rememora o passado.

A memória se destaca entre os muitos eixos que se abrem à interpretação em Dança de enganos. Ela, quem sabe, pode nos salvar. Como dito num bilhete de uma personagem: “…os donos da morte… não podem matar o passado. A memória, pesadelo dos algozes, nos dá ânimo: é a esperança dos sobreviventes…”.

Dança de enganos é um romance sobre a memória, até mesmo porque Lina lê as memórias de Martim sobre seus tempos de Brasília, São Paulo e Paris, memórias cuja escrita termina com uma pergunta: “A memória só faz sentido depois do esquecimento?”, o que a leva a outra: “a memória escolhe o que ela esqueceu?”.

Quem sabe existam também memórias roubadas: “Será que as cartas e os diários dos amigos de Martim não foram reescritos por ele, ‘ladrão de memórias alheias’?”, pergunta-se Lina.

“Ardilosa” memória. Lembranças lentas, como as que costuram com fina agulha a narrativa, ou lampejos, iluminações, como no seu final, que leva a mãe a libertar-se da prisão da ausência do filho e da imensa culpa que a atormentava. A memória joga luz sobre o rosto de um garoto de 14 anos que só agora ela percebe trazer “as formas de um segredo”.

LEIA entrevista com Milton Hatoum, realizada pelo editor Rogério Pereira.

Dança de enganos
Milton Hatoum
Companhia das Letras
256 págs.
Milton Hatoum
Nasceu em Manaus (AM), em 1952. Estudou arquitetura na USP e estreou na ficção com Relato de um certo Oriente (1989), vencedor do prêmio Jabuti (melhor romance). Seu segundo romance, Dois irmãos (2000), foi adaptado para televisão, teatro e quadrinhos. Com Cinzas do Norte (2005), Hatoum ganhou os prêmios Jabuti, Livro do Ano, Bravo!, APCA e Portugal Telecom. O romance Dança de enganos encerra a trilogia O lugar mais sombrio. Sua obra está publicada em catorze países e recebeu em 2018 o prêmio Roger Caillois (Maison de l’Amérique Latine/Pen Club-França).
João Almino

É escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Autor, entre outros, dos romances Cidade livre e O livro das emoções.

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