(…) Perdi a identidade desde que ela nasceu.
Já me tinham dito que esta perda fazia parte de ser mãe.(…)
Não é apenas uma ligação física entre mãe e filhos, mas um elo emocional que persiste, transforma-se e, por vezes, aprisiona. Fala-se da maternidade como um território de dualidades: a mãe que perde um filho e carrega um luto invisível; a filha que oscila entre afastar-se e aproximar-se dos pais; a mulher que, ao dar à luz, vê a sua identidade dissolver-se sob o rótulo social de “mãe de”. O grito silencioso, que expressa tanto o amor incondicional quanto o medo da perda, a insanidade repentina diante da dependência absoluta de um novo ser e a dor de um corte abrupto, imposto ou desejado. Este é o cordão que ama, asfixia e desvela a maternidade: um Grito umbilical, literário e necessário, de Margarida Azevedo.
É construída uma metáfora visceral e perturbadora, no livro: um cordão umbilical físico, nunca cortado, que liga permanentemente a mãe à sua filha, desde o nascimento. A imagem poderosa, que à primeira vista pode sugerir um realismo mágico, revela, na verdade, a materialização crua de complexidades psicológicas profundas. A obra nasceu como uma comédia do absurdo, mas transformou-se radicalmente quando a experiência da maternidade e a proximidade com a dor de uma perda fetal confrontaram a escritora com as camadas de significado por detrás daquela ligação literal.
E assim se constrói um texto em contextos que mais parecem um turbilhão de emoções: a felicidade que se confunde com tristeza; o corpo que já não se reconhece no espelho; a privação de sono que redefine a noção de normalidade; a sociedade, que pinta a maternidade de cor-de-rosa, ignorando as suas sombras.
Paralelamente, surge a reflexão sobre a identidade perdida e refeita: “a Simone antes de ser mãe” e que agora é “a mãe da Valquíria”. Duas mães numa só pessoa, mas que não são. Uma cisão vivida pela própria escritora, que admite ter lutado para não desaparecer atrás do papel maternal. A peça questiona como a sociedade despersonaliza a mulher, reduzindo, ou até mesmo apagando, o que existia até ao nascimento dos filhos; perde-se, a partir deste momento, o nome, a vontade e a identidade própria.
A narrativa literária que daí emerge não é apenas sobre a maternidade, mas sobre a humanidade frágil que habita tanto quem cuida quanto quem é cuidado. Mostra que cortar o cordão — seja pela saudade, pela dor, pela necessidade de identidade ou pela simples sobrevivência emocional — é um ato de coragem e, muitas vezes, de luto.
No fim, fica a compreensão de que, mesmo invisível, o cordão insiste em costurar histórias de vida, unindo de forma perene Simone e Valquíria, do livro; Margarida e a sua filha, da vida real; e todas aquelas que carregam, no silêncio ou no grito, o peso e a leveza de um amor que não sabe morrer. É nessa permanência que residem tanto a ferida quanto a cura.

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