Israel Campos

Ensaio fotográfico de Israel Campos
Foto: Ozias Filho
01/04/2026

A revolta silenciosa de uma geração — assim se poderia definir o que encontramos em E o céu mudou de cor, de Israel Campos. O livro é, num só tempo, um soco no estômago e um sopro de esperança; não é um simples relato de um jovem a crescer numa qualquer latitude, que aqui se reconhece como Angola. É um retrato alegórico preso nas teias do autoritarismo, da desigualdade e da perpetuação de um sistema que oprime, enquanto se alimenta de retórica revolucionária.

O escritor ergue um espelho diante de um país que ainda aprende a lidar com as próprias contradições. As camadas profundas que sustentam essa narrativa, revelam uma escrita que não é apenas um meio de comunicação com o outro, mas um dispositivo de diálogo consigo mesmo — um espaço íntimo onde o indizível encontra abrigo. Essa ideia, que o acompanha desde a infância, materializa-se no livro através do recurso às cartas; um elemento narrativo que, longe de ser original, ganha contornos de urgência quando situado num cenário onde o silêncio ainda é, muitas vezes, uma imposição.

O que à primeira vista poderia parecer uma escolha estética, revela-se, na verdade, uma estratégia para contornar o silêncio imposto num “contexto politicamente sensível”, e é precisamente isso que as cartas no romance ajudam a traduzir; não apenas veículos de enredo, mas espelhos das limitações à liberdade de expressão que ainda persistem em Angola. Ao colocar personagens que trocam correspondências, sublinha-se o paradoxo de um país onde, por um lado, os meios de comunicação simulam uma abertura globalizada e, por outro, há uma realidade económica e política que continua a oprimir, sobretudo os mais jovens.

Mas até que ponto a literatura realmente altera esse estado de coisas? Para Israel, tem a potencialidade de despertar consciências, de levar à reflexão cívica e política, ainda que os seus efeitos não sejam imediatos ou mensuráveis. E, sobretudo, tem a capacidade única de nos fazer habitar a pele do outro. É essa humanização que defende como o grande potencial da literatura.

O autor pertence a uma geração que nasceu pouco antes do fim do conflito armado, herdeira de familiares que viveram o colonialismo e a guerra. São os “filhos dos filhos da geração da utopia”, e que carregam a urgência em ver o país concretizar-se. Longe do estereótipo do jovem que só pensa em emigrar e ganhar dinheiro, o escritor enxerga nos seus contemporâneos um inconformismo ativo, uma vontade de intervir em múltiplas frentes, das artes à política.

No fim, o que fica é a imagem de alguém profundamente enraizado no seu tempo e no seu lugar, mas que fala a partir de Angola para o mundo. O livro não é apenas um retrato geracional ou uma denúncia política; é também uma interrogação sobre o que significa ser livre num país que ainda aprende a sê-lo. Questionado se o seu primeiro romance é utópico, responde sem hesitar que sim. A sua utopia, porém, não é ingénua; nasce do inconformismo e da crença de que o seu país “tem tudo para dar certo”, e este romance, E o céu mudou de cor, quer dar um contributo, sem oferecer respostas simplistas, mas abrindo espaço de reflexão através da palavra.

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

 

Israel Campos
Nasceu em Luanda (Angola), em 2000. Escritor, jornalista e pesquisador, é autor do romance E o céu mudou de cor (2023), e coorganizador da antologia Construir amanhã com barro de dentro – Vozes do pós-independência (2025). Integra a coletânea Instances of exceptional moments of hunger: Stories from the CANEX Creative Writing Workshop 2024 (2026), resultado de uma residência literária orientada por Chimamanda Ngozi Adichie. O seu próximo livro de contos, Baloiço de memória, venceu o Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda e será publicado em breve. Venceu também o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (2025). Atualmente, é doutorando em Media e Comunicação na University of Leeds, no Reino Unido.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É escritor, fotógrafo e editor. Publicado no Brasil e em Portugal, é autor de vários livros de poesia, entre os quais Poemas do dilúvioPáginas despidasO relógio avariado de DeusInsularesInsanosOs cavalos adoram maçãsO avesso da casa Um anjo com a boca pintada de sangue. Participou em diversos festivais literários, incluindo o Folio (Festival Literário Internacional de Óbidos) e encontros promovidos pela Fundação José Saramago e pela Casa da América Latina. Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho