A lógica do estranho

Nos contos de Bernadette Lyra, o insólito não rompe o real: revela suas fissuras históricas, políticas e afetivas
Bernadette Lyra, autora de “A pata do rinoceronte branco”
01/01/2026

A capixaba Bernadette Lyra lembra uma fada dos contos antigos, terna e espontânea. Nascida em Conceição da Barra (ES), em 1938, construiu sua trajetória como escritora de ficção e pesquisadora em cinema, em vários gêneros: contos, romances, novelas, crônicas e ensaios. Doutora em Artes/Cinema pela ECA-USP e pós-doutora pela Universidade René Descartes (Sorbonne), ela nunca abandonou o diálogo entre palavra escrita e imagem em movimento, o que se reflete tanto em seu trabalho teórico sobre cinema quanto na forma como organiza narrativas ficcionais, frequentemente estruturadas como roteiros, com cortes bruscos, elipses e ângulos de câmera imaginários.

A personalidade autoral de Bernadette Lyra se desenha na encruzilhada entre rigor intelectual e abertura ao maravilhoso, o que atravessa tanto sua bibliografia quanto suas intervenções em entrevistas e projetos culturais. Seus livros de contos — As contas no canto, O jardim das delícias, Memória das ruínas de Creta, O parque das felicidades e, mais recentemente, A pata do rinoceronte branco — revelam um interesse por personagens situados entre o cotidiano e o insólito, a história e a lenda, o visível e o invisível. Aos contos se somam romances como A panelinha de breu, reelaboração paródica de uma lenda capixaba, e A capitoa. No romance Ulpiana, meu preferido, ela entrelaça memórias e histórias de mulheres tocadas pela morte e pelo suicídio. Escreveu também ensaios sobre cinema — caso de A nave extraviada, Cinema de bordas —, nos quais reflete criticamente sobre formas marginais e populares de produção audiovisual. Ela criou o conceito “Cinema de bordas”, que se refere a filmes produzidos por cineastas autodidatas, que moram, em geral, fora dos grandes centros e operam às margens da indústria cinematográfica. Bernadette tem se dedicado a reunir e preservar essa produção muitas vezes surpreendente, divulgando também o cinema queer.

Atenta aos modos como as imagens (literárias, fílmicas, midiáticas) moldam percepções do mundo, particularmente quando incidem sobre mulheres, minorias e espaços historicamente desvalorizados, sua ficção tem um caráter político, ainda que não panfletário. Em conversas públicas e entrevistas, ela enfatiza que suas protagonistas — muitas inspiradas em mulheres da história capixaba — podem ser lidas como heroínas ou anti-heroínas, porque negociam com estruturas de poder desiguais, sofrem e reagem, elaboram estratégias de sobrevivência e, em muitos casos, colocam em xeque mitologias patriarcais que naturalizam a subalternização feminina. As personagens femininas quase sempre surgem como sujeitos históricos atravessados por violências, desejos e contradições.

Essa dimensão se articula ao recorte espacial recorrente em sua obra: o estado do Espírito Santo aparece como território marcado por assimetrias sociais, apagamentos de memória e tensões entre o local e o global, o que recoloca esse estado, muitas vezes invisibilizado, no centro de uma imaginação literária sofisticada. Não por acaso, parte da crítica ressalta que sua ficção ilumina, de maneira oblíqua, processos históricos mais amplos — colonização, modernização, violência urbana, desigualdades de gênero —, filtrando-os pela experiência concreta de corpos, casas, ruas e paisagens.

Caleidoscópio de histórias
É nesse contexto que se insere A pata do rinoceronte branco, seu mais recente livro de contos. A coletânea reúne quinze narrativas e é apresentada, em textos de orelha e divulgação, como um “caleidoscópio de histórias”, expressão que captura bem a forma como os contos se organizam: variados em sua dimensão e temas, compondo desenhos sempre cambiantes, nunca estáveis. O título, por si só, já oferece uma chave de entrada para o universo do livro: a pata de um rinoceronte branco — um animal raro, maciço, quase pré-histórico — traduz a presença de algo que é, ao mesmo tempo, concreto e improvável, verossímil e fantástico, sugerindo que as narrativas são apenas fragmentos de experiências maiores, cuja totalidade o leitor jamais apreende.

