A infância como pátria

Em "Xaxim", de Ieda Magri, memória e ficção se entrelaçam numa narrativa sobre infância, perdas e amadurecimento, em que lembrar também recria o passado
Ieda Magri, autora de “Xaxim” . Foto Keli Magri
01/10/2026

Afirmou Milton Hatoum numa entrevista: “Não há literatura sem memória. A pátria de todo escritor é a infância”. Essa frase, que me acompanha há anos, emerge quando inicio o novo romance de Ieda Magri. Logo nas primeiras páginas, somos levados a atravessar um mapa literal da memória até uma pequena cidade, Xaxim, que, à la Proust, parece perdida no tempo e na biografia da protagonista narradora. Em seguida, ela nos explica que o termo “xaxim” pode se referir tanto àquele lugar no Sul do Brasil quanto a certas pteridófitas, como as samambaias arborescentes. O tronco dessas plantas, por sua vez, cortado em placas, costumava ser usado para fixar bromélias ou orquídeas que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não possuem hábitos parasitas, ou seja, não retiram os nutrientes da planta que lhes serve de apoio. Relembrando a fala de Hatoum, penso que, assim como essas plantas que crescem sobre outras, também a ficção floresce sobre memórias — pessoais ou coletivas —, sem esgotá-las.

Trazer lembranças à tona é sobrepor camadas de tempo. Em geral, isso ocorre de forma não linear, em fragmentos desordenados que acompanham o vaivém das imagens emergentes ao mesmo tempo que as alimentam. E, assim como a cidade que se divide em ruas, em casas e em quartos, também a narrativa de Xaxim se tece no que se desdobra: uma história brota de outra que se encaixa em outra.

A narradora inicia revelando como, durante uma conversa com outra escritora, teve a ideia para o presente livro:

Eu queria saber de novo o que era Xaxim na minha vida, afinal, por que uma pessoa aparece de forma tão inesperada, num momento que eu estava com a atenção toda voltada a criar pontes de escrita e, justamente, falando algo tão impensado, que parecia muito com a abertura de um poço ou de uma estrada secreta no meio da mata, onde antes não havia nada?

Ela então pendura um xaxim com uma samambaia — imaginária ou real, não importa — no canto da sala e, sentada à escrivaninha, usa a imagem como essa estrada secreta para revisitar o passado: a vida precária com a família no campo, a ida para a “casa das freiras”, a infância protegida ali, a rebeldia da adolescência e, por fim, uma gravidez inesperada, a saída do interior e o novo começo na cidade grande. O singular na escrita de Magri é que ela parece abdicar, de forma consciente, de qualquer ilusão e, numa espécie de distanciamento brechtiano, mostra sempre que narra enquanto narra, ou melhor, deixa entrever a produção no produto: “O lugar estratégico onde coloquei o meu xaxim com minha verdíssima e comprida samambaia me permite olhar a casa por fora e por dentro”.

Memória coletiva
No caleidoscópio de lembranças que então afloram, sobressaem momentos de uma história tão pessoal quanto coletiva, pois “falam de tantas nós, que fomos meninas e jovens”, como bem ressaltou Regina Dalcastagnè numa resenha do livro.

Há, por exemplo, a figura da Irmã Cida, que poderia ser também a tia ou a irmã mais velha de qualquer mulher dessa geração e que funciona como tela de projeção para aquilo em que é possível se tornar. Há os primeiros atritos, as dificuldades de convivência com as colegas, os risos de nervoso, as saudades, os medos, aqueles conflitos e dificuldades por meio dos quais a personalidade vai se formando, em parte de maneira voluntária, em parte por falta de opção. Algumas imagens são incômodas e, por isso mesmo, fortes, como a lembrança do primeiro trauma, quando a narradora, ainda adolescente, é enviada para cuidar de crianças especiais num berçário:

Foi ali que encontrei a solidão e a dor de verdade, pela primeira vez na vida. E foi ali que minha inocência foi perdida, quando comecei a me perguntar se Deus existia de verdade. E se existisse, tanto pior. Como ele podia permitir que vivesse, que existisse, que sofresse, uma criança de dois anos cujo rosto era virado para as costas? As outras crianças não me impressionavam tanto, mas tomar consciência dessa forma de vida me derrubou.

