As cores, a carne, o tempo

Entre o azul e o vermelho, as "palavras trocadas", de Laura Erber, propõe uma plástica persistência do amor
Laura Erber, autora de “As palavras trocadas”
01/11/2023

Quando se abre o pequeno livro de capa azul de Laura Erber, logo se vê acender um vermelho. Não o de Anne Carson, cravado na epígrafe, mas aquele que abrasa os tempos, dois tempos, o de uma mulher e o de um homem que amam. E trocam palavras.

A possível ambiguidade do título, as palavras trocadas, parece ser anulada logo no primeiro poema, conforme bem observa Marcos Siscar no posfácio do livro (embora explore em seu ensaio outras ambivalências inerentes a não coincidências dos corpos no amor). Entretanto, se a primeira ambiguidade se esfumaça na estruturação da obra que, de fato, elabora palavras trocadas entre os dois tempos/amantes, outra ambiguidade parece explodir nessa troca, pois se trata de “recolher o que brota quente no corpo langoroso”.

A ambiguidade do encontro temporal aqui não está negativada numa dúvida, antes, está potencializada numa certeza, “o resto sabemos/ não sabemos”. A certeza de não saber não torna positivo o desconhecido, apenas constata o que Clarice Lispector sugeriu em muitas de suas crônicas e mesmo contos: não saber, não entender, pode ser libertador.

A troca poética no livro de Laura não oferece ponto de partida e de chegada, premissa de uma troca. Ela artificializa uma encarnação de palavras. As palavras talvez não estejam sendo trocadas, mas sim tocadas, encarnadas umas nas outras, no sentido de se fazerem carne uma da outra. No sentido de não trocar de lugar, ou melhor, de tempo-espaço. A palavra encarnada, palavra carne, palavra corpo.

Nisso não parece haver troca, mas reverso. Aquilo que muda não pela troca apenas, mas pela impossibilidade de saber quem troca, quem toca e quem é tocado. As palavras articuladas não cambiam, transbordam. Fazem viver erótica, temporal e entrelaçadamente os dois tempos. Também não se trata de sugerir que dois são um (tônica romântica que não cabe mais), é mais o seu contrário, aceitar que um sempre são dois, três, quatro, muitos… quando o campo é o do erotismo.

As palavras que se trocam e tocam neste livro se fazem lugar de estar a dois, ou a muitos, não como uma sala que espera as presenças dos corpos, mas uma sala que existe justamente porque existem os corpos, “você me entende quando digo que fomos convidados a existir aqui”.

Ambiguidade
A convivência dos poemas em prosa com os poemas em versos depõe a favor dessa ambiguidade que é carne. Os poemas de Laura Erber revelam deliberadamente os versos e os reversos desse corpo palavra. O verso opera como corte, superfície enxuta que mostra apenas os rastros de quem rolou nos lençóis e fez emergir as palavras. Os textos em prosa mostram a profundidade de onde elas, as palavras, emergiram. É como deixar a porta do quarto aberta, não por fetiche, mas para não ter de explicar. Os versos são íntimos sem expor a intimidade.

A textura da carne-palavra vai se adensando numa qualidade, o vermelho. Que neste livro, sem dúvida, vem encarnado no fogo. Há fogo em muitos poemas. Um fogo que, na esteira de Anne Carson, tece sua própria biografia. “Com a mão queimada escrevo sobre/ a natureza do fogo.”

Mas, como anunciado já no primeiro poema, o livro parece revelar um desejo de tempos, de fusão de tempos. Num dos poemas mais líricos da obra, intitulado Atrás das cortinas fechadas, Laura diz

eu também quero sentar ao teu lado
atrás das cortinas fechadas
você não dirá nada
assim posso descer ao fundo da pupila
atravessar a pandemia
outra guerra
barricadas de livros
chegar diante de você
menino jovem homem
adulto e velho
com todos os olhos
que me olham através dos
teus olhos de agora
e me devolvem uma por uma
no cinzel dos beijos
as palavras que troquei
sem saber com quem
trocava

A imagem entrelaça a pouca luz do quarto com os corpos sentados na cena. Cortina e pupila, embora não a priori, fundam aqui um mesmo campo semântico e este está ligado à luz, mais precisamente, aos meios de acesso a ela. Aquela tem a ver com o acesso da luz de fora para dentro do quarto. Esta, a pupila, o acesso de fora para dentro do corpo. E a relação não nos remete à metáfora, antes, prima por uma fisicalidade, é corpo. A penumbra do quarto é espessa como a sensibilidade da retina que recebe luz da pupila. Juntas, ambas evocam na cena uma carne ambígua de luz e sombra, crepúsculo e madrugada, um véu cinza escuro onde o que será sondado é o tempo. Sondagem complexa.