As histórias de A pata do rinoceronte branco transitam por um amplo leque de situações, tempos e espaços, mas são costuradas por uma série de motivos recorrentes, entre eles a convivência entre realidade e fabulação, a persistência de lendas e superstições no cotidiano e a precariedade das narrativas que as personagens constroem para explicar a si mesmas e o mundo. Os animais, ruínas, objetos antigos, fotografias, sonhos e aparições funcionam como dispositivos que ativam camadas de memória, medo, desejo ou culpa. Esses elementos, embora possam soar insólitos, nunca se afastam completamente de uma base material concreta — uma casa, uma cidade, uma família, um corpo —, o que aproxima a coletânea de certo realismo fantástico ancorado em experiências sensíveis e históricas específicas.

A influência dos contos medievais aparece sutilmente, como no conto O pintor de arco-íris, expulso de uma cidade, que lembra O flautista de Hamelin, dos Irmãos Grimm. Em vários contos, a fronteira entre o que é considerado “real” e aquilo que é reputado “fantástico” se desfaz, e o que parecia impossível passa a ser lido como extensão lógica de um mundo já atravessado por violências, desigualdades e contradições, deslocando o “maravilhoso” da ordem do sobrenatural para o mundo dos seres humanos.

A crítica que vem se debruçando sobre o livro tende a reforçar a ideia de que Bernadette Lyra encontrou, no conto, seu “ambiente natural”. Ela entende o gênero não como forma menor, mas como campo privilegiado de experimentação formal e condensação de sentidos. Seus contos lembram os de Murilo Rubião; porém, ela é muito mais sutil e poética, com um humor na descrição das situações cotidianas que a aproxima de Tchekhov.

Estruturas em espiral
Em A pata do rinoceronte branco, essa habilidade se manifesta em construções narrativas que frequentemente apostam em elipses, revelações tardias e estruturas em espiral, nas quais um detalhe aparentemente secundário se revela decisivo apenas no desfecho, obrigando o leitor a reler mentalmente o que veio antes. Esse procedimento ecoa técnicas de montagem cinematográfica: cortes bruscos entre cenas, alternância de pontos de vista, sobreposição de planos temporais, tudo isso sugerido por uma escrita que, embora verbal, convoca imagens intensas e quase táteis, como se cada parágrafo fosse um fotograma a ser justaposto ao seguinte.

No plano temático, os contos articulam, com especial força, três eixos centrais. O primeiro é a permanência de lendas, superstições e saberes populares como força ativa na vida das personagens, muitas vezes em tensão com discursos racionalistas ou institucionalizados que tentam desqualificá-los. Esse é o caso, no conto Pytã, do conflito da menina indígena Takuáporã-mirim com o nome que lhe é dado na escola — Maria Rosa — e com os conhecimentos que lhe são passados ali, muito diferentes dos que recebeu de sua avó, engolida, esta também, por um mundo em que as florestas cederam lugar aos eucaliptos. O segundo eixo é o confronto entre aparência e verdade, ou melhor, a desmontagem da ideia de verdade única, já que as histórias frequentemente expõem versões conflitantes dos mesmos acontecimentos, revelando que toda narrativa — inclusive a que o leitor tende a acreditar — é construída, situada, interessada, como no desfecho surpreendente do conto Coisas estranhas acontecem a quem dorme demais. O terceiro diz respeito à fragilidade das ilusões: nas relações afetivas, nas promessas de ascensão social, nos mitos de pureza e inocência que rodeiam indivíduos e comunidades.

As personagens de Lyra são forçadas a encarar o desmoronamento de fantasias que as sustentavam, o que confere à leitura um tom de desencanto, porém, como uma espécie de “pedagogia da desilusão”, que convida o leitor a desconfiar das narrativas fáceis — sejam elas religiosas, políticas, familiares ou midiáticas. O insólito não serve como válvula de escape para fugir da realidade, mas como lente de aumento que torna visível aquilo que o olhar distraído tende a apagar ou normalizar.

Seu livro é resenhado com delicadeza por Pedro J. Nunes no site Tertúlia, dedicado aos livros dos escritores capixabas, “que sofrem com a ‘impermanência’”, descrita como a dificuldade de os livros dos autores do estado passarem da primeira edição, o que faz com que “algumas obras-primas estejam fadadas ao esquecimento”. No conto A criança, o andarilho Cão da Lua encontra um bebê abandonado e o leva para o acampamento onde vivem desabrigados, depois do incêndio de um edifício que haviam ocupado. Os miseráveis convivem com Cazumbis, almas do outro mundo que “não são Fantasmas, não são Vampiros, não são Lobisomens”, “mas a singularidade de seus paladares é bem delicada. Apreciam gemidos, suspiros, lágrimas expiatórias, gestos encardidos, restos de pensamentos pouco açucarados”. Por um tempo, a “Criança” ilumina as vidas derruídas desses desvalidos. O conto é narrado por alguém à menina Alice, pretexto para que a autora recorra à apóstrofe, recurso literário em que o autor conversa com seu leitor, que Bernadette Lyra usa com frequência, com a graça de uma avó contando histórias.

