A linguagem do indizível

"Ausência de destino" acompanha um jovem judeu sob o regime nazista e explora a perda de identidade e o absurdo da vida nos campos de extermínio
Imre Kertész, autor de “Ausência de destino” Foto: Csaba Segesvári
01/03/2026

O lançamento no Brasil de Ausência de destino, de Imre Kertész, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2002, coincide com as atenções voltadas para a literatura húngara, uma vez que em 2025 László Krasznahorkai (autor de Sátántangó) também recebeu o Nobel.

A tradução de Paulo Schiller a partir do livro Sorstalangság — um substantivo derivado de adjetivo (ausência de destino), que em português teria a terminação com o sufixo idade — saiu em 2003 pela Planeta, mas foi refeita agora para a Carambaia. Essa oportunidade de o tradutor rever uma tradução e impor um título que avalie ser mais adequado é um fato notório. A edição anterior recebeu o título Sem destino: locução adjetiva que conota movimento, até mesmo aventura, liberdade, ao passo que Ausência de destino tem a acepção de paralisia, desmotivação para o movimento.

Para justificar o título postulado, o tradutor complementa no Posfácio essa consideração semântica com uma outra, de caráter semântico-ideológico. O estado (Sorstalangság) evoca um dos pilares do fascismo, por conseguinte do nazismo, que é a inclinação a um passado mítico e glorioso (o que é uma falácia). Ou seja, pensar as múltiplas nuanças do título do livro é um raciocínio de rigor numa tradução que procure condizer com a complexidade desse e de outros conceitos da literatura de Imre Kertész.

Tão complexos são tais conceitos que o ensaísta László Földényi compilou um glossário com 100 verbetes mais significativos da obra de seu conterrâneo, sendo um desses conceitos justamente Sorstalangság, palavra que aporta múltiplas combinações e possibilidades de compreensão no contexto pós-Holocausto da literatura.

Explicação
Kertész explica, em entrevista concedida, em 2004, a Ijoma Mangold, do jornal Süddeutsche Zeitung:

Dizem que somente quem foi morto asfixiado na câmara de gás pode escrever sobre o Holocausto. Eu escrevi um romance sobre a ausência de destino. É o estado do ser humano numa ditadura, onde ele está privado do seu próprio destino.

Os anos entre 1949 e 1953 foram de terror total, com prisões em massa, fuzilamentos em massa, julgamentos simulados e medo diário. Passei fome, passei frio e, não obstante, era um jovem alegre. Após a guerra, reprimi imediatamente as experiências de Auschwitz, mas com o stalinismo elas reassomaram, atormentadoras e incontestáveis. Foi, então, que comecei a escrever.

Após o exército alemão, comandado por Adolf Eichmann, invadir a aliada Hungria, em 19 de março de 1944, a vida de Imre Kertész, assim como a de todos os judeus húngaros, transformou-se radicalmente. Uso obrigatório da estrela, deportação, extermínio.

Em razão das tantas coincidências entre os acontecimentos biográficos e as ações do livro, em geral se lê Ausência de destino como autobiografia, como relato da verdade. Todavia, o escritor insiste em afirmar que, embora os fatos de sua vida sirvam de substrato, o romance é pleno de possibilidades literárias e resulta num universo poético. Em Eu, um outro, ele deixa uma pista sobre esse modo narrativo de desconcertantes evidências: “Minha única identidade é a da escrita”. É uma identidade que se escreve a si mesma. E, em termos mais abstratos a respeito do método, no romance-diário A última pousada – diários de 2001 a 2009, ele formula questões determinantes na sua obra literária e ensaística: como a literatura pode escapar à acusação de mentira diante do que não pode ser representado? Teria valor uma cultura que levou a Auschwitz? Uma cultura, cuja escala de valores humanistas, ensinada desde a infância tanto às vítimas quanto aos assassinos, provou ser obviamente inútil?

Intérprete
Kertész é um dos mais importantes intérpretes do mundo pós-Holocausto. O que ele escreve é uma literatura filosófica, testemunho de um tempo quando, segundo se questionou, “escrever poemas seria um ato bárbaro”. Mas Kertész vai além dessa premissa de Adorno, ao recomendar que todo poema, todo romance, toda expressão cultural, se não quiser ser hipócrita, deve carregar em si a dor e a reflexão de Auschwitz. Uma reflexão em formato de poema deve ser angustiante e provocadora, atonal.

Faz dois meses que nos despedimos de meu pai. Chegou o verão. Entretanto, na escola, as férias tinham sido concedidas havia muito, ainda na primavera. Justificaram: havia uma guerra. Os aviões bombardearam a cidade com frequência e, desde então, novas leis foram promulgadas para os judeus. Há duas semanas eu mesmo tive de começar a trabalhar. Um ofício comunicou: “Designado para trabalho permanente”. Dirigido ao “jovem aprendiz György Köves”, e logo vi que aquilo tinha a mão de alguém influente.

