Na abertura de Música do mundo, livro recém-lançado por Tarso de Melo que chama o leitor à escuta das travessias da linguagem em suas muitas reverberações com o mundo, o autor sugere que “cada um de seus poemas estica a rede infinita da poesia”. O que Tarso parece sugerir em seu explícito convite é que cada poema, com sua específica forma de aparecer, em alguma medida, pode nos impelir a refletir amplamente acerca do que chamamos de poesia.
Com essa simples e sagaz premissa, sigo a leitura de Vida sortida, de Bernardo Ceccantini, perguntando-me como o livro tensiona algum nervo exposto da poesia. E entendo esta como a reunião de muitos livros e escritos ao longo do tempo que se dedicaram ao que Octavio Paz chamaria, com outras palavras, de um lugar para onde se vai. Lugar esse que acessamos, diz ele, apenas por meio dos poemas.
A resposta para essa minha dúvida talvez reverbere em mais dúvidas do que assertivas. Nada de estranho sob o sol, pois foi com o próprio Octavio Paz que aprendemos que para haver poesia não precisamos necessariamente de versos (ou qualquer outro aparato que deponha antes em favor de determinadas estruturas do que em favor da experiência poética). De todo modo, mesmo em esquiva de qualquer estruturalismo, notadamente pensamos em poesia quando nos damos conta de algum ritmo, seja este evocado por um som, uma sequência de imagens, um corte de silêncio etc. e não determinado por uma métrica, como os formalistas russos já tinham alertado.
Ritmo da prosa
Então, pensando nessa cadência, percebe-se em Vida sortida uma hegemonia da prosa. O ritmo é do caminhar. E mesmo quando a cena não é externa, de promenade, o ritmo continua sendo o da prosa. Até aqui, nada de estranho novamente, afinal, o verso sinaliza para a prosa já há mais de um século e meio, como aponta Alfonso Berardinelli em seu importante livro Da poesia à prosa.
O que gera dúvida em verdade é se mesmo em tom prosaico não teria de haver nos poemas algum tropeço das frases, algum lapso sintático proposital, errância semântica ou qualquer tipo de elaboração que o leitor pudesse perceber no jogo linguístico (seja pela interrupção calculada) que não está diante de um texto que pudesse se estender deliberadamente em prosa sobre o papel.
No caso de Vida sortida, os poemas parecem se oferecer antes como crônicas, muito bem escritas, é importante dizer, e arranjadas em certo lirismo irônico, que o autor domina muito bem, do que, experimentalmente, como poesia, no sentido que refiro acima como lapso de linguagem. Veja, esse sentido não está circunscrito a dada estrutura. Refiro-me ao efeito que não sabemos explicar direito, mas que nos faz perceber que alguma coisa na ilusória compreensão da vida em continuidade esteja se quebrando. Ou seja, algo que nos revele a vida em descontínuo. Descontínuo esse que não está restrito à quebra de linearidade (afinal, não apenas a poesia, mas também a prosa já faz isso há séculos).
Vida em descontínuo
O descontínuo da poesia a que me refiro aqui tem mais a ver com um não saber que os artistas provocam por meio de suas elaborações materiais (com diferentes linguagens) não para elogiar o nonsense, mas, sobretudo, para pôr em operação um outro saber. Refiro-me a outras percepções de cores, formas, sentimentos, sensações e mesmo outras cadências dos acontecimentos mais corriqueiros.
Em suma, mesmo que o poema aborde o circunstancial, o episódico e se ofereça em ritmo prosaico, algo no modo do leitor compreender as histórias circunstanciais e episódicas se desorganiza para encontrar diferentes contornos e costuras diante do contingencial da vida.
O livro é bom como literatura. Revela ótimo escritor já conhecido do público. Está repleto de sofisticação ao lidar com melancolia misturada com o riso de si, como quem sabe rir da própria flânerie. Apresenta formulações bonitas, como no metapoema Desafio: “Esta almofada, como dizer?/ É sempre muito almofada./ Esta begônia?/ Até hoje não afinou meu bandolim”. (Impossível não lembrar de Alberto Caeiro aqui). Ou em O jardineiro: “Hoje é a primeira manhã sem o jardineiro da biblioteca./ Uma multidão de folhas secas/ move-se violentamente no jardim”. A violência no movimento das folhas recupera o motivo da ausência do jardineiro que foi agredido em frente à biblioteca. Isso tudo é qualidade literária.
Impasse poético
No entanto, como poesia, o livro me impõe o seguinte impasse: se todo poema “estica a rede infinita da poesia”, como disse Tarso de Melo, onde está a tensão da poesia nesse livro em que o leitor acompanha as circunstâncias e episódios sem sustos de compreensão?
Arrisco uma resposta. Quase que paradoxalmente, o nervo que os poemas de Bernardo Ceccantini pinçam está antes na rede infinita da prosa do que na da poesia, como sugeriu Tarso. E isso não é demérito de Vida sortida. Pelo contrário, é outra forma de intervenção fundamental inerente à poesia.
Agência dos objetos
Explico. A força poética dos versos de Ceccantini está nas coisas em cena. Isso não equivale a dizer que o livro não tenha um ritmo de poesia. Antes, nos impele a entender que o ritmo dos poemas surge das coisas da cena, não do modo como elas ditam a cadência, mas sim do modo como elas propõem dada geometria, ou geografia.
Vejamos alguns versos do poema A oficina:
[…]
que todos os meus dias recomeçam
quando eu passo em frente a essa oficina mecânica
[…]
do teto pendem escapamentos variados
[…]
Hoje é um fusca bege que espera os seus reparos
bocejando o capô na frente da garagem
vigiado por uma bicicleta ergométrica.
Quando o poema desloca a função de agente para os objetos da oficina mecânica, percebemos uma consciência poética que vai além da inversão já há tanto praticada do sujeito com os objetos na literatura, pois notamos que a plasticidade da cena conta com recursos fonéticos. Depois de anunciado o ambiente supostamente menos acolhedor para a poesia, a oficina mecânica, deparamo-nos com aliterações em consoantes bilabiais e sibilantes, marcadas pelas presenças insistentes de P e B, bem como de S (lições de Augusto dos Anjos e Drummond).
Rede da prosa
Daí talvez a necessidade de releitura do livro em outra chave, uma vez que este é um dos últimos poemas do livro. Ou seja, quando a força do livro revela essa agência dos objetos sobre o sujeito, percebemos que nessas prosas em versos o elemento poético trabalhado por Ceccantini vai esticar a rede da prosa antes que a da poesia, mesmo fazendo isso com um recurso poético.
O lirismo do livro, a seta poética do livro, ajuda a reconfigurar algo no que se convencionou chamar de crônica.
Quando Tarso de Melo se refere aos poemas como acontecimentos de tensão na rede da poesia (contaminado provavelmente por Octavio Paz), traz também como reverberação da música do mundo o poder que a poesia tem de interferir em outras, para não dizer todas, redes de elaboração da linguagem.
A marca mais definitiva dessa Vida sortida que nos chega agora talvez seja mais um testemunho de que a poesia se lança implacável para além de sua própria rede. Ela distorce os ouvidos, os olhos, os corpos para diferentes redes de afinação da linguagem com o mundo em suas diferentes formas de aparecer.