Regina Correia

Ensaio fotográfico de Regina Correia
Foto: Ozias Filho
01/10/2026

(…) E eu vou inventando rosas para ti/
neste lugar onde já não há. (…)

O silêncio é matéria incandescente nas palavras de Regina Correia, que procuram dizer mais além, escutar aquilo que permanece quando o mundo se cala. Este silêncio que em relâmpagos se desfaz pertence à linhagem dos livros que fazem da palavra um instrumento de escavação da perda, da memória e do amor. O livro organiza-se em fragmentos numerados, como estações de uma longa travessia interior. Não há aqui uma narrativa linear, mas uma sucessão de visões, lampejos e assombrações que se unem pela força de um mesmo campo emocional.

O silêncio aqui sublimado não é ausência, mas energia acumulada; não é vazio, mas clarão prestes a romper-se. O grande tema é a perda. A morte atravessa o livro como uma presença constante, por vezes explícita, outras, insinuada na erosão das coisas e na fragilidade dos afetos. Contudo, a escritora luso-angolana evita a armadilha da elegia convencional. O luto surge como território de interrogação, onde a palavra procura compreender aquilo que jamais poderá ser plenamente explicado. A dor não é apenas vivida, mas pensada, observada, transformada em linguagem.

A autora revela que a poesia lhe permitiu cortar o cordão umbilical que a ligava à mãe, sem nunca perder o que verdadeiramente importava; acrescenta, com a lucidez de quem habitou o fundo do abismo: “morri-me, morreram-me, e morro-me um todos os dias”. É deste lugar — onde a morte do outro e a morte de si se confundem — que nasce a palavra que não consola, mas nomeia; não apazigua, mas ilumina. A poesia como “salvação do eu”, terapia sem terapeuta, na qual o silêncio se torna voz, e a voz, respiração.

Neste território é construída uma imagética poderosa, povoada por lírios, corvos, desertos, ilhas, rios ensanguentados, aves e sombras; elementos que não funcionam como simples ornamentos simbólicos, mas como arquitetura profunda da sua poesia. A natureza surge como espelho do drama humano, enquanto a paisagem exterior se converte numa geografia da alma. Em muitos momentos, a poeta aproxima-se de uma dimensão quase mítica, onde convivem ecos bíblicos, memória cultural e inquietação existencial. E “a paisagem”, diz Regina, “é biográfica, muito ligada à respiração dos lugares”. O mar e o deserto, em particular, são presenças fundadoras. O mar que a trouxe na barriga da mãe, quando regressaram de Angola, é o mesmo mar que a levou de regresso à sua outra pátria. Já o deserto a fez regressar a si mesma.

Mas é injusto reduzir o livro ao tema da morte, pois há no seu chamamento uma persistente defesa da palavra e do amor; uma chama. Mesmo quando tudo parece encaminhar-se para a ruína, permanece a convicção de que o poema é uma forma de resistência. “É o poema que desenha a paisagem.” Nesse ilustrar com palavras e silêncios por dentro delas, a autora não se limita a fixar o que vê; antes, devolve ao mundo a sua própria respiração, tecendo com os fios da memória uma morada possível para a dor e para o desejo.

Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho
Regina Correia
Nasceu em 1951, em Viseu, Portugal. É licenciada em Filologia Germânica. Foi professora do ensino secundário em Angola, Portugal e Alemanha. Coordena recitais de poesia e projetos culturais, sobretudo junto a instituições cabo-verdianas. Venceu o prêmio literário da editora ZL, no Brasil. Além de participar de antologias de poesia, publicou sete livros, dois de ficção e cinco de poesia. É membro da Associação Portuguesa de Escritores e da Associação PEN Portugal. Integra o Grupo Voz Terra (música de Cabo Verde). Luso-angolana, participou da primeira Reunião Multipartidária de Angola, em 1992.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É escritor, fotógrafo e editor. Publicado no Brasil e em Portugal, é autor de vários livros de poesia, entre os quais Poemas do dilúvio, Páginas despidas, O relógio avariado de Deus, Insulares, Insanos, Os cavalos adoram maçãs, O avesso da casa e Um anjo com a boca pintada de sangue. Participou em diversos festivais literários, incluindo o Folio (Festival Literário Internacional de Óbidos) e encontros promovidos pela Fundação José Saramago e pela Casa da América Latina. Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho