{Delyrios} Apöcryfos de Sofia Soft

Entre mortos ilustres, contracultura, literatura e finitude, humor e delírio se misturam a reflexões sobre arte, legado e existência humana
Ilustração: Kleverson Mariano
01/10/2026

Nossa vida gira em torno de fantasmas e assombrações. Estamos cercados de mortos insepultos. Bilhões deles. Escritores, artistas plásticos, compositores, músicos, dramaturgos, fotógrafos, cineastas, atrizes e atores, coreógrafos, dançarinos, quadrinistas, arquitetos, engenheiros, inventores, estadistas, juristas, empresários, médicos, filósofos, historiadores, cientistas de todas as áreas, religiosos de todas as doutrinas… Passamos a maior parte do tempo pensando nos mortos e em seu legado, apreciando e conversando sobre seus feitos e defeitos. Estamos cercados de mortos insepultos. Bilhões deles. Nossa vida gira em torno de fantasmas e assombrações.

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Em breve, completarei sessenta anos.

Sessenta voltas em torno do Sol.

Jornada tranquila, prazerosa, em ótima companhia.

Amor, sexo, amizade, respeito, alegria, pessoas incríveis, conforto material, estímulo intelectual, criação literária… Nunca me faltou nada. Realmente não tenho nadinha do que reclamar.

Confesso que não curto nem um pouco a ideia de um dia morrer. Endosso totalmente a queixa de Ionesco: “Por que nasci, se não seria pra sempre?”.

Vejamos treze coisas essenciais que eu aprendi nesses sessenta anos:

1. Aos domingos, o tempo funciona ao contrário e devolve duas horas de juventude a cada xícara de café.

2. Os melhores conselhos financeiros foram oferecidos pelas plantas do pequeno jardim cultivado por minha mulher.

3. Falar a verdade na hora certa faz os móveis e o artesanato — e o gato, obviamente — crescerem alguns centímetros.

4. Dar um bom-dia sincero aos espelhos torna meu reflexo mais jovem e colorido.

5. As estátuas das praças públicas têm um senso de humor duvidoso e adoram declamar Augusto dos Anjos aos gritos.

6. Livros lidos na juventude mudam o texto sozinhos pra adaptar a mensagem à minha idade atual.

7. Caminhar no parque nos feriados altera a temperatura dos oceanos em exatamente dois graus.

8. Escutar A sagração da primavera num volume perigoso diminui a gravidade da casa pela metade.

9. As fotografias antigas da estante sempre trocam de roupa quando ninguém está olhando.

10. Tirar um cochilo de quinze minutos é suficiente pra dissolver o mau humor da humanidade inteira.

11. Barulho em excesso faz a realidade desbotar até virar um desenho em preto e branco.

12. Gargalhar bem alto de uma piada infame impede a Lua de se chocar com a Terra.

13. Escrever literatura atrai mais e mais figuras excêntricas com exigências maravilhosas de papo inteligente.

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Um digno pedido
Prezado universo, meu livro predileto está certamente entre os infinitos livros que eu ainda não li. Está entre os infinitos livros que ainda nem foram publicados. Que ainda nem foram escritos.

Então, querido, precisarei de mais tempo-vida.

De mais dez mil anos, pelo menos.

Talvez um bilhão de anos.

Talvez infinitos.

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Voltando pra casa de metrô, estava eu assistindo no celular a um episódio da minissérie The third day, quando notei Edgar Allan Poe e Andrei Tarkovski entrarem no vagão. Os dois sentaram atrás de mim, então pude capturar um trecho da conversa.

Edgar Allan Poe:

— Na ficção fantástica e na ficção sobrenatural existe um tropo narrativo cuja premissa é muito simples: um local habitado por pessoas aparentemente normais recebe um visitante que aos poucos vai descobrindo que essas pessoas são totalmente bizarras…

Andrei Tarkovski:

— A comunidade com um segredo insólito, batizaram assim. Estou ciente… Esse local imaculado pode ser uma pacata cidadezinha, um vilarejo numa ilha pitoresca, ou até mesmo um sossegado condomínio. Eu já esbarrei em muitos romances, filmes e séries com esse tropo.

