Vamos falar mais um pouco de literatura-artesanato.
Lembrando que a literatura-artesanato joga a favor do cânone, respeitando as regras do jogo. Enquanto a literatura-arte joga contra o cânone, transgredindo as regras do jogo.
Lembrando que a literatura-artesanato privilegia o enredo, sempre complexo, e a objetividade. Enquanto a literatura-arte privilegia a linguagem, sempre complexa, e a subjetividade.
Lembrando que a literatura-artesanato favorece a linguagem transparente, referencial, concreta, exata, literal, jornalística. Enquanto a literatura-arte favorece a linguagem opaca, hermética, abstrata, ambígua, figurada, poética.
E o mais importante: lembrando que entre o artesanato e a arte não existe hierarquia, mas trânsito intenso & virtuoso. Em ambos, o talento ou a mediocridade decidem o destino das obras. No artesanato e na arte, com igual frequência brilham gênios & tropeçam medíocres.
1.
Estou reunindo forças & coragem pra enfrentar até o fim esse formidável épico esotérico. Nos anos 1990 eu li o primeiro volume.
De 1979 a 1983, Doris Lessing publicou os cinco romances de ficção científica que formam a pentalogia Canopus em Argos: arquivos.
1. Shikasta
2. Casamento entre as Zonas 3, 4 e 5
3. As experiências de Sirius
4. O planeta 8: operação-salvamento
5. Os agentes sentimentais no império Volyen
No Brasil, a série foi lançada pela Nova Fronteira.
Em 2007, a autora recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.
Harold Bloom achou a premiação um erro e chamou a pentalogia Canopus em Argos: arquivos de “ficção científica de quarta categoria”: “Ainda que a senhora Lessing no início de sua carreira tenha tido algumas qualidades admiráveis, considero seu trabalho nos últimos quinze anos bastante ilegível… ficção científica de quarta categoria”.
Isso prova que nem mesmo o crítico mais sagaz consegue escapar de um momento de estupidez.
2.
Quando Matrix foi lançado, em 1999, o filme me pareceu tão bom quanto Neuromancer, publicado em 1984. De certo modo as duas obras se completavam. Mas em duas décadas e meia isso mudou. Recentemente revi Matrix e reli Neuromancer. O filme envelheceu muito mal, enquanto o romance continua magnífico, um moleque serelepe, vigoroso.
O cinema ainda é uma arte muito jovem: cento e cinquenta anos. Especialmente no campo da ficção científica, ele depende de recursos técnicos & efeitos visuais que tendem a se tornar datados à medida que novas tecnologias são incorporadas à indústria. Elementos que inicialmente produziram forte impacto visual hoje revelam limitações técnicas próprias do período de produção.
Já a literatura existe desde a invenção da escrita há cinco mil anos. Diferentemente do cinema, ela não está presa às modernas condições materiais de atualização tecnológica. Essa liberdade contribui para uma apreciação mais estável dos textos ao longo do tempo.
Além disso, a força do romance de William Gibson se sustenta graças a uma prosa transparente & referencial, mas excêntrica, e uma construção narrativa bastante complexa, que evitam explicações excessivamente didáticas. É o triunfo do mistério. O romance demanda maior participação interpretativa do leitor, preservando ambiguidades & lacunas significativas.
Em contraste, o filme optou por se aferrar ao famigerado roteiro da Jornada do Herói, hoje tão desgastado. E também optou por explicitar nos mínimos detalhes seus pressupostos filosóficos, o que diminuiu sua densidade interpretativa em revisões posteriores. Explicar demais, responder a todas as perguntas, é sempre pior do que explicar pouco, cultivar o mistério. Eu repito isso regularmente nas oficinas de criação literária.
Mas pensando bem… Talvez seja muito injusto comparar duas obras de esferas tão diferentes. Talvez fosse bem mais sensato & produtivo comparar filmes com filmes & livros com livros. De qualquer modo, sempre haverá o valor da nostalgia. Ter estado na sala de cinema na estreia de Matrix, ou Blade runner, ou Star wars {quando ainda se chamava apenas Guerra nas estrelas, em português mesmo}, a surpresa com a novidade tecnológica, a sensação de contato com algo formalmente inovador, tudo isso reforçou bastante até mesmo meu amor pela FC literária.
Mas são filmes que eu parei de recomendar às novas gerações. Para os mais jovens o horizonte de expectativas é outro. A experiência que nós, velhotes, tivemos na estreia, a intensidade específica dessa primeira recepção, será sempre irrecuperável.
3.
Obras produzidas pela indústria cultural, para as massas, geralmente perdem o valor com o passar do tempo. Essa é a regra inexorável.
Mas essa regra também prevê os pontos fora da curva: obras populares que séculos depois se tornam arte erudita. Afinal, o que é popular muitas vezes captura a essência de sua época — o famoso zeitgeist —, tornando-se esteticamente ou historicamente relevante com o passar dos anos.
Dom Quixote, de Cervantes, surgiu como uma paródia popular dos romances de cavalaria, um best-seller de entretenimento, generoso em humor & aventura. Hoje essa narrativa é considerada o primeiro romance moderno, uma obra-prima da literatura erudita mundial.
O mesmo aconteceu com várias peças de Shakespeare. Hamlet, escrita para o teatro popular de Londres, focada em atrair o público geral com suspense, fantasmas & violência, hoje é o maior exemplo de literatura erudita estudada academicamente.
Mais recentemente tivemos Orgulho e preconceito, de Jane Austen, Oliver Twist, de Charles Dickens, O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, A máquina do tempo, de H. G. Wells…
Bom, eu dei essa volta toda apenas pra afirmar que, em duzentos anos, o mangá Shingeki no kyojin será considerado uma obra-prima de nossa época. Certeza absoluta. Arte erudita estudada academicamente. Uma obra da mesma estatura de Dom Quixote & Hamlet.
4.
Na ficção futurista literária da primeira metade do século 20 me agrada sobretudo a visão simplista, até mesmo ingênua, dos planetas do sistema solar.
Gosto de reler as space operas em que Vênus & Marte oferecem uma atmosfera e uma gravidade semelhantes às de nosso planeta. Nesses contos & romances ainda não tocados pela astronomia moderna, Vênus surge coberto por formidáveis florestas tropicais semelhantes à floresta Amazônica e Marte surge coberto por formidáveis desertos de areia não muito diferentes do nosso Saara, com o acréscimo dos vastos canais, um exemplo da antiga engenharia de uma civilização extinta.
Vênus & Marte do arco-da-velha… Em ambos, os exploradores humanos perambulam livremente, sem a necessidade de complicados trajes pressurizados. Adoro essa representação fantasiosa.
Na adolescência, meu primeiro contato com a ficção futurista literária foi A legião do espaço, de Jack Williamson. Esse romance saiu na famosa coleção Mundos da Ficção Científica, capitaneada pelo crítico & ficcionista Fausto Cunha, para a Francisco Alves. Essa aventura espacial e O ser assassino, de Kate Wilhelm, publicado pela Sabiá na coleção Asteroide, trazem Vênus & Marte previamente terraformados, para o nosso deleite.
Meses depois eu devorei As crônicas marcianas, obra-prima de Ray Bradbury, também pela coleção Mundos da Ficção Científica. Então eu vos digo que a melhor versão desses planetas, a mais poética, está nessas ficções e em narrativas semelhantes.
Os pântanos de Vênus e os canais artificiais de Marte existem. Se os fatos astronômicos provam o contrário, pois bem, pior para os fatos. Ficarei sempre com a poesia.