Repito: em breve, muito em breve, literatura boa será literatura do arco-da-velha. Não sou futurologista, mas deixo aqui minha previsão: estamos caminhando para o futuro do passado. Não para o futuro de carros voadores e comprimidos da inteligência, mas de leitores retrógrados, porém com orgulho.
Sim, anotem na agenda: em breve, as pessoas não vão mais querer ler livros contemporâneos. Nada publicado depois de 1999. O último grande consenso literário da humanidade será: “Se não tem cheiro de papel amarelado, não vale”. Não é exagero, é tendência. A culpa? Da alta tecnologia, é claro. Ninguém mais vai querer ler livros escritos por inteligência artificial.
Não estou falando que os romances do futuro serão ruins. Muito pelo contrário: serão tecnicamente impecáveis, com tramas tão bem estruturadas e verossímeis, tão poeticamente perfeitas — sem erros de continuidade ou revisão —, que o leitor sentirá saudade daquele capítulo meio torto, daquelas metáforas que o autor claramente inventou depois de uma noite mal dormida e três cafés fortes, daquela pontuação colocada no lugar errado com uma teimosia humana que ainda hoje chamamos de “estilo próprio”.
As IAs farão tudo certo demais. Não haverá um único personagem sem aprofundamento psicológico, nem uma frase sem ritmo, nem um diálogo que não pareça vencedor de prêmio Nobel. E isso, meus amores, será intolerável. Leitor que se preza gosta de tropeços, de soluços estilísticos, de erros que viram acertos. A perfeição narrativa será o novo tédio existencial. O mesmo valerá para as coletâneas de poemas, contos e crônicas. Bilhões de livros esquecidos, que foram esnobados em sua época, voltarão do além.
Com isso surgirão movimentos culturais. Primeiro, pequenos clubes: a Irmandade Gutenberg do Papel Desbotado, por exemplo, reunindo jovens de vinte e poucos anos que recitarão trechos de Clarice Lispector e Machado de Assis com a mesma devoção de quem enuncia oráculos. Depois virão grupos mais radicais, entre eles a Ordem da Tipografia Ancestral, com reuniões secretas nas quais os participantes folhearão apenas exemplares usados, em silêncio reverente, inalando aquele cheiro de “humanidade genuína”.
Quando o movimento ganhar força, aparecerá uma seita. Sempre aparece uma seita. A Sociedade dos Manuscritos Intocados ou a Confraria dos Leitores Alternativos ou a Liga dos Algoritmos Desligados ou… Enfim, uma seita que acreditará firmemente que o último verdadeiro romance foi publicado em dezembro de 1999. Seus membros se negarão a tocar em qualquer livro “nascido” de um processador neural. “Não se trata de nostalgia”, dirão com solenidade. “É proteção espiritual.” Eles até criarão rituais: queimar e-readers em fogueiras cerimoniais, recitar títulos de bibliografias obrigatórias e realizar peregrinação a sebos e bibliotecas. Exatamente. Os sebos e as bibliotecas serão os novos templos sagrados.
Nesse cenário, claro, as editoras e as livrarias entrarão em crise existencial. Para que se preocuparem com obras novas, se os leitores só querem o passado, a humanidade genuína? Algumas editoras tentarão resistir, publicando um ou outro autor humano contemporâneo, mas ninguém dará bola. “Humano? Tem certeza? Parece IA”, dirão os leitores desconfiados, torcendo o nariz pra qualquer frase ou verso que soem perfeitos demais.
Mas as editoras mais resilientes passarão a relançar compulsivamente tudo o que foi escrito antes de 1999. Até os catálogos de editoras que faliram antes dessa data se tornarão itens de colecionador. A repaginação dos relançamentos será mínima, porque qualquer mudança gráfica será vista como heresia. “O respeito à origem é fundamental”, anunciarão em comunicados solenes.