Edgar Allan Poe:

— Pois bem… É muito fácil entender por que Twin Peaks é tão surpreendente. Mais do que isso. É genial.

Andrei Tarkovski:

— Não é?! Nessa minissérie, o grandíssimo filho da puta do David Lynch subverteu o clichê de um jeito formidável. O encantador visitante — ele mesmo, o afável agente do FBI Dale Cooper —, sapopemba!, ele é mais bizarro do que todos os moradores de Twin Peaks.

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Lars von Trier? Monteiro Lobato? Louis-Ferdinand Céline?

Ezra Pound? Marquês de Sade? Ronald Fisher? J. K. Rowling? Pablo Picasso? Roman Polanski? Kevin Spacey? Michael Jackson? Woody Allen? H. P. Lovecraft? Virginia Woolf? James Watson?

Santo Agostinho disse: “A graça do sacramento é transmitida mesmo que o ministro seja indigno. Não entenderam? Eu repito: a graça sacramental não depende da condição do ministro — que pode falhar em sua fé pessoal ou em seu comportamento moral —, porque é resultado da ação de Deus”.

Trocando em miúdos, meus queridos: o trabalho bem feito não é anulado nem mesmo pelo fato de o artista ou o escritor ou o cientista ser um grande canalha.

Criaturas indignas também produzem obras-primas e revoluções intelectuais.

Eu sei, meus amores… É phoda. O mundo é mesmo uma tragicomédia deveras injusta. Mas já era assim antes de vocês nascerem e continuará assim depois que vocês morrerem.

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Uma nova contracultura?
Exatamente. Um poeta indignado reclama que está na hora de uma nova contracultura, contra a cultura-de-butique das vitrines consagradas: Flip, prêmios Jabuti, Oceanos e Biblioteca Nacional, Bienal do Livro, programa Entrelinhas, espaços literários da grande imprensa etc.

Nós já temos uma nova contracultura, eu respondo.

Involuntária, a contragosto, mas ainda assim uma nova contracultura. Não é exatamente isso que a ficção futurista brasuca tem sido há mais de três décadas?

Uma contracultura que adoraria ser cultura-de-butique. Animada por autores que matariam pra figurar nas vitrines consagradas. Mas sempre foram esnobados. E sempre serão.

Não há meio-termo. Para a ficção futurista brasuca existem apenas dois caminhos:

• ou ela aceita seu destino e se torna uma contracultura orgulhosa, desprezando as vitrines consagradas da literatura-de-butique,

• ou continuará rastejando e se alimentando dos restos do banquete preguiçoso e esnobe dessa mesma literatura-de-butique.

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Penso frequentemente na morte. Tenho certeza de que não estou sozinho… Penso regularmente em minha morte, na extinção da humanidade e na morte térmica do universo. No fim inevitável de toda a vida, de todo o pensamento, de tudo o que existe.

Saber que o tempo e a entropia reduzirão tudo o que existe à desordem máxima, ao nada absoluto, saber que nenhuma lembrança do que estamos fazendo restará, essa verdade conduz as pessoas a um de três caminhos: o niilismo moderado (cultivar a frágil fantasia de que supostas divindades nos salvarão), o niilismo desesperado (pra que viver se a vida caminha para a derrota?) ou o amor fati (a vida é um milagre, uma chama temporária acesa na vasta escuridão).

No vale da sombra é o título do comovente capítulo dezenove do livro póstumo Bilhões e bilhões, de Carl Sagan. Nesse depoimento, o astrônomo relata sua dura batalha contra a mielodisplasia e reflete de forma profunda e pragmática sobre a finitude da existência humana, a inexistência de alma imortal e a inevitável morte térmica do universo. Inteligência destemida.

Olyveira Daemon

É ficcionista e crítico literário. É autor de Poeira: demônios e maldições e Ódio sustenido, entre outros.

Rascunho