A simplicidade da dor permanente

Romance de Clarice Freire aborda dor, silêncio e amor em narrativa de tensão íntima e força existencial entre duas irmãs
Clarice Freire, autora de “Para não acabar tão cedo”
01/03/2026

Lia e Augusta carregam nos ombros a dor de viver permanentemente em agonia e angústia. Poderia ser assim o argumento de Para não acabar tão cedo, romance tão sincero e belo quanto verdadeiro da pernambucana Clarice Freire, ela própria bela e simples, de uma simplicidade aflitiva, ainda jovem, bem jovem, com um rostinho singelo, dando a impressão de que vai chorar a qualquer momento, mesmo numa conversa séria e lenta, sem espaço para lamentações. Até suas personagens não se lamentam, na maior parte do tempo carregando seus silêncios pela intimidade da casa, em tudo se parecendo com um templo de solidão e desencanto, assim escrito na página 17:

E caminhou por outros cômodos do apartamento abarrotado de antiguidades, móveis de madeira escura e bem talhada, plantas de todos os tipos, livros, muitos livros, pratas, cristais, xícaras, taças, inúmeras fotos dispostas em porta-retratos que não combinavam entre si, sobre cômodas e mesinhas. Pelas paredes, pôsteres já um tanto encardidos que continham enormes fotografias com pontos turísticos de diversas partes do mundo, além de uma imagem emoldurada de Jesus Cristo Crucificado, que abria e fechava os olhos na medida em que alguém passava por ele.

Ambiente de absoluta solidão. Completando, desolada: “Tudo estava adormecido. Presente no ontem adormecido em que estivera Augusta”.

Mesmo assim, não é um romance intimista, cabendo à autora, inteiramente diferente do narrador, recorrer ao olhar do personagem, que mantém a história no plano exterior, sem perder o plano interior com sua força e sua inquietação, observando-se aí o texto em oposição, conforme a classificação de Flaubert:

Lia não conseguia se levantar da cama e fugir daquela invasora que, talvez, tivesse as piores intenções, esquecendo de fazer qualquer cálculo, Augusta se levantou sem dificuldade, apesar da queda, e correu com disposição e rapidez em direção ao quarto da irmã, que já não caminhava havia muitos anos.

Sem esquecer, ainda, que Lia é uma mulher doente que caminha numa cadeira de rodas. A vida dessas duas irmãs é um sacrifício imensamente belo, escrita por uma jovem, muito jovem, quase uma menina a exigir uma leitura crítica que as situa no plano de uma existência humana que está entre o pavor de viver e a vitória de quem se reconhece plena de amor e de vontade para sobreviver. Leitura altamente recomendada.

Para não acabar tão cedo
Clarice Freire
Record
182 págs.
Raimundo Carrero

É escritor. Autor, entre outros, de Seria uma noite sombria Minha alma é irmã de Deus. 

Rascunho