Novas breves brisas

Do Nobel de Literatura a Stephen King, passando pelos narradores não-humanos e pela importância do humor na ficção adulta
Ilustração: Mariana Tavares
01/03/2026

1.
Há décadas publicando obras-primas da literatura-artesanato e também alimentando o cinema com enredos geniais…

Eu daria tranquilamente o Prêmio Nobel de Literatura ao Stephen King.

Porque a literatura-artesanato é tão importante quanto a literatura-arte e Stephen King é um dos grandes mestres da insanidade febril de nosso tempo.

2.
Começou como uma novidade emocional & intelectual: examinar as micropartículas vibrantes de uma determinada época, de uma determinada sociedade, de um determinado indivíduo. Pra facilitar o trabalho foi inventado o microscópio, pois a lupa não era suficiente.

Então se tornou uma fraqueza, um vício. A lupa e o microscópio não eram suficientes. Surgiu o microscópio eletrônico, capaz de ampliar um milhão de vezes qualquer detalhe moral, intelectual & emocional.

O vício virou depravação. Faz dois séculos que a literatura é apenas isso: observação atenta, riquíssima em pormenores, análise minuciosa das ínfimas miudezas da sociedade e do indivíduo.

Enquanto isso, o telescópio orbital, capaz de observar vastas porções do espaço e do tempo — contemplar objetos distantes significa contemplar o passado do universo —, continua encostado, sem uso. Os dramas, as tragédias e as comédias em prosa & verso sobre civilizações ou espécies inteiras não estão sendo escritos, porque os escritores graúdos, telescópicos, pararam de nascer.

Nos últimos duzentos anos, nos tornamos escritores miúdos, microscópios voltados apenas às miudezas. O problema é que as miudezas já encheram o saco faz bastante tempo.

3.
Atualmente os protagonistas não-humanos são mais interessantes, e mais relevantes, do que os protagonistas humanos. São a única estratégia literária capaz de denunciar a fanática vaidade humana, nossa presunção estúpida & sagrada de senhores do planeta Terra. O protagonismo não-humano, principalmente na prosa de ficção, arranha nosso chauvinismo. Olhem pra cima. Examinem a galáxia. O oceano senciente do planeta Solaris, no romance epônimo de Stanisław Lem, e a exuberante & oferecida Máquina do Mundo, no poema epônimo de Drummond, certamente sabem do que estou falando.

Mergulhando na crosta terrestre, as bacias petrolíferas também sabem. No desconcertante romance de Reza Negarestani, intitulado Ciclonopedia: cumplicidade com materiais anônimos, o petróleo é uma forma de inteligência antiga — quase demoníaca — que sempre controlou a humanidade. Formadas pela decomposição de matéria orgânica soterrada há milhões de anos, as bacias petrolíferas concentram o espírito atormentado de organismos vegetais & animais mortos antes mesmo do surgimento de nossa espécie.

Há também os protagonistas-narradores não-humanos. Esses costumam ser mais cotidianos, mais próximos do senso comum: gatos, cachorros, árvores, pássaros, golfinhos, nuvens, casas, carros, cadeiras, livros, relógios, brinquedos etc. Presença constante na literatura para crianças & jovens, não entendo por que desaparecem quase completamente na literatura adulta. Apenas preconceito, ou incômodo? Na literatura infantojuvenil o narrador não-humano aproxima amorosamente, na literatura adulta o narrador não-humano nos desestabiliza política & filosoficamente, razão fundamental pra que os escritores deixem de lado o chauvinismo e comecem a dar voz às criaturas não-humanas com mais frequência na literatura adulta.

Exemplos bem conhecidos: o clássico romance japonês Eu sou um gato, de Natsume Sōseki (a literatura japonesa adulta oferece muitos narradores não-humanos, em consonância com o xintoísmo), o poema Um boi vê os homens, de Drummond, o miniconto Uma baleia vê os homens, de Antonio Tabucchi; o gato Francis do romance policial Felidae, de Akif Pirinçci; o cachorro, a moeda, a árvore e a cor vermelha no romance Meu nome é vermelho, de Orhan Pamuk; a árvore, o espelho, a caminhonete e a capa de proteção no romance A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara. Se me lembro bem, em seu primeiro livro, a coletânea de minicontos Grogotó, o impagável Evandro Affonso Ferreira oferece um punhado de animais narradores bem-humorados. Sem esquecer as minificções de Luís Alberto Brandão Santos narradas por estátuas, reunidas na coletânea Saber de pedra, magistral.

Até pouco tempo atrás, protagonistas-narradores não-humanos apresentavam um único grande defeito: eram escritos por humanos. Esse detalhe certamente enfraquece um pouco a denúncia contra a fanática vaidade humana. Enfraquece, mas não a anula. Estatisticamente, é bem melhor um protagonista-narrador não-humano escrito por um humano do que os milhares de egocêntricos protagonistas-narradores humanos escritos por humanos.

Mas em breve isso vai mudar radicalmente. Logo, logo, teremos excelentes narradores não-humanos escritos apenas por máquinas. Será o xeque-mate na proverbial vaidade sapiens. Estou ansioso pra ler essas obras.

4.
Humor: a qualidade mais valiosa & mais rara na literatura brasuca, tão estufada, tão empanturrada de dramas & tragédias.

Repito: o humor é a qualidade mais valiosa & mais rara na literatura brasuca.

Sugestão para os novos escritores: se tua escrita costuma surgir, sem esforço nenhum, carregada de irreverência, ironia, caçoada, chacota, sarcasmo, zombaria, chalaça, deboche, escárnio, mordacidade, sátira, galhofa, gozação, motejo, troça, enfim, carregada de bom humor, continue cultivando essa qualidade.

O mainstream tentará convencer você de que a grande arte está somente no drama e na tragédia, mas isso é papo-furado de trevosos escolásticos.

O bom senso sabe, nasceu sabendo, que uma boa comédia é tão valiosa quanto um bom drama & uma boa tragédia.

Pensando bem, em minha opinião uma boa comédia é MAIS valiosa do que um bom drama & uma boa tragédia.

5.
Com bastante frequência, penso no escritor Fernando Monteiro.

Apesar de visitar e me perder no Recife várias vezes, eu não o conheci pessoalmente, não nos esbarramos na realidade tetradimensional.

Aprecio principalmente seus romances, e trocamos muitas mensagens na virada do século. Nessa época, ambos colaborávamos com o Rascunho e a revista Bravo!. Assim que foram lançados, gostei demais de Aspades ETs Etc. (1997) e A múmia do rosto dourado do Rio de Janeiro (2001).

Lembro que, em 2001, eu o convidei pra integrar, com uma ficção inédita, a antologia Geração 90: manuscritos de computador. Fernando respondeu que aceitava, mas não abria mão do adiantamento de direitos autorais. Eu expliquei que não haveria adiantamento, que os outros convidados tinham aceitado essa condição. Ele agradeceu pelo convite, mas reforçou que não participaria sem um adiantamento.

Lamentei muito, pois Fernando certamente é um dos ficcionistas brasucas mais importantes entre os que estrearam nos anos 1990. Mas essa recusa não diminuiu nem um pouco a temperatura tropical de minha admiração.

Com bastante frequência, ainda penso no escritor Fernando Monteiro, vou até a estante e folheio seus livros, todos lidos, com passagens anotadas. Continuam estranhos & vigorosos. O fantasma do autor, um espectro exigente & desconfiado, ainda nos assombra a partir de suas páginas.

Olyveira Daemon

É ficcionista e crítico literário. É autor de Poeira: demônios e maldições e Ódio sustenido, entre outros.

Rascunho