Poesia mundi: novos poemas reunidos, de Marco Lucchesi, é sua mais recente reunião de poemas, publicados e inéditos, e perfaz um panorama robusto de seu lirismo. O poeta é também reconhecido como romancista, ensaísta, tradutor, memorialista, editor, professor, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, atual presidente da Fundação Biblioteca Nacional e participante ativo em diversas esferas públicas da nossa vida cultural. Apesar dessa atuação variada e que, em outros autores, poderia facilmente descambar para a superficialidade, Lucchesi demonstra nesse livro grande sensibilidade quanto aos poderes da poesia, conferindo-lhe frescor e uma voz lírica coerente ao longo dos quase 30 anos de publicações.
Poesia mundi reúne 16 livros, revistos, modificados e/ou com variantes. Isso reforça seu sentido de Obra em permanente estado de transformação, justificando nosso título, no qual há uma dupla referência: 1) à “alquimia do verbo”, de Rimbaud, e 2) ao livro de ensaios do próprio Lucchesi, Teatro alquímico, de 1999. Sua Poesia mundi possui algo da discreta ambição requerida para a transmutação do mundo pelas palavras, bem como algo de drama teatral nas referências, vozes e traduções nela presentes. Como se a alquimia da palavra a que chamamos “poesia” buscasse a transmutação não de um mundo específico, mas de todo o mundo, geográfica e historicamente abraçado como só uma viajante das línguas e culturas pode desejar.
Dos livros reunidos, três são inéditos, um é o conjunto de traduções e outro foi desentranhado de ensaios publicados.
Contemplação
Engana-se quem pensa que a erudição de Lucchesi leva a uma poesia engessada, repleta de lugares-comuns da história e da cultura. A leitura sequenciada dos poemas, dos mais recentes aos mais antigos, revela um verdadeiro frescor lírico. Ele se deve, em parte, ao jogo entre imagem e musicalidade que Lucchesi logra com sucesso. Sua poesia é marcadamente sensorial, apela mais aos sentidos visuais e musicais do leitor do que ao intelecto e suas referências. Não é preciso ter lido o que Lucchesi leu para acompanhar e fruir seus versos, apesar de algumas notas aqui e acolá explicando citações. Não é disso que trata a sua poesia. Seu pensamento é majoritariamente imagético, assim como sua música.
Acho que foi T. S. Eliot quem disse haver, para além do ritmo dos versos, uma música das imagens na poesia. É o que inicialmente salta aos olhos nos poemas de Lucchesi, do livro mais recente, Maví, de 2023, a Bizâncio, de 1997. O próprio título de Maví significa em turco “azul” e aponta para o uso das luzes, sombras e cores em sua poesia. Há neblinas, luares, “noites brancas”, “noites negras”, “rocha escura”, “ruiva cabeleira” criando, mais do que referências a Dostoiévski e a Baudelaire, por exemplo, uma atmosfera lírica que constrói imagens musicais ao ir e vir perseguindo sons e palavras: “canto áfono”, “uma vogal dentro de mim”, “meu verbo, espuma e sal, ronda o abismo”, “toda palavra é flauta nos teus lábios”, “deixai a dissonância, ó vós que entrais” dentre várias outras passagens. Essa construção é traço forte seu e podemos, de certa forma, resumir aqui:
Beleza desnuda, cintilação. A síntese intangível
acima das partes, da soma das partes. Não mais que
lúcidos vestígios.
Ó sede que desenha os lábios da loucura.
Com boa parte dos poemas sem título, metros regulares e dispostos em sequência nas páginas, o conjunto parece compor aos poucos uma partitura aos olhos e ouvidos do leitor.
Os “lúcidos vestígios” de seus poemas também insinuam em diversos momentos um jogo erótico, às vezes mais explícito, às vezes menos: “Na lúcida tormenta dos lençóis, tingimos nossos corpos de sanguíneo”. Entre poesia e corpo, um “abismo de palavra em branca superfície” parece querer cruzar de ponta a ponta algum deserto do Oriente Médio, onde erotismo e exotismo produzem efeitos sinestésicos, como se lê nos poemas em prosa de Leila. A presença erótica e oriental só contribui para a ênfase no sentido visual da música de Lucchesi, que passa também pela dança dos nomes próprios e dos traços autobiográficos em Meridiano celeste, que termina assinado: “Obrigado/ amigos/ […]// Marco Lucchesi/ agradecido”.
