As camadas de uma travessia

Texto, imagem e projeto editorial ampliam a leitura de uma narrativa sobre migração, silêncio e despedida
João Anzanello Carrascoza, autor de “Travessia”
01/10/2026

O deslocamento é anunciado pelo título de Travessia, livro de João Anzanello Carrascoza e Odilon Moraes. Logo no início, alguns elementos nos indicam que será uma partida sem volta. Na capa, vemos uma família andando no escuro com seu cavalo e seus poucos pertences, todos de costas para o leitor. Nas páginas iniciais, encontramos apenas um homem de costas usando chapéu, olhando para um fundo preto, como quem observa a noite. Será que foi dele a ideia de partir?

Somos levados para o alto de uma montanha; de lá, observamos de longe algumas casas rodeadas de verde no vale. Estamos em uma área rural.

Não demora para estarmos dentro da cozinha de uma casa. Uma mulher, ainda de costas, prepara o jantar para o filho e para o marido, que anuncia a partida de todos naquela noite ao sentar-se à mesa.

Atravessar a fronteira era algo que estava nos planos daquela família. Todos sabiam que este dia chegaria, só não sabiam quando. Naquela noite haveria uma festa do lado de lá e, portanto, poucos guardas na fronteira — era uma ótima oportunidade.

Não sabemos quem são, onde estão e para onde vão. Partida anunciada, inicia-se o exercício do desapego. Não adianta lavar a louça, levar os retratos da parede e tampouco deixar as flores frescas no vaso da sala. A mulher elabora a partida de forma mais melancólica, enquanto o homem é objetivo, firme e não dá chance para qualquer hesitação. O filho, ainda pequeno para compreender o tamanho daquilo tudo, pede para levar o galo.

Não, disse o pai. Ele pode cantar no meio da travessia e nos denunciar, argumenta a mãe.

Fecharam a casa, subiram no cavalo e partiram sem olhar para trás. Minutos depois descobriram a desobediência do menino, ao colocar seu galo preferido na sacola colada ao corpo. Eu amarro o bico dele quando chegar a hora, assim ele não irá cantar, concordou o pai acolhendo o único desejo do filho.

O que muda
Travessia, de João Anzanello Carrascoza, é um conto que foi publicado em 2002 na coletânea Duas tardes (Boitempo). Mais de vinte anos depois, ele ganha uma nova edição, ilustrada por Odilon Moraes e publicada agora pela ÔZé. O mesmo texto, duas editoras diferentes, uma para o público adulto, outra dedicada a publicar livros para as infâncias. O tema é absolutamente pertinente para os dias de hoje, mesmo depois de tanto tempo. Porém, seria o mesmo livro? O que muda?

A meu ver, muda a maneira como compreendemos os livros para a infância hoje, e entendo que esta nova edição é fruto de um projeto editorial consistente que não subestima a inteligência da criança e tampouco a priva de assuntos importantes como a migração, a guerra e a desigualdade.

Sabemos que muitas pessoas participam da edição de um livro como este. Travessia não é um texto do Carrascoza com ilustrações do Odilon; é um livro em que o texto inicial ganhou novas camadas de compreensão a partir da autoria de imagens do Odilon, potencializando a experiência leitora, e isso só foi possível porque tinha alguém pensando o projeto editorial, o olhar de um editor para aquele texto, que somou na escolha do autor da imagem, e estas três instâncias juntas, com o projeto gráfico, resultam neste livro que acaba de ser lançado.

É um livro ilustrado com bastante texto, e algumas informações que estão no texto não estão na imagem; já a imagem, além de trazer para o livro a caracterização dos personagens e a ambientação, também nos fornece novas camadas de leitura. Odilon captou os silêncios, os vazios, as tensões que uma travessia comporta, como ao optar por deixar, na maior parte das vezes, os personagens de costas para o leitor, como se nós, leitores, estivéssemos sempre uns instantes atrasados diante do que acabara de acontecer ou também indicando que eles estão prestes a partir.

Por este motivo, o projeto editorial importa. Retirar um conto de uma coletânea direcionada ao público adulto, transformá-lo em um livro ilustrado, acrescentando a esta leitura todas as infâncias, é uma sacada editorial que proporciona e amplia a leitura do texto inicial.

Travessia
João Anzanello Carrascoza e Odilon Moraes
ÔZé
32 págs.
João Anzanello Carrascoza
Nasceu em Cravinhos (SP). Estreou na literatura em 1994 com Hotel Solidão e, desde então, construiu uma obra premiada que transita entre o conto, o romance e a literatura infantojuvenil. Entre seus livros, marcados pelo lirismo e pela atenção às relações humanas, está Duas tardes, de onde vem o conto Travessia, que dá título a esta edição.
Rita M. da Costa Aguiar

É editora de arte, especialista em livros para infância.

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