A cena dos malditos

"Aranha movediça" simula um podcast de true crime e investiga a morte de um expoente do punk cearense, entrelaçando suspense, horror, memória e mistério
Moacir Fio, autor de “Aranha movediça”
01/10/2026

Em 2014, a jornalista Sarah Koenig e a produtora Julie Snyder passaram a desenvolver, a partir do consagrado programa de rádio This American Life, um novo projeto. Em vez de contar histórias diversas a cada episódio, o novo podcast investigaria uma única história ao longo de uma temporada inteira, publicada semana a semana. Um ano antes, Koenig havia sido procurada pela advogada e ativista Rabia Chaudry, que lhe apresentara o caso de Adnan Syed, um jovem condenado à prisão perpétua pelo assassinato de sua ex-namorada, em 1999, em Baltimore, nos Estados Unidos. Chaudry acreditava que Syed era inocente e que sua defesa original havia sido falha e negligente.

Assim, jornalista e produtora passaram um ano examinando os autos do processo, analisando os depoimentos da polícia, entrevistando o condenado por telefone na prisão, contatando as testemunhas e verificando a linha dos fatos apresentada pela acusação no julgamento. Diferentemente do modelo tradicional de jornalismo, o programa era produzido e editado à medida que ia ao ar, permitindo que o próprio público trouxesse novas pistas que alterassem o andamento da apuração. Serial — nome dado por conta do formato seriado — logo se tornou um sucesso estrondoso, com milhões de ouvintes em todo o mundo, alimentando debates públicos sobre o caso. A condenação de Syed chegou a ser anulada em 2022, mas acabou restabelecida; em 2025, sua pena foi reduzida ao tempo já cumprido. No entanto, mais do que o impacto no caso, o programa popularizou o podcast como fenômeno cultural, tornando-se um marco do gênero investigativo de true crime.

No Brasil, Serial serviu de inspiração declarada para podcasts de larga repercussão, a exemplo do Projeto Humanos – O caso Evandro, de Ivan Mizanzuk, e A mulher da casa abandonada, de Chico Felitti. E assim como acontecia com os best-sellers, a onda do true crime despertou o interesse pela transposição para outras mídias. Vários podcasts tiveram suas histórias adaptadas para documentários, séries documentais e livros-reportagem. Aranha movediça, de Moacir Fio, parece prenunciar uma nova tendência para o formato: a articulação de um enredo ficcional a partir da estrutura de um podcast. Simulando a dinâmica das séries investigativas em áudio, o primeiro romance do autor cearense busca respostas para a morte misteriosa de um expoente da cena punk de Fortaleza, em 1987.

Caso reaberto
A apresentação é da jornalista Alessandra Moretti, da Central Brasileira de Rádio (CBR), de São Paulo. Na nova temporada de seu podcast que resgata casos de pessoas desaparecidas, ela parte de uma notinha de jornal dos anos 1980 que dá conta de um incêndio que vitimou um morador de rua, num terreno abandonado no bairro de Monte Castelo, próximo ao centro de Fortaleza. Ao chegar ao local, passa a entrevistar antigos moradores e porteiros de prédios vizinhos e não demora a certificar-se de que o tal indigente era, na verdade, João Valdenir da Silva Barbosa, o Jota do Lixo, o maior nome do punk cearense, líder da icônica banda Partido Contra. O casebre em que o corpo foi encontrado era chamado de Muquifo, ponto da cultura underground, onde Jota conheceu Marusca Andrade, a Maca, com quem passou a se relacionar. A jovem vendia triexifenidil, droga que causa euforia e delírios, conhecida popularmente como aranha. O barulho e o consumo de entorpecentes faziam com que a cena fosse malvista, gerando a suspeita de que o incêndio tinha sido um ato intencional. Desconfiava-se de uma rixa entre gangues que terminou em crime.

Até que a investigação começa a revelar elementos sinistros. Quando passa a inquirir amigos e parentes, Moretti descobre que, na mesma noite da morte de Jota, Maca entrou num estado catatônico, que permanece há décadas. A gata preta de estimação, que não desgrudava dela (e diziam sussurrar palavras em seu ouvido), foi encontrada queimada ao lado do corpo do namorado. O animal havia sido um presente de Nhewó, personagem fundamental para a história e, ao mesmo tempo, enigmático: uma figura sombria, meio andrógina, que a terra tragou desde então. Alguns afirmam que morreu; outros, que era metido com bruxaria. Dizia-se ainda que formava um triângulo amoroso com Maca e Jota; e que foi o pivô do fim da banda. O que se sabe, de fato, é que tomou o posto de guitarrista, expulsando Carlito Pau-de-Gato, primo de Jota, que se esquiva de todas as formas de ser entrevistado por Moretti. Carlos Eduardo, seu nome real, guarda segredos obscuros que revela aos poucos, no átimo de um fluxo de consciência incidental.

