(…) a arte masturba-se e todos pagam avultadas somas para ver o chão manchado
Num tempo em que a poesia parece muitas vezes refugiar-se no egocentrismo temático, a voz de Cobramor surge como um rebento agreste a romper o concreto dos jardins literários bem-comportados. Seu projeto poético, particularmente visível em A boca cheia de cadáveres, não é um mero exercício de estilo, mas um ato de sabotagem literária consciente. O escritor rejeita a figura do “poeta” como um ser superior, enclausurado numa torre de marfim formal, e assume-se antes como um operário da palavra, cujo trabalho se funde com outras esferas da vida. Sua recusa em ser catalogado como tal — “ganhei um horror a dizerem que eu sou poeta” — é mais do que uma mera pose; é uma declaração de princípios contra a elitização de um gênero que, em sua visão, deve ser um instrumento de ruptura e conexão coletiva.
Essa postura desassossegada é filha de uma linhagem que bebe tanto da Internacional Situacionista quanto do punk rock. Assim como os situacionistas ambicionavam dissolver as fronteiras entre a arte e a vida cotidiana, Cobramor procura inscrever a poesia no ruído do mundo, na cacofonia do presente. Sua escrita não é um refúgio, mas um campo de batalha, no qual ele identifica com precisão cirúrgica uma das carências da poesia contemporânea: “acho que, em primeiro lugar, na maior parte dos casos é autista e autocentrada. Isso são características que eu não suporto em nada, em particular na arte e na literatura”. Contra esse enclausuramento, ele opõe uma escrita que se pretende desde um “lugar coletivo”, uma voz que, sem negar a experiência pessoal, se alarga para abraçar e interpelar a comunidade.
Sua estratégia estética é, por isso, tão relevante quanto seu conteúdo político. Consciente da rapidez em que vivemos, num mundo cada vez mais preso às telas onipresentes, o escritor não se limita a lamentar o fato; pelo contrário, decide infiltrar-se e sabotar a partir de dentro. Diz: “por que é que eu não hei de estar a usar o meio em vez de ser o meio a usar-me a mim?”. Essa é a lógica do bombista suicida literário que ele próprio menciona, uma metáfora extrema que define sua vontade de usar as próprias ferramentas do sistema — a brevidade, o fragmento, a formatação para as redes sociais — para dinamitar tudo. Os interlúdios breves e incisivos de seu livro são, assim, pequenos engenhos explosivos linguísticos, concebidos para detonar nos oito segundos de atenção do leitor contemporâneo.
Sua busca não é, portanto, por uma pureza formal, mas por uma estética que seja o equivalente literário de “uma mistura de punk com free jazz”. Cobramor não nos oferece consolo, mas um convite à insurreição da linguagem, lembrando-nos de que, diante de uma boca cheia de cadáveres, a única resposta possível é cuspir fogo.

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