Técnica e vanguarda em Graciliano (2)

“Vidas secas” revela a força vanguardista de Graciliano Ramos, cuja escrita visual seduz o leitor por meio do olhar das personagens
Graciliano Ramos, autor de “São Bernardo” e “Vidas secas”
01/02/2026

Um olhar paciente e cuidadoso sobre a obra de Graciliano Ramos nos leva a acreditar que não se trata de um autor insípido, distante e seco, como se acreditou durante muito tempo. Sem negar as qualidades desse notável ficcionista brasileiro, nordestino e sertanejo, antes destacadas, dou prosseguimento aqui ao exame dos painéis que enriquecem sua obra, analisando-a a partir daquela estratégia ficcional que chamo de A sedução do leitor, iniciada na coluna anterior.

No seu modo absolutamente criativo e vanguardista de seduzir o leitor — mais estratégia do que técnica —, que consiste em provocar estranheza, surpresa ou susto, com alternância de imagens ou de visões através do “olhar do personagem”, Graciliano Ramos desenha mais do que escreve os textos de Vidas secas, como demonstrei no artigo de janeiro, ao analisar o painel do olhar do personagem do menino mais velho até o momento do desmaio, quando ele deixa de ver, pelo óbvio.

Impedido de olhar e, portanto, de construir a narrativa, Graciliano transfere a imagem ao pai, Fabiano, por meio de um novo e surpreendente painel: “Fabiano espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo: ‘a caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso, salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos ao redor dos bichos moribundos’”.

Observe-se que Fabiano só começa a ver — aliás, a espiar — colorido na pintura de seu painel monótono, quase em preto e branco, quando o menino mais velho fecha os olhos. Aí a caatinga tem um vermelho indeciso, não um vermelho qualquer, salpicado de manchas brancas que substituem as manchas verdes do painel do menino mais velho. Destacando-se o plano da visão, em Fabiano o voo negro dos urubus está no alto, e as manchas brancas arrastam-se no chão, porque são ossadas — visagens que se movem para formar o chão e o céu sertanejos.

Um terceiro painel — destacado nas palavras anjinho e bracinho — pertence a sinhá Vitória, o que tira do Velho Graça a pecha de autor insípido e distante, como a crítica fez acreditar. É verdade que, pouco antes, o narrador levara o leitor para o diminutivo. Assim: “Aí a cólera desapareceu, e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se”.

Raimundo Carrero

É escritor. Autor, entre outros, de Seria uma noite sombria Minha alma é irmã de Deus. 

Rascunho