A literatura contemporânea, como o mundo atual, parece refundar-se constantemente sobre um espaço-tempo movediço, no qual notícias, imagens, amizades e memórias (es)correm na mesma velocidade que as postagens nas redes sociais. Nesse contexto, não é de se admirar que a escrita alegórica esteja em alta, pois, quando o fantástico parece mais real do que a realidade, leitoras e leitores tendem a buscar refúgio no místico. Com base em lendas regionais, o místico é, desde sempre, o território do ontológico, ou, como dizia o dramaturgo alemão Heiner Müller, “mitos são sonhos coagulados”. Este não é um caminho literário novo (afinal, o que é novo?), mas não deixa de ser pertinente, porque determinadas figuras e constelações são arquetípicas.
Um dos mais conhecidos romances hispano-americanos a trabalhar com o misticismo enquanto válvula para discutir padrões primordiais de comportamento é Pedro Páramo, de Juan Rulfo, texto que me veio à mente durante a leitura de Boca do mundo, de Dia Bárbara Nobre. Também ali há uma cidade fictícia, Comala, que, como a Urânia de Dia Bárbara Nobre, não é apenas cenário, mas um lugar onde o real e o sobrenatural se amalgamam para revelar as ruínas morais de uma sociedade inteira. Tanto em Pedro Páramo como em Boca do mundo, dialogamos com os mortos, e eles nos contam da memória (ou da falta dela) e da culpa coletiva. Porém, enquanto Rulfo nos apresenta uma história focada num personagem masculino em busca de outro personagem masculino — o pai —, a autora cearense foca no motivo da misoginia e da violência doméstica para, como ela própria diz em uma entrevista, “revelar como as mulheres conseguem lidar com essa violência e superá-la, trazendo para a vida delas esse lugar de acolhimento, de refúgio e de resistência. Há um território onírico, onde as personagens se encontram e que é um lugar da esperança… Então, há Urânia, que é o refúgio, mas há também os sonhos, como lugares onde elas podem construir sua própria narrativa e retomar o poder sobre suas próprias histórias”.
Cronologia embaralhada
O romance é dividido em cinco partes: Futuro passado, Tempo findado, Tempo onírico, Tempo presente e Devir. Lançando mão do recurso simples, mas eficaz, de embaralhar a cronologia, Dia Bárbara Nobre desenvolve uma escrita cheia de idas, vindas e quebras, que mantém a tensão e o suspense até o fim e surpreende pelas mudanças de perspectiva.
No início, acompanhamos a chegada de Teresa a Urânia, logo depois de vivenciar a cena perturbadora em que ela enterra um pequeno ser às pressas e às escondidas. Elementos místicos já se inserem nessa introdução um tanto simbólica, como a figura da serpente, que faz pensar em Eva, mas também em mitologias de povos originários.
Há então um corte, e somos apresentados a Abigail, mulher com dons videntes e fundadora do povoado, onde vive com sua neta, Bamila, com a amiga de toda a vida, Djanira, e com A Encantada, espécie de santa protetora, sombra ou mesmo duplo de Abigail. Teresa desmaia ao chegar à cidade e é acolhida e cuidada pelas mulheres até se recuperar.
Após novo corte e recuo no tempo, conhecemos mais a fundo a biografia de Abigail, marcada também pela violência doméstica, que a levou a um casamento forçado, ao estupro por parte do sogro e a uma gravidez indesejada. Sem conseguir abortar a criança, ela a mata logo depois do parto, num gesto tão terrível quanto inexorável. Apesar de todas essas dificuldades, Abigail consegue dar uma reviravolta no próprio destino, tem outra filha, Hermínia, e funda Urânia, onde se torna uma das mais bem-sucedidas vinicultoras da região. Porém, sob o povoado esconde-se uma maldição: fora erigido sobre uma terra literalmente ferida. Num passado imemorável, teria sido a casa de sú-úãngiu, a cobra de fogo. A grande serpente era adorada pelos cairiris que ali viviam em paz até a chegada dos caraí, os homens brancos. Foi então que
o horror branco obrigou a terra a beber sangue. Os cariris resistiram como puderam até um buraco se abrir bem onde ficava o coração de sú-úãngiu, no meio do sertão, desenterrando do fundo uma peste. Jararacas, centopeias e escorpiões enxamearam o lugar, devorando sem pena as carnes pálidas e flácidas. Quando tudo acabou, restaram poucos cariris. Do buraco, jorrava uma água lodosa que nunca secou, batizada por eles de Teiwaridzá, “Boca do Mundo”.
Ainda assim, Abigail resolve comprar aquele pedaço de terra e iniciar sua vinicultura, construindo um povoado que servirá de refúgio para mulheres em situação de risco doméstico e onde só nascerão meninas. Ali, ela também dará à luz outra filha, Hermínia, que, por sua vez, se tornará mãe de Bamila.
Mas o perigo continua rondando a vida das mulheres na figura do “Homem”, personagem sem nome e com múltiplos corpos. Assim, a própria Hermínia cairá em suas garras e, mais tarde, ele virá a ameaçar o equilíbrio do povoado novamente, ao tentar levar Teresa. Somente por meio da união de forças das mulheres — as vivas e as mortas — Urânia poderá se livrar definitivamente desse fardo, pondo fim ao ciclo de violência e morte.
O homem sem rosto
Outro dia, numa exposição do pintor surrealista alemão Wolfgang Kunde, um quadro sem título e todo em tons de cinza e branco — o que é atípico para o artista — chamou minha atenção. Nele se vê, ao fundo, em segundo plano, uma mulher sentada num banquinho, quase inteiramente envolta em véus, com exceção do rosto — lívido —, que fica de fora. Ela parece acuada, mas mantém uma postura ereta e hirta, o que lhe dá um aspecto ao mesmo tempo frágil e resistente. À sua frente, em primeiro plano, há um homem, vestido da mesma maneira, mas sem rosto. Onde deveria estar a cabeça, vemos um buraco negro.
Como tinha acabado de ler Boca do mundo, não pude deixar de associar uma obra à outra: em ambas, a figura do Homem não aparece como um ser humano real, mas como um simulacro para o eco milenar da toxidez masculina que anda a assombrar a liberdade e a integridade das mulheres. Um fantasma que desaparece por tempos, mas, como podemos constatar pelas estatísticas atuais que apontam para um novo aumento da violência doméstica, sempre retorna.
Ironicamente, a caminho dessa mesma exposição, vivenciei uma cena de agressão contra uma mulher no ônibus: um casal brigava, e ele, completamente bêbado, gritava com ela — também bêbada. Num determinado momento, o homem começou a bater. Eu ameacei chamar a polícia e disse para ela sair do lado dele. Ela saiu e se sentou ao meu lado. Depois, saltou e seguiu seu caminho. Senti que, se eu não tivesse interferido, ela não conseguiria se arrancar daquela situação sozinha. Às vezes, é pouco o que precisamos, mas esse pouco, precisamos muito. Pode ser um gesto, uma palavra, um olhar. O livro de Dia Bárbara Nobre propõe a sororidade como caminho.