E assim chegaremos ao ponto em que o grande luxo literário não será o lançamento do mês, mas a aquisição de um livro velho, desgastado, que traga consigo a marca inconfundível do errare humanum est. Que ofereça a garantia de ter sido escrito por alguém de carne, osso e provavelmente dívidas com o locador do imóvel e a empresa de energia elétrica.
Enquanto isso, as IAs — sempre calmas, sempre pacientes — continuarão escrevendo literatura. E assim o ciclo seguirá: quanto mais perfeita a escrita artificial, mais intensa será a busca pelo imperfeito humano. Talvez até escrevam sobre esses leitores ansiosos, esses mesmos que, ai ai ai, com medo da máquina, se agarraram a páginas amareladas como se fossem salvaguardas de autenticidade.
Jovens disputarão edições raras como quem disputa relíquias sagradas. Críticos defenderão a falha como expressão máxima do intelecto primata. E cada página amarelada será o testemunho de um tempo em que escrever exigia espera, cansaço, desvios e alguma dose de caos.
E quem sabe, lá em 3025, um cronista artificial escreverá sua própria crônica bem-humorada comentando: “Eu já desconfiava. Os humanos sempre acabam voltando para a poeira das estantes. A cada inovação, confirmamos o óbvio: o passado não passa, ele revisita”.
{Crônica escrita pelo Chapa Gepeto a meu pedido}
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A seguir, o Credo sem atualização de driver da Sociedade dos Manuscritos Intocados ou da Confraria dos Leitores Alternativos ou da Liga dos Algoritmos Desligados ou…
Nós, os desplugados e orgulhosamente analógicos,
cremos na Sagrada Bagunça do Escritor,
no Poder da Página Rabiscada e Escarrada,
na Palavra que nasce lenta, torta e cheia de dúvidas.
Cremos que nenhum algoritmo salvará a Literatura,
pois a Literatura nunca pediu para ser salva.
Cremos na falha sapiens, no parágrafo torto
e na vírgula bugada que sempre decide fugir.
Renunciamos aos textos que parecem prontos demais,
às frases que brilham sem suor ou fissuras
e aos prompts que prometem genialidade
instantânea sabor transcendência.
Assim juramos, enquanto houver café amargo,
emboscadas de boletos, Síndrome do Impostor,
terror da página em branco e
procrastinação apocalíptica.
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Decálogo dos Escritores Insurgentes Contra as Máquinas Pensantes
1. Não terás outro coautor além do caos. Se a IA oferecer ajuda, responda com um sonoro: “Já tenho problemas suficientes, obrigado”.
2. Amarás tua sintaxe errada como filha legítima. Só quem viveu o drama das aulas de Língua Portuguesa conhece a dor da análise sintática.
3. Não roubarás metáforas pré-fabricadas. Metáfora boa nasce de insônia, não de algoritmo.
4. Jamais permitirás que um robô escreva mais rápido que você. Se ele insistir, desligue o wi-fi ou distraia-o com sudoku.
5. Honrarás tuas frases longas, barrocas e confusas. IAs odeiam períodos mal pontuados, que dão voltas, cambalhotas e retornam ao começo.
6. Não desejarás o texto do próximo, principalmente se o próximo for feito de silício, titânio e eletricidade. A inveja humana é bonita, a inveja digital é só depressiva.
7. Manterás o direito sagrado de apreciar um bom bloqueio criativo. Quem nunca encarou uma página em branco por quarenta minutos não merece chamá-la de inimiga.
8. Não matarás teus personagens somente porque uma estúpida máquina sugeriu. Apenas porque o algoritmo adora finais trágicos não significa que você deva fazer parte da estatística.
9. Cultivarás o erro ortográfico como gesto de rebeldia. O escritor humano tem o direito poético de escrever sombrancelha, metereologia, beneficiente, concerteza, asterístico, previlégio, impecilho, reinvindicar, derrepente, pertubar…
10. Defenderás até o fim o maior segredo do escritor: literatura é um tipo de magia, não de matemática. E magia se pratica com angústia, alegria, luxúria e um toque de loucura, coisas que nenhum computador suporta por muito tempo.