O ventre da Revolução

“A mãe”, de Górki, é acentuadamente político e revolucionário, pelo conteúdo e pela linguagem crua, direta e contundente
Górki, autor de “A mãe”
01/04/2026

Há livros que a gente conhece ainda no tempo da formação e que, apesar de todos os tormentos da vida e da literatura, ficam ali escondidos no sangue e, de vez em quando, arrebentam no consciente com a força da eternidade. Um desses livros, encontrado ainda nos antigos tempos na pequena e breve biblioteca do meu irmão Francisco, embaixo da loja do meu pai, em Santo Antônio do Salgueiro (PE), é A mãe, de Górki — acentuadamente político e revolucionário, pelo conteúdo e pela linguagem crua, direta e contundente, com personagens que saem diretamente das páginas para as ruas repletas de rebeldia, de bandeiras e de luta. De uma luta, aliás, que alimentaria os nossos sonhos de igualdade e de justiça, fragmentados durante a vida, mas jamais empoeirados, sempre renovados, iluminados e altivos.

Vocês conhecem, não conhecem? Impossível não conhecer. Perguntem ao sangue e ele responderá, voltarão os gritos da juventude, os soluços da guerra sempre adiada, mas jamais o choro da covardia. Lembrem-se de Palagea, a protagonista de A mãe, apanhando brutalmente do marido para se transformar naquela revolucionária que invade as ruas para lutar pela dignidade e pela justiça. Um dia venceremos. Era palavra de ordem que, ginasianos, proclamávamos sempre, na esperança de um mundo mais livre, mais humano, mais digno — com certeza, mais digno.

Ninguém pode esquecer aquela cena em que Palagea conduz a bandeira com um encanto de quem vive de verdade e não na ficção. Isto foi o que aquela cena me despertou desde a primeira leitura, ainda um menino de quase dez anos no serão de Pernambuco. Li e reli o romance, tomado por uma emoção que poucas vezes senti em minha vida de leitor e de escritor, até porque era uma época de quem se vê tomado pela literatura embriagadora. Minha cidade, no entanto, tinha poucos operários, destacando-se pequenos agricultores, quase todos destruídos pelas secas. Os poucos operários trabalhavam num curtume com produção mínima, vendida ao chamado Curtume Carioca.

Destaque-se que o livro de Górki, escrito em linguagem naturalista, de forma direta e incisiva, traz personagens vivendo em estado de miséria e sacrifício, o que resulta em constantes revoltas. A partir desse volume revolucionário surgiram os sindicatos que proliferaram por toda a Europa, sugerindo um rigoroso estado de rebelião a ponto de fazer surgir as primeiras leis trabalhistas. Nesse sentido, é mesmo um volume revolucionário.

Raimundo Carrero

É escritor. Autor, entre outros, de Seria uma noite sombria Minha alma é irmã de Deus. 

Rascunho