Tempo
Há nessa carne-tempo um traço que aponta para o tempo histórico, “atravessar a pandemia”, bem como um traço que aponta para o tempo fenômeno, “teus olhos de agora”. Este tempo parece prevalecer. No livro de Laura, o tempo é fenômeno de um largo agora. Neste, cabe o “menino jovem homem/ adulto e velho”. O tempo amplo que encarna os dois corpos sentados na penumbra e na história que não cessa de acontecer a cada palavra trocada é o reverso do silêncio. E essa reversibilidade se compõe da carne dos olhares, “… olhos/ que me olham através/ dos teus olhos”, que, sabemos, são sempre muitos.

Não é o caso de saber quem olha e quem é olhado, quem vê e a coisa vista. No toque das bocas que riscam, cortam, esculpem vão surgindo reversos de silêncios. Passado transbordando no presente não para escrever o livro futuro, mas para mostrar a espiral amorosa em que nem lembramos mais quem é quem; quem disse o quê.

O verbo final marca um tempo dilatado. Essa carne amorosa onde as palavras se misturam não é algo pontual. O tempo verbal indica repetição, costume. Então, onde o cinzel corta vemos uma fenda de onde jorra o hábito erótico, esse de t(r)ocar palavras como quem toca o corpo.

O reverso de silêncio provocado no poema também não é barulho, ao menos não barulhento, talvez apenas cortina de respiração, sussurro. Não há nesse texto em particular a imagem do vermelho ou do fogo. O clima que paira no ambiente onde esses olhos se tocam e as palavras se trocam remete mais à fumaça, ao menos no que diz respeito à passagem de luz. Ou seja, se o fogo não está presente, já esteve. A fumaça, como rastro de um incêndio passado, não deixa de ser persistência do fogo, do vermelho. Não é como aquele vermelho encarnado escorrendo na capa do livro de Anne Carson, mas sim o cinza que fica depois da explosão vulcânica.

Mais do que transbordados, os tempos dos amantes no livro entram em erupção. Não é coisa que escorre, é coisa que explode, espirra, rompe. Como um amor intenso que depois da explosão vive apenas em brasa, um vermelho soterrado por camada de cinza. Debaixo desta camada, o fogo só pode emergir (encarnar novamente) em troca de palavras, mesmo que não se saiba com quem (que sabemos poder ser o amante “menino jovem homem/ adulto e velho”, ou o leitor).

Intrigado com a capa do livro em azul, volto e releio os poemas de Laura. É então que me dou conta de que não apenas o céu está presente em muitos poemas, mas também que a obra termina ao vento, numa imagem de navegação serena. Como se a poeta não apenas se iludisse com a sensação de ter transformado a brasa em palavras, ou acomodado o fogo passado em um livro onde a emergência está sob controle, mas como se ela se soubesse em espiral indo mais uma vez à tela em branco (a degradação do azul para o branco é evidente na quarta capa do livro). A poeta, ao fim, vai mais uma vez à beira do precipício, ou melhor, à tela em branco de onde pode explodir toda sorte de vermelhos em carne. Vermelhos que não apenas ilustram uma cena de amor e de não-saberes, mas que compõem a reversibilidade de qualquer calma azul e complica a qualidade das cores em um mundo eroticamente errante.

As palavras trocadas
Laura Erber
Âyiné
64 págs.
Laura Erber
Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1979. Publicou Os corpos e os dias (2008), A retornada (2016), Mesa de inspeção do açúcar e do tabaco (2018) e Theodoro Theodor (2018), todos de poesia. Também escreve ensaios, ficção e livros infantis. É colunista no suplemento Pernambuco.
Cristiano de Sales

É poeta e professor de literatura brasileira da UTFPR. Autor de De silêncios e demoras (2020) e Urgências que não são (2021).

Rascunho