E há também as imagens ambivalentes em que o encanto parece habitar a própria crueza, como na cena em que ela descreve a vida da família no campo: até mesmo as crianças — inclusive ela própria — participam das tarefas árduas no roçado, do plantar e do colher, dos trabalhos na casa. São imagens tão idílicas quanto duras que lembram um filme italiano antigo. Mas, como diz a narradora, “era a vida. E minhas irmãs juram que foi o pior período da vida delas”.

E há passagens que deixam pressentir também o clima político no país a partir das divergências na pequena comunidade. Os movimentos dissidentes dentro da Igreja, as assim chamadas Comunidades Eclesiais de Base, traçam uma cisão duradoura tanto na vida individual de seus agentes como na da comunidade. A narradora passa a se dedicar cada vez mais à luta política até que, no turbilhão de emoções e quereres da juventude, uma nova porta se abre: em vez de mudar o mundo, ela decide se dedicar à literatura infantil. Com a melancolia que acompanha qualquer amadurecimento, a história chega ao fim da primeira parte.

Dor e esquecimento
Na segunda parte, essa mesma maturidade dá lugar à consciência da dor, sob a forma de questionamentos sobre perdas, tempo e esquecimentos:

Me apavora saber que tantas pessoas importantes, que ocuparam o lugar da mãe, o lugar do pai, o lugar de mestres, estejam perdidas para mim. Que não possa encontrá-las no mapa, que não possa ir até elas, bater em sua porta e dizer um Oi, quanto tempo! E me apavora mais ainda perceber que, de certas pessoas, tenho a imagem, mas não o nome, e de outras, tenho o nome, mas nenhuma imagem.

A narradora tem um sonho ou visão de um museu de cabeças presas por ventosas ao teto do quarto, formando um segundo mapa imaginário da memória, que se sobrepõe ao real. Por meio dessa ficção, ela entra em diálogo com seus fantasmas, um diálogo também com quem a lê. Por exemplo, quando se pergunta por que nunca teve samambaias, o que está por trás é uma indagação maior: por que cultivamos certas memórias e outras não? O que fica e por quê? Escolhemos o que lembramos? E qual o papel da literatura em tudo isso?

Escrever sobre o passado é revisá-lo, filtrá-lo, reeditá-lo. Ler o relato de outra pessoa é se purificar com ela. Essa tem sido, há milhares de anos, uma das principais funções da literatura e da arte em geral. Em sua Poética, já Aristóteles usou o termo “catarse” para descrever o efeito da tragédia grega no público: ao sentir compaixão e medo, o espectador vivencia as dores das personagens e descarrega nelas suas próprias angústias. Assim, a narradora de Xaxim se purifica por meio do diálogo com seu museu de cabeças, e nós com ela. Ao revisitar cenas traumatizantes — a gravidez interrompida, desavenças familiares, acidentes, a infância associada a cenas de medo e de vergonha — ela e nós, ainda que não nos livremos dos traumas, aprendemos talvez a viver melhor com eles.

Depois do mergulho, há o alívio da volta à superfície de um presente reinventado: a escrita, que, como a horta no quintal, traz a sensação de “encontrar coisas preciosas, ainda que não valham nada”. São esses pequenos tesouros que mantêm o fogo da memória aceso, um fogo que precisa ser ateado dia após dia e que, ainda assim, está quase sempre por um fio.

Xaxim
Ieda Magri
Autêntica
120 págs.
Ieda Magri
Nasceu em Águas Frias (SC) e vive no Rio de Janeiro (RJ). É doutora em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora de Teoria da Literatura nos programas de graduação e de pós-graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É autora dos romances Uma exposição (Relicário, 2021), Ninguém (7Letras, 2016), entre outros.
Carla Bessa

É tradutora literária e escritora bilíngue português-alemão. Autora de Urubus (Confraria do vento, 2020), premiado com o Jabuti na categoria Contos, e tage leben (Matthes & Seitz Berlim, 2025), entre outros.

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