Se há um escritor brasileiro com absoluto domínio da técnica da narrativa e da vanguarda ficcional no país, esse escritor chama-se Graciliano Ramos, que pinta mais do que escreve a revolucionária novela Vidas secas, que nem é mesmo uma novela, mas um livro de contos com a reunião de painéis construídos pelo olhar do personagem — uma técnica ousada que tira do autor a responsabilidade do texto, resultando naquilo que chamamos de “a sedução do leitor”, estratégia criada para provocar estranheza, engano, susto, ausência, mudança de nomes, de cenários e de estilo.
No olhar do personagem, encontramos o que é visto e, muitas vezes, analisado, distanciando o leitor daquilo que parece narrado, por isso mais pintado do que escrito, num painel que se move e que enriquece o cenário. Muito mais uma paisagem do artista do que um cenário, como se costuma dizer, a lembrar aquela questão de Hegel ao contrapor o belo artístico e o belo natural.
De que maneira isso acontece? No primeiro parágrafo deste livro de contos, e não de uma novela, chamado Mudança, o que aparece é um painel, e não uma paisagem ou um cenário, conforme a expressão teórica, porque, embora sirva à movimentação dos personagens, é um momento para expressar o que o menino mais velho vê, e não apenas um local, uma área ou um espaço destinado à emoção do leitor, tomado aqui pela impressão humana em que se verifica, sobretudo, a manifestação dos personagens pela visão do outro.
Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas.
O “grupo” não é apenas um grupo, mas “os infelizes”, “cansados e famintos”, na expressão do “olhar do personagem”, que é o menino mais velho vindo de trás e, portanto, em condições de quem vê amplamente, pintando este painel de que estamos falando.
Somente depois de distinguir os infelizes, o menino passa a examinar um a um quem são eles:
Ordinariamente andavam pouco. Arrastavam-se para lá, devagar, sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano, sombrio, cambaio, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se.
Aí se percebe que o narrador, ou o menino mais velho, tocado pela figura dos pais, “pôs-se a chorar, sentou-se no chão”.
Mas, antes disso, os juazeiros ganham vida própria numa visão atormentada e também infeliz. Por isso aproximaram-se, recuaram, sumiram-se.
Tudo por conta do olhar do menino mais velho neste imenso e magnífico painel. Agora, porém, está sentado, e seus olhos não podem mais narrar. Pelo menos por enquanto.