Um literato ou uma literata não são pessoas comuns. Não apenas vivem, mas observam e, fazendo-o, observam-se. A partir daí, assumem uma postura perante a existência. O russo Tolstói viveu com seus servos que trabalhavam em suas terras (abandonando sua abastada família quando esta não aprovou tal postura); já outros autores viveram em franca contradição com as ideias que professavam. Em meio a inúmeros exemplos no decorrer da história, o caso de Mishima continua sendo algo à parte.
Um terrível caso, diga-se: em 1970, mal chegado aos quarenta e cinco anos, tentou um golpe de estado, invadindo um quartel-general, lendo um manifesto e cometendo seppuku (um antigo ritual de suicídio japonês).
Com razão muitos leitores se escandalizam ante a hipocrisia que enxergam haver entre o escritor e sua obra, mas verdade seja dita: poucos homens levaram tão longe suas ideias como o fizera Mishima.
E quais eram tais ideias? O leitor brasileiro poderá ter uma noção com mais dois novos volumes traduzidos: a coletânea de contos Morte em pleno verão e o romance Neve de primavera, primeiro volume da tetralogia Mar da fertilidade.
Mishima contista
Antes de mais nada, é forçoso esclarecer que Morte em pleno verão é o nome de uma quase novela do escritor japonês e não o título agregador de uma coletânea de histórias. Aliás, o volume em questão reúne contos (e uma interessante peça Nô em um ato) de distintos volumes e fontes, como a dar ao leitor brasileiro uma ideia do que norteia a obra de Mishima.
Sem dúvida, esse arranjo alcança êxito em seu escopo.
A obra que dá nome ao volume trata de uma tragédia ocorrida às margens da praia de A., na península de Izu. Um casal bem peculiar precisará lidar com o que emerge desse acontecimento, inclusive nas ressonâncias em seu oceano interior.
Aqui, já se veem alguns pontos que são caros ao autor, como a temática da morte e o enfoque intimista da narrativa. Um ponto interessante nesta obra densa de cinquenta páginas é como os personagens não apenas vivem suas crises, mas observam-se enquanto o fazem. No caso do casal em questão, de classe média, isso implica uma abordagem impiedosa:
Dentre todos aqueles passageiros, não havia um único que fosse mais infeliz do que ele. Sentia-se como que elevado — ou rebaixado? ele não sabia — a uma condição humana especial, que o tornava diferente do Masaru que acordara horas antes. Um Masaru edição limitada.
Mas não é tudo: o ocorrido permite ao autor tecer análises perspicazes, de ressonância universal:
O vento da manhã fez contrair as maçãs do rosto de Tomoko. Ela teve pavor daquele nascer do sol. Era como se a luz do dia tornasse clara a catástrofe, e pela primeira vez o ocorrido se lhe afigurasse real.
Em O biscoito de um milhão de ienes e A garrafa mágica tem-se igualmente uma abordagem crítica, mas sutil, que se ancora na relação entre classes sociais diferentes. No primeiro, vislumbra-se um dos temas caros ao autor: o erotismo, no casal frugal que ganha a vida em exibições particulares a velhas senhoras. No segundo, o objeto que lhe dá nome é o ponto de contato entre duas crianças, uma legítima, outra bastarda, de um homem que se relacionara com uma gueixa. O conto Papel-Jornal, o mais sucinto do conjunto, que envolve o parto de uma babá na casa dos seus patrões, não destoa, em sua força, das abordagens acima.
O amor do santo homem de Shiga remete a outro tema tipicamente mishimiano desde O templo do pavilhão dourado, no caso: a Beleza. Trata-se de um monge que sucumbe à exuberância da esposa do imperador. É, de certa forma, vis-à-vis, o tema de Onnagata, conto este que remete a outro tema caro ao autor, desde Confissões de uma máscara: o homoerotismo.
Todos os contos acima, como se vê, refletem uma visão de mundo personalíssima que se cifra no contraste entre o ser e sua aparência, no contexto de uma sociedade na qual o recato é valor caro. Mas para além da imagem, há um mundo onde pulsões de dor e erotismo, de amoralidade e até de sadismo vibram incessantes.
Dentro desse conjunto de histórias, contudo, destaca-se talvez o mais terrível conto jamais escrito: Patriotismo. Nele, vemos um tenente que, mesmo sem saber da tentativa de golpe militar malograda de seus colegas, opta por cometer seppuku a fim de não ser obrigado a partir no encalço deles — e arrasta sua esposa alienada com ele. O conto narra com sórdida riqueza de detalhes o ato de ambos, ocupando-se antes de pormenorizar seus tórridos e sucessivos atos sexuais, celebração lúgubre de sua paixão mútua e uma despedida.
É um conto de difícil leitura, não só pelas ressonâncias com a morte do próprio Mishima. Ele encapsula todas as obsessões do autor, nesse liame de morte e erotismo que já se anunciava na famosa cena de onanismo perante a pintura de São Sebastião em Confissões de uma máscara. Mais: há um certo voyeurismo do autor em ver essa morte dupla, uma satisfação nessa dinâmica hierarquizada entre homem e mulher; por fim um apelo constante à brancura nos elementos da cena, na “pureza imaculada” (expressão muito repetida) das intenções e do ato em si. É um conto que seria idolatrado hoje por certas correntes ideológicas…
Esses contos desafiam o gosto dos leitores da literatura moderna e de uma parte — hoje majoritária — da crítica pós-Tchekhov e Hemingway, para a qual um conto só é bom se for absolutamente conciso. Mishima desafia essa tara hodierna, concebendo relatos alentados, densos, sem queimar incenso à deidade “Concisão”.
Mishima romancista
Ler o Mishima romancista constitui uma experiência complementar e satisfatória. É nos romances que se constata um autor que pinta as paisagens. A beleza natural da terra nipônica resplandece ainda mais em descrições impressionistas tais como essa:
Os delgados pinheiros e criptomérias que havia atrás das folhagens coloridas não bastavam para cobrir o céu (…) estas árvores (…) recebendo no dorso a luz celeste que chegava ainda mais extensiva por entre a vegetação ao fundo, arrastavam em seus galhos estendidos como se fossem nuvens inflamadas pelas cores da aurora.
Trata-se este de um típico trecho de Neve de primavera, o primeiro romance da tetralogia que constitui Mar da fertilidade, obra final do autor. Nela o leitor acompanha as cismas de Kiyoaki Matsugae, o filho um tanto estéril de uma aristocrática família japonesa de inícios do século 20.
Tendo sido criado em sua infância pela família do conde Ayakura, esse jovem parece representar uma geração moderna desgarrada do passado belicamente glorioso do Japão, em especial da Era Meiji. Vaidoso, mimado, pouco afeito aos estudos e à leitura, Kiyoaki passa seus dias em cismas egocêntricas, concedendo a si apenas um amigo (o seu antípoda Honda), desprezando os demais, em especial sua “prima” Satoko, filha de Ayakura.
O romance se concentra nessa relação ambígua que ambos, Kiyoaki e Satoko, estabelecem às vésperas do casamento arranjado desta com o príncipe Harunori, filho de Toin, apesar de jovem, é já uma mulher, e toda sua solidez interna afronta a natureza pueril do protagonista. Vem daí (e de outras questões mais) a hostilidade que nutre por ela.
Afora isso, no entanto, a impressão que se tem é que Kiyoaki vaga pelo romance como uma folha em meio ao mar, em infertilidade. Curioso é que os personagens que orbitam ao seu redor são muito mais interessantes e expressivos que ele. É o caso da própria Satoko, mas também de seu amigo Honda (que ganhará protagonismo nos demais volumes da tetralogia), intelectual sempre aberto ao aprendizado que pode colher dos outros. Iinuma é outra figura rica, jovem servo da família Matsugae, que precisa tolerar à guisa de tutor o “senhorzinho”. Cheio de ressentimentos em face dessa família que envergonha seus antepassados da era Meiji, Iinuma é uma figura conservadora, de extrema direita, que se frustra por não conseguir encaminhar o protagonista ao “bom caminho”. Em termos ideológicos, espelha muito os sentimentos do próprio autor. Outra figura de relevo, muito semelhante a este, é a serva Tadeshina, idosa que acompanha servilmente Satoko. Figura ambígua, que esgueira em meio a esses nobres, que é usada por eles, mas de certa forma também os usa… Vale também mencionar o casal de barões do capítulo XVIII. Através deles, Mishima critica a pusilanimidade de seus conterrâneos deslumbrados pela ocidentalização e seus valores de consumo.
O primeiro volume da tetralogia parece funcionar mais como primícias, acompanhando os personagens Kiyoaki e Honda em suas descobertas espirituais e intelectuais. Mas, submetido às errâncias principalmente do primeiro, vaga por vezes a esmo, como um No caminho de Swann oriental, sem a mesma envergadura (em que pesem elementos que serão futuramente retomados, como a ideologia de Iinuma e as crenças orientais, em especial as que implicam em reencarnação).
O que foi dito aqui não esgota a dimensão de ambas as obras, mas expõe os principais predicados de um autor que certamente fixou seu lugar no cânone universal.