Assim, o romance se reparte numa segunda linha narrativa paralela à transmissão do podcast. Mesmo se negando a falar, o monólogo interno de Carlos Eduardo acrescenta pistas que serão seguidas nos episódios de Em busca do Lixo. Uma delas é uma coleção de cadernos, cuja leitura parecia um pacto proibido entre Maca e Jota. A menção aos relatos desencadeia uma terceira linha narrativa, que remonta ao século 19, numa fazenda escravista em Cococi, no sertão cearense. Lá vive Josefa, filha do temido coronel Francisco Alves Feitosa, forçada a se casar com um homem bem mais velho. Durante uma viagem do pai, quando divide a casa-grande apenas com a madrasta e os criados, a jovem começa a ter pesadelos com uma criatura demoníaca. As visões oníricas se tornam presságios para a chegada de uma mulher misteriosa, identificada apenas como Moça, que pede pouso na residência. O aceite dá início a um relacionamento insidioso, que resulta em consequências funestas para a região, materializadas na presença de uma suçuarana que contabiliza mortes de animais e pessoas por meio de ataques brutais.

Teia narrativa
Alternando esses três segmentos num movimento de repercussão entre as partes, a trama opera uma tessitura muito intrigante na qual as perguntas em aberto num relato encontram respostas em algum momento, em outro, criando um jogo de suspense que mantém o leitor engajado até (literalmente) a última página. Embora se trate de uma proposta ambiciosa de manejo da forma para um estreante na narrativa longa, o autor acerta em não valorizar o inusitado da estética, e sim em explorar de modo criativo o inusitado do conteúdo. A dinâmica de reprodução do podcast traz a impressão de se estar diante de um programa real, com as técnicas específicas de narração, as pausas, as vinhetas e, acima de tudo, a interação entre depoimento e roteiro. São dezenas de personagens, e há o cuidado de imprimir características próprias a cada interlocutor, por meio de sotaques, incorreções vocabulares e ritmos de inflexão, de modo a expressar diferentes personalidades e estados mentais somente pela fonia.

Outro acerto é o resgate da cena punk cearense por meio da mistura de documento-verdade e invenção. As pessoas e os acontecimentos são recriados num processo de recomposição histórica e imaginária a partir das letras anárquicas, da rebeldia contra o sistema ilustrada em fanzines, da rivalidade entre as gangues, do estilo de vida que causa repúdio na comunidade, taxando-os como um bando de malditos. Fio, inclusive, parece partir da etimologia de “malditos” para incorporar ao enredo seu componente sobrenatural. Da cidade no passado aos principais envolvidos no mistério central, tudo definha sob o véu de uma maldição, um mal que se propaga por gerações em vetores de magia e ruína, troca de forma, enfeitiça e, em algum estágio, parece descender da mesma casta dos personagens de A marca da pantera, de Paul Schrader.

Muitos autores latino-americanos têm se utilizado do horror para expor fissuras e traumas sociais, e Aranha movediça até permite essa leitura (a repressão e a violência contra a mulher, o preconceito marginalizante), mas o compromisso de seus mecanismos internos é com a construção da tensão, a manipulação das hipóteses, as perspectivas alternadas, a armadilha de um narrador não confiável. Embora o título pareça se referir ao entrelaçamento das linhas narrativas, uma das técnicas de ataque dos aracnídeos é emboscar a presa para dar o bote derradeiro. Moacir Fio surpreende pelo impacto de suas revelações finais, demonstrando reconhecível talento para a literatura de gênero — e, por que não, para um podcast de true crime investigativo.

Aranha movediça
Moacir Fio
Moinhos
232 págs.
Moacir Fio
Nasceu em Fortaleza (CE). Doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal do Ceará, pesquisa o gótico e a monstruosidade na América Latina. É cofundador do Coletivo Escambau de Arte e Cultura e atua como editor-chefe da revista Escambanáutica e editor da Entrelaces, periódico do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC. Publicou os livros Pequenas hemorragias e Roteiro falado. Tem contos traduzidos para o inglês e o castelhano em diversas antologias e revistas. Aranha movediça é seu primeiro romance.
Sérgio Tavares

Nasceu em 1978. É autor de Cavala, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, publicado em Portugal com o título Equação sobre o abismo. Também publicou Queda da própria altura, antologia finalista do Prêmio Brasília de Literatura. Alguns dos seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Escreve sobre literatura brasileira e hispano-americana para jornais e revistas, além de editar o site A Nova Crítica.

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