1.
Meus amores, acalmem-se. Eu sei que está doendo, mas esse quebra-quebra não vai mudar nada. As coisas são como as coisas são, não como a gente gostaria que fossem. Entendam: arte e literatura de alto nível exigem dedicação e estudo aprofundado. Exigem repertório cultural. Arte e literatura de alto nível não são para todos, meus amores, são para poucos. Por isso, essas raras e refinadas experiências estéticas são e sempre serão elitistas. Arte e literatura de alto nível são para a elite cultural {não confundir com a elite financeira, onde a semicultura se concentra}. Titio Adorno… Adoro ele… Lembram do meu queridíssimo tio Adorno? Titio Adorno fala da semicultura, dos semicultos: pessoas que colecionam lampejos mais ou menos padronizados e degenerados de alta cultura… Meus amores, são esses colecionadores-acumuladores que até bem pouco tempo atrás vociferavam contra a querida Aurora Fornoni Bernardini, entendem? Leitores de literatura-artesanato apenas, defendendo obras mais conservadoras, mais confortáveis no assunto e na linguagem. Obras domesticadas, sem a inquietação selvagem e as subversões mordazes da literatura-arte. Leitores sedentários, que não malham o intelecto, repetindo a velha falácia populista: “o que é arte e literatura de alto nível é a população semiculta quem decide”. Papo-furado pra ganhar voto, meus amores. Mas não se desesperem! Hu-haa! A solução está ao alcance de todos, sempre esteve. Para os semicultos mais rancorosos, eu recomendo puxar ferro, malhar bastante o intelecto, ganhar massa cultural numa boa academia de ginástica para o pensamento crítico e estético. Único modo de ingressar no seleto e elitista escrete da alta cultura. Quem me falou foi titio Adorno e outras centenas de titios musculosos pracaraleo: artistas, poetas, ficcionistas, historiadores e filósofos fitness que eu amo de paixão. Em resumo: menos calor e mais luz, por favor, meus queridos. E muito mais flexões e polichinelos.
2.
Maior dentro do que fora. Outra esquina. Dobro à esquerda: mais surpresas. Um deserto de areia, uma galáxia, um coração pulsante, uma favela. Me perco entre vidas. Entre amores e rancores. Outra esquina. Estou sozinho? Quando cheguei, não estava. “Cadê Tereza, onde anda minha Tereza?” Assovio bem alto a canção de Jorge Ben Jor, mas minha Tereza não aparece. Perdeu-se também. Continuo. Outra esquina. Sempre maior dentro do que fora. Dobro à direita: sombras e reflexos sem pessoas. Uma violência, um gesto de gentileza, marcianos, planetas à venda. Alameda após alameda, me embrenho no tempo. Ontem-hoje-amanhã. Levo uma rasteira de mangá. Artes marciais, samurais, monges, poemas da China, do Japão. Guerra e paz. As paredes do labirinto estremecem. Paredes-estantes. Galerias-livros que sempre me perdem. Amor de perdição. Momentânea dissolução do ego. Hu-haa! Delícia ociosa, deliciosa… Sempre maiores dentro do que fora. Adoro me perceber desaparecer nas formidáveis bibliotecas públicas deste meu Brasil varonil.
3.
Genios también tienen sus deliciosos momentos de estupidez. Ejemplo: Mário de Andrade diciendo que “conto é tudo aquilo que o autor quiser chamar de conto”. Tá bom… Resolvi llamar meu pé izquierdo de cuento. Aliás, minha mulher está me avisando que meu cuento está un vexame. Parece que ya passou mucho de la hora de aparar las unhas.
4.
> FORMA e CONTEÚDO, uma relação inseparável?
> besteira
> papo-furado
> centenas de teóricos, uns mais inteligentes, outros menos, ficam afirmando que “em arte e literatura não existe separação entre FORMA e CONTEÚDO, porque o meio É a mensagem”
> besteira
> papo-furado
***
> lembram dos MythBusters, vocês assistiam?
> os caras usavam o método científico — e bastante bom-senso — pra testar a validade de mitos, provérbios, estereótipos, crenças populares etc.
> considerem esta breve brisa um spin-off da série de tevê
***
> não existem sinônimos perfeitos
> MAR não é o mesmo que OCEANO
> AMOR não é o mesmo que PAIXÃO
> MULHER não é o mesmo que FÊMEA
> CÉU não é o mesmo que FIRMAMENTO
> meu primeiro professor de português nos ensinou essa verdade inabalável, no sexto ano do ensino fundamental
> não existem sinônimos perfeitos
> palavras diferentes designam coisas diferentes — variando apenas o grau da diferença —, do contrário não precisaríamos de palavras diferentes, concordam?
> por isso a célebre divisa de Marshall McLuhan não faz sentido:
> o meio É a mensagem
> naum!
> se o meio de comunicação realmente fosse inseparável da mensagem — se ele FOSSE a mensagem —, não precisaríamos de duas palavras pra designar a mesma coisa
> o meio NÃO É toda a mensagem
> o meio é PARTE da mensagem
> esse raciocínio também vale para a tolice de afirmar que FORMA e CONTEÚDO são inseparáveis, indivisíveis, indissociáveis, vale dizer, são a MESMA coisa
> se fossem realmente a mesma coisa, pra que duas palavras?!
> FORMA e CONTEÚDO são, na verdade, as duas faces da mensagem artística ou literária
> toda FORMA conduz um CONTEÚDO e todo CONTEÚDO é conduzido por uma FORMA
> o mesmo vale pra LINGUAGEM e ENREDO, nas obras narrativas, e LINGUAGEM e ASSUNTO, nas obras abstratas
> até mesmo a música, a pintura, a dança, a instalação, a performance, o filme ou o poema de linguagem mais abstrata possuem um assunto que se distingue
> ou seja, nem sequer os poemas fonéticos de Hugo Ball e as pinturas gestuais de Jackson Pollock escapam dessa premissa
> no poema fonético, a sequência de sons puros ainda é a decisão de um determinado corpo humano, num tempo histórico, para uma audiência específica
> no poema fonético, o assunto também é a performance do poeta fuzilando a audiência com palavras e frases sem sentido semântico
> na pintura gestual, a sequência de gestos caóticos ainda é a decisão de um determinado corpo humano, num tempo histórico, para uma audiência específica
> na pintura gestual, o assunto também é a performance do pintor dançando ao redor da tela e disparando chapadas rajadas de tinta
***
> o chamado CÍRCULO HERMENÊUTICO é um processo dinâmico e progressivo de entendimento, que só existe porque FORMA e CONTEÚDO são substâncias diferentes
> na análise literária, o círculo hermenêutico busca a compreensão de qualquer texto no movimento contínuo do nosso olhar entre o todo e as partes do poema, do conto, da crônica, do romance etc.
> o todo pede a amplitude do telescópio enquanto as partes pedem o detalhamento do microscópio
> ao analisar um texto literário, entendemos suas partes — as partes da FORMA e as partes do CONTEÚDO — a partir de uma ideia provisória do todo, e essa ideia do todo é constantemente revista à medida que interpretamos melhor suas partes
> percebem? temos aqui um processo dinâmico e progressivo
> então, quando alguém vier com esse papinho de “FORMA e CONTEÚDO, uma relação inseparável”, deem partida no motor e fujam o mais rápido possível para as montanhas do bom-senso