György Köves é o protagonista de Ausência de destino, um jovem convocado pela administração alemã ao trabalho forçado como ajudante de pedreiro na reconstrução de uma refinaria da Shell bombardeada. No romance, o nome completo é pronunciado somente no contexto da citação acima. Antes de ir-se, o pai o chama de “Gyurika”. No campo de trabalho, ele se identifica pelo número “vierundsechzig, neun, einundzwanzig” (64921). E, quando o jovem está exaurido e enfermo em Buchenwald, o médico-chefe, na inspeção, informa-se junto ao enfermeiro Pjetyka: “Kewisch… Was? Kewischtjerd!”.

Há, portanto, uma difusa identidade consoante com as relações, mas não bem talhada consigo mesma. Tanto que, com frequência, o personagem despenca numa insensatez constrangedora por não compreender o próprio papel. Encanta-se com a aparência distinta e os traços másculos de um cavalheiro de chicote na mão e fica pasmo quando o oficial se revela um crápula. Quando chega à fábrica de tijolos, espera condizer com os estereótipos dos alemães: limpeza, pontualidade, honestidade, e manter um comportamento respeitoso ante as autoridades, mas, no convívio com outros prisioneiros, vai gradualmente se dando conta das discordâncias, das desconfianças quanto àquelas qualidades alemãs. Antes de embarcar num trem, ele considera os preparativos e as provisões (montanhas de pão e carne em conserva) generosos, um gesto honrado para com os judeus.

Na chegada a Auschwitz, uma turba de prisioneiros aborda os recém-chegados com perguntas e advertências em iídiche, que nunca se queixassem de cansaço; que mentissem a idade: Zescájn [sechzehn, dezesseis]. Postados lá atrás, estão os soldados alemães, limpos e asseados, serenos, conforme descreve o narrador em primeira pessoa. Muitos disseram que talvez fosse bom fazer de tudo para lhes agradar. Posturas desse tipo, que à primeira vista o leitor julga subservientes, encontram-se disseminadas em diversas passagens do livro. Elas formam um tênue Motiv que perpassa a narrativa inteira até o final, quando o narrador diz que, entre os momentos torturantes, algo ali se assemelhava à felicidade.

Perspectivas diversas
A dissertação Erzählräume nach Auschwitz (Espaços narrativos após Auschwitz, de Andree Michaelis, Berlim 2013) analisa essas sugestões de trocas de perspectivas dispersas em Ausência de destino. Indica que, mais ainda que nesse romance, essas ambiguidades são exploradas à exaustão no fragmento Eu, o carrasco, do final dos anos 1950, antes, portanto, de Imre Kertész começar de fato a escrever Ausência de destino, cuja escrita deu-se entre 1960 e 1975. O fragmento literário Eu, o carrasco é um monólogo bem eloquente de um assassino em massa que, enquanto aguarda na sua cela a execução da sentença, justifica seus atos e seu comportamento criminoso com pensamentos existencialistas e filosóficos.

A leitura dessa comutabilidade, entre o viés da vítima e o do algoz, atordoa, mas Michaelis desencadeia uma provocativa discussão sobre o assunto. Por exemplo, a escrita do austríaco Jean Améry renuncia estritamente a esse expediente literário, mantém o foco na questão da vítima. No debate com os antagonistas, o denominador comum não deve ser, a seu ver, a ideia positiva de tabula rasa, porém, a “resolução do conflito não resolvido” com toda a negatividade inerente, que ele, Améry, como vítima, foi obrigado a suportar, pois tudo lhe foi tirado, nada lhe restou.

Em contrapartida, Ruth Klüger, no livro traduzido ao português como Paisagens da memória: autobiografia de uma sobrevivente do Holocausto, confessa que queria narrar suas experiências após a vida no campo de concentração Theresienstadt, mas as pessoas não queriam saber de ouvir ou ouviam com uma atitude que não era propícia à interlocução. Como Imre Kertész, Ruth Klüger se vale do recurso das inversões de papéis, e ela diz que estaríamos isolados como mônadas, sem esses expedientes que permitem ver pelos olhos de outrem; se as comparações não funcionassem como pontes entre as singularidades. Comparando, constatamos as diferenças fundamentais.

Ausência de destino
Imre Kertész
Trad.: Paulo Schiller
Carambaia
232 págs.
Imre Kertész
Nasceu em 1929, filho de pais judeus, em Budapeste. Em 1944, foi enviado a Auschwitz, em seguida a um dos campos de trabalho forçado de Buchenwald (Zeitz). Foi jornalista, tradutor e roteirista. Entre outros livros, escreveu Fiasco, Liquidação, Ausência de destino. Foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2002.
Maria Aparecida Barbosa

Professora de Literatura e tradutora do alemão.

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