Entre a ordem e a desordem, o cosmo e o caos, em Sorriso sorvete de cereja, vencedor do 2º Prêmio Candango, na categoria romance, temos a narradora-personagem Rio, cujo nome atípico se associa ao universo musical, pois é homônimo de um CD da banda inglesa Duran Duran. O título desse romance encantador é exatamente um trecho de uma das músicas do CD. A narrativa tece, simultaneamente, as complexidades de uma família em suas relações de amor e ódio, sem perder, entretanto, a candura. O seio da família está em Rio, uma menina que busca a descoberta do mundo no choque entre seu íntimo e o real que a circunda.
Na capa do CD de Duran Duran, há uma mulher sorridente, com um batom cereja que lhe colore os lábios. Uma obsessão da menina Rio é ter esse sorriso, ou seja, alcançar a felicidade no seu interior conturbado, cujos “nós” — metáfora de seus cabelos rebeldes — nos remetem aos múltiplos fragmentos de um ser que busca um lugar especial no âmbito familiar.
Logo no início da narrativa, Rio afirma sua desarticulação e desajuste, que precisam ser organizados por uma fita adesiva grudenta: “Pego a fita adesiva no suporte e começo a cortar pedacinhos para tentar colar minha vida. Para colar, preciso cortar. Junto os pedacinhos aos recortes. E pego mais fita”. Assim, ela tenta formar uma identidade com a fita adesiva. Dessa forma, objetos do campo da realidade se desdobram, como os diversos nós que compõem o ser, o sentido e o significado que a sustentem. E o sangue que jorra nessa atividade a faz lembrar do sorvete de cereja. Ela vai juntando tudo a partir do jogo rítmico e sonoro da repetição e da diferença, ambos elementos recorrentes na obra de Ramundo. O processo de colagem transforma seu eu, que se debate em seu imaginário infantil e juvenil.
Numa passagem do romance, podemos perceber as fases da nomeação do ser: o antes, o durante e o depois. Na identidade entre o eu e o nós, passado, presente e futuro representam os ritos de passagem na transição entre idades. O livro é uma verdadeira reflexão sobre a infância e a juventude, período em que ocorrem o que não se sabe e o que vem a se saber. Em vários momentos, Rio não compreende o universo dos adultos. Seu irmão Gael, vidrado em videogames, revela para ela como se fazem filhos, o que a deixa agitada e confusa, já que acreditava na história da cegonha. Gael é também um elo entre sua mãe, seu padrasto e Rio. Perguntas e questionamentos próprios da curiosidade das crianças poderiam parecer banais, mas isso não ocorre neste romance, no qual a autora mostra esse universo de desacertos com brilhantismo e singularidade ímpares.
E Rio observa os seus eus e os outros com lentes duais e ambíguas, que a levam a mais indagações, não desatando tão facilmente seus nós. Rio foge de qualquer tipo de controle do seu imaginário diferenciado, revelando toda sua rebeldia diante de tudo aquilo que a contraria e que serve como lastro para furar a sua bolha de sabão. Ela quer saber e fazer as coisas a seu modo. Em contrapartida, sente-se frustrada por não saber como os mais velhos.
Dialeto novo
Na expressão “E eu choramos baixinho”, que seria um erro de concordância, observa-se um dialeto novo, uma frase estilisticamente aceitável no reino do literário. Há momentos de violência e abuso verbal em suas relações com parentes e outros personagens. O seu íntimo sofre com um amargo gosto de sangue e não se apraz com o delicioso e delicado sabor de cereja. Há uma estética da ausência e da solidão de Rio, apesar de estar rodeada por várias pessoas. Apesar dessa solitude, há uma sequência de gritos, com palavras ou sem palavras, em vários momentos da narrativa. O grito é uma forma de sair do exílio, do estar só. Vejamos uma passagem: “Meu irmão grita comigo e minha mamãe grita com ele por ele estar gritando comigo e eu também espero a minha vez de gritar”. As formas de vida originárias são percebidas pelo primeiro olhar, algo inteiramente novo para Rio. Por isso, sempre que se relaciona com fatos e coisas da sua existência em confronto com outras coisas, ela procura um signo novo para seu recorte panorâmico do mundo em que vive.