Em livros como Meridiano celeste, Clio e Bestiário, de grande unidade cada um, vemos os versos espacializados na página, sem grandes explosões visuais, mas colocando as palavras com a precisão de claves na pauta. Em outros livros, como Mal de amor, Sphera e Alma Vênus, vemos versos curtos alternando-se com elementos da sintaxe mais distendida da prosa, por causa dos cortes dos versos, desinteressados de maior funcionalidade. Isso faz, muitas vezes, a poesia de Lucchesi, junto com a ênfase na música do pensamento via imagens, soar como uma poesia de sabedoria e aforismática, resultado de uma contemplação do mundo e da busca de sua beleza impossível, apenas tangenciada pelas palavras no deserto imaginário da página.
Tradução
Conta-se que, em tempos antigos, o aprendiz de mago, desejoso de dominar elementos da magia, era obrigado a viajar para aprender com experientes mestres longínquos. Há, portanto, no imaginário cultural, uma analogia entre viajar e aprender. A poesia de Lucchesi reforça esse imaginário ao passear por tempos históricos e geografias reais que sabidamente fazem parte do mundo do poeta. Essas referências não ambicionam um realismo histórico-geográfico, mas a ênfase lírica em um sentimento de exílio rondando sua poesia, como diz em GPS, com as palavras migrando pelo deserto branco da página: “essa angústia/ de não/ saber/ me/ onde/ me/ sei”; e no soneto metafísico Machina Dei: “Procuro o centro de circunferência/ e as fundas dimensões de sua aurora,/ de cujos raios brilha a iridescência/ do álgido mistério que devora/ o círculo da própria ambivalência/ […]”.
Uma das consequências desse sentimento de exílio é o uso da tradução na poesia de Lucchesi. Na última parte do livro, Faces da utopia: visitações, lemos traduções de Rûmi, San Juan de la Cruz, Angelus Silesius, Hölderlin, Bacóvia, Khlebnikov, dentre outros poetas e línguas; assim como em Al-Maʿarri: vestígios, lemos pequenas passagens líricas desentranhadas do poeta cego Abul ʿAla Al-Maʿarri (973-1057) e reinventadas. É prática de Lucchesi incorporar em sua poesia o esforço de tradução não só de poetas e línguas, mas de tempos e eventos históricos e geográficos, físicos e metafísicos, cosmológicos e micrológicos, humanos, animais, vegetais e minerais. Como se o poeta buscasse uma porta de retorno à impossível casa universal pela alquimia da palavra: “Não há segredo/ algum no corpo da/ palavra// Ou antes/ ao combiná-la com verbos/ e licores// […]// ao sublimá-la/ em vivos/ atanores// transmuta-se a/ palavra/ no rebis misterioso”.
Esse “rebis misterioso”, que é a poesia de Lucchesi, é composto, ainda, de referências formais, pois o poeta lançou mão de algumas ao longo de seu percurso. São sonetos, haicais, quadras, dísticos, poemas em prosa, o decassílabo heroico, com um fraseado de enorme naturalidade, o verso adentrado e a palavra espacializada na página. Ou seja, os recursos formais usados por Lucchesi são variados, mas todos aparecem sem rebuscamento e com o elementar objetivo de produzir beleza, reflexão e pensamento. Os dísticos e as quadras são exemplares nesse sentido, pois funcionam à semelhança de ruínas verbais contendo algum ensinamento, como se proveniente de culturas antigas para nosso exílio presente.
O alquimista do mundo só pode obter seu intento por dois caminhos: viajando e lendo. Viagem com leitura de mundo, leitura como viagem por mundos. Nesses “novos poemas reunidos” de Lucchesi, portanto, percebemos um sujeito exilado que olha para o mundo como se se deparasse com um livro pronto para ser pesquisado e transmutado nas palavras de sua Poesia mundi. E sua poesia é executada com cuidado e atenção, amplitude e coerência, em busca de uma palavra que diga e mostre uma experiência singular de mundo, mas ao mesmo tempo um mundo comum e legível por todos e por qualquer um. É aí que ela se torna uma poesia de sabedoria, como resultado da contemplação, entendida como reflexão sobre o mundo da vida e da poesia do mundo.