Prosa clara
Em termos de linguagem, A pata do rinoceronte branco confirma a clareza da prosa de Bernadette Lyra. Cada frase parece cuidadosamente talhada, sem que isso exclua a infiltração de registros coloquiais, ditos populares e inflexões regionais. Essa convivência entre um léxico elaborado e marcas da oralidade produz uma dicção ao mesmo tempo literária e encarnada, em que vozes de diferentes extratos sociais se fazem ouvir sem cair no exotismo. Pelo contrário, a diversidade de tons reforça a ideia de que a realidade é feita de múltiplos pontos de vista em disputa.

Os contos também exploram intensamente recursos como repetições, imagens recorrentes, metáforas ligadas a animais e objetos, que funcionam como fios se cruzando de um texto a outro, e que o leitor mais atento reconhece como marcas de uma arquitetura interna sofisticada, distante de qualquer improviso. Frequentemente são concluídos com uma frase de efeito: “E nenhuma história oferece a certeza de estar terminada, afinal”.

O conto que empresta seu título ao livro narra a história do último sobrevivente da espécie do rinoceronte-branco-do-norte, tão ferido e fragilizado — uma das patas totalmente descarnada — que os veterinários optam por sacrificá-lo, ainda que com enorme pesar. Ami Vitale, fotógrafa da National Geographic, documentou a eutanásia, com um comentário arrasador: “Hoje, testemunhamos a extinção de uma espécie que havia sobrevivido por milhões de anos, mas não pôde sobreviver à humanidade”.

O título-metáfora da coletânea, porém, alcança uma densidade interpretativa maior: a “pata do rinoceronte branco” pode ser entendida como um fragmento de um corpo enorme, que raramente se deixa ver por inteiro e cujo aparecimento, isolado, provoca estranhamento, fascínio e medo. Assim também operam seus contos: cada narrativa oferece ao leitor apenas uma parte de algo maior — uma história familiar não inteiramente contada, um trauma coletivo apenas sugerido, um segredo que nunca é totalmente revelado —, o que torna a experiência da leitura menos um exercício de decifração total e mais um convívio produtivo com o não dito, com o que sobra nas entrelinhas. O branco, associado ao nome do animal, pode ainda remeter ao espaço em branco da página, àquilo que a escrita não alcança, reforçando a vocação de Bernadette Lyra para trabalhar com restos, lacunas e ruínas, tanto no nível temático quanto no nível formal.

A obra exige uma postura ativa, atenta às sutilezas da linguagem e às camadas de sentido superpostas, e recompensa essa atenção com uma experiência estética e intelectual intensa. Ao reforçar o foco em personagens complexas, em especial mulheres confrontadas com estruturas de poder opacas, e ao insistir na fusão entre literatura e cinema como modo de organizar a narrativa, o livro funciona tanto como ponto de chegada de uma trajetória quanto como excelente porta de entrada para quem ainda não conhece a autora.

No conjunto, a coletânea se impõe como contribuição relevante à ficção brasileira recente, pois demonstra que é possível conjugar imaginação simbólica, rigor formal e olhar crítico sem abdicar da capacidade de contar boas histórias — histórias que, como a pata do rinoceronte, guardam sempre algo de estranho e de inassimilável, lembrando que o real é, em última instância, indomesticável pela linguagem.

A pata do rinoceronte branco
Bernadette Lyra
Maré e Lápis
220 págs.
Bernadette Lyra
Nasceu em Conceição da Barra (ES), em 1938. É escritora e pesquisadora de cinema. Doutora em Artes/Cinema pela ECA-USP e pós-doutora pela Sorbonne, publicou contos, romances e ensaios, entre eles As contas no canto, Ulpiana e A pata do rinoceronte branco. É referência nos estudos sobre o chamado “Cinema de bordas”, voltados à produção audiovisual marginal e periférica.
Guiomar de Grammont

É escritora, dramaturga, professora e crítica literária. Autora de Sudário (contos) e Palavras cruzadas (romance), entre outros.

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