Guilherme, seu padrasto, é muito organizado no seu trabalho com o computador. O barulhinho do tek-tek chama a atenção de Rio. Ela desorganiza o que estava organizado no escritório dele. Começa a pegar coisas como clipes e guardá-los em sua calcinha, uma atitude para lá de inusitada. Ele não nota algumas travessuras dela até que ela faz uma grande bagunça. A travessura serve como contraparte de um mundo diverso ao seu, que reorganiza outra forma de organização: sua face arteira e desconstrutora. O caos criativo em Sorriso sorvete de cereja. O cabelo é símbolo da beleza externa, mas os nós refletem uma criação e invenção internas.
Há um autorretrato de Rio, a menina que se transforma em moça e mulher. Encontramos também a visibilidade dos outros, cujos mundos são muito diferentes do que se passa com Rio. O rito de passagem para a adolescência se inicia com a menstruação, cujo sangue vermelho não é compreendido por ela. Sua mãe não a havia alertado; a avó é quem explicará tudo. A relação com o avô é mais tranquila do que com a avó, a mãe, o padrasto e o irmão Gael, que demonstra má vontade com a irmã. O sangue, metaforicamente, representa essa transformação do corpo, que a incomoda, pois ela não poderia conter essa fase da vida. Estabelece-se, mais uma vez, uma analogia antagônica entre o sangramento mensal e o sorriso sorvete de cereja, que funciona como abrandamento daquela experiência.
O uso da primeira pessoa do singular e do plural alarga as percepções existenciais da narradora, sem lhe conferir onisciência. A narrativa em primeira pessoa dá ao livro um tom intimista e reflexivo. As frases, por vezes descontínuas, o jogo textual e o afastamento de certas normas da gramática culta surgem como intensos elementos estilísticos de grande inventividade. As perguntas, que evidenciam as dúvidas, não seriam esses nós? Nós que se constroem pela singularidade do ficcional numa linguagem plena de criatividade.
Aprendizado
O reino das descobertas de Rio revela o aprendizado, como na pergunta feita ao irmão, com a delicadeza da inocência, sobre as estrelas destruídas no videogame, o que a leva a contar, ingenuamente, as estrelas no céu, a olho nu, para verificar se elas acabariam. O avô torna-se um professor dedicado à neta, explicando-lhe essas questões com seus livros — uma passagem particularmente poética do romance.
Há também um passeio pelo salão de beleza, em que a menina tenta decifrar seus códigos. A experiência não é agradável, como o leitor verá, sobretudo por envolver o cabelo, imagem de sua rebeldia. As experiências no corpo modificam sua maneira de enxergar o mundo, pois exterioridade e interioridade se completam em dinamismo ambíguo.
Na consulta ao médico, há ainda mais estranhamento. Ela tem uma forma original de nomear as coisas e as pessoas e passa por mais uma experiência frustrante, assim como se aborrece por não ter o sorriso sorvete de cereja que tanto a angustia.
Alguns capítulos são compostos apenas por pequenas frases, em contraste com outros mais extensos, o que revela a variedade narrativa. Um deles diferencia rotina e sonho: “Nós gostamos de olhar as nuvens, mas mamãe não, mamãe não gosta porque mamãe é mamãe e mamães não têm tempo para isso”. Outros funcionam como frases-síntese do enredo, como: “Na casa dos vovós, tem um quadro que está sempre torto. Vovô tenta ajeitá-lo. Eu entorto a cabeça”. O sorriso sorvete de cereja acompanha Rio ao longo da obra, enquanto Giovanna Ramundo utiliza a música do Duran Duran como elemento da realidade externa para compor uma história inventiva e fecunda em significados.
No romance, o aprendizado não ocorre de forma didática, proeza difícil que a autora alcança plenamente. Frases como “…percebo que nem tudo cabe em caixas e que tem coisas que nunca cabem em lugar nenhum e eu simplesmente não sei onde colocá-las” revelam dilemas que atravessam infância, juventude e vida adulta. Concluindo, vejamos um trecho do livro, cujo mote dialoga com Heráclito, para pensarmos o papel das mudanças nos rios do devir: “É que ninguém pode transar com a mesma Rio duas vezes, pois na segunda vez a Rio já não é a mesma”.