Os passos perdidos

Narrativa do cubano Alejo Carpentier revela a selva como origem da música e reafirma seu lugar no cânone latino-americano
Alejo Carpentier, autor de “Os passos perdidos”
01/04/2026

1.
Há muito que a comunidade de leitores brasileiros lamentava a inexistência de novas edições de Alejo Carpentier; pois agora temos Os passos perdidos, em tradução impecável de Sérgio Molina, lançado pela Zain, especializada em música. O lamento trazia, junto, o olvido de um escritor profundamente cubano, profundamente caribenho, profundamente latino-americano. Foi ele o criador do “real maravilhoso” (ou, mais corretamente, da “maravilhosa realidade Americana”), um conceito que remete ao deslumbramento que a natureza exerce desde os primeiros conquistadores da América Central, incluindo as ilhas e os atuais domínios da Venezuela e Colômbia. As cartas que esses homens mandavam para a Europa mostram bem seu fascínio pelas enormes árvores, pela fauna e os exemplares botânicos que viam por aqui, a ponto de se declararem impotentes para descrever todo esse universo de novidades. Muito se teria a dizer sobre esse conceito de Carpentier, mas no nosso âmbito, aqui, refere-se a um único livro, em que os sons representam papel determinante.

2.
Carpentier, além de escritor e intelectual ativo contra a ditadura de Fulgêncio Batista (acabou preso e conseguiu fugir), era músico e musicólogo, o que também transparece em outras obras capitais, como Concerto barroco e O cerco. Exibia com naturalidade um conhecimento universal, isso em tempos pré-Google e IA, o que o fazia transitar pelas ciências, pelas artes e pela filosofia e, claro, pela música. Em Os passos perdidos é possível que o leitor desconheça algumas referências musicológicas bem particulares, mas para isso há duas possíveis soluções 1. recorrer à erudição instantânea da IA ou, o que prefiro, 2. não procurar saber com minúcias o que significam determinados vocábulos, deixando encantar-se com suas sonoridades e rarezas. Ademais, de uma ou outra forma, Carpentier nos dá alguns indícios semânticos bem sutis. Assim, é possível ler sem tropeços este livro. (Eu mesmo topei, na tradução, com a palavra “bandola”. Como ela surge no conjunto de uma apresentação de músicos, e vem antecedida pelo verbo “preludiar” [com], já não tenho curiosidade de ir ao dicionário. Ela me basta com essas três vogais ventiladas e expansivas a preencherem o ar).

3.
Uma redução interpretativa desse romance é dizer que se trata de um livro de descobertas de melodias que faz um músico de Nova York quando entra em contato com a selva amazônica. Pode ser isto, mas não apenas. Gostaria, neste momento, de incluir uma consideração de caráter espacial. Em seu périplo por caminhos escabrosos, o narrador e suas duas acompanhantes (uma, sua amante, a outra, uma divertida companheira ad hoc que terá papel de relevo) chegaram a uma povoação recém-criada em torno de poços de petróleo em plena atividade, com aquelas gigantescas máquinas de extração, “incansáveis, regulares, obsessivas, umas máquinas cujo volante tinha o perfil de uma grande nave negra, com o bico que fincava a terra, em movimentos isocrômicos pássaro furando um tronco. Havia algo de impassível, obstinado, maléfico, naquelas silhuetas que se meneavam sem queimar, como salamandras nascidas do fluxo e refluxo das labaredas que o vento encrespava, em marejadas, sobre o horizonte”. Essa virtuosidade de observação e interpretação percorrem todo o texto, para nossa delícia.

4.
Uma instituição universitária famosa, que mantinha um museu de instrumentos musicais, sentia falta de exemplares originários da selva amazônica. O narrador da história, publicitário e musicólogo, tinha nascido por lá. Pronto: encarregaram-no de ir buscá-los, e para tanto destinaram-lhe um bom momento para isso: as férias. O que seria um pedido de mau gosto transforma-se numa expedição de descobertas. Mucha, sua amiga temperamental (assim ele a chama, amiga), se oferece para ir junto. E vai, como sabemos. A narrativa é cheia de peripécias, com personagens estupendas que dão colorido e sabor à viagem, a qual acontece por todos os imagináveis meios de transporte. De início, o contrariado narrador que dizimava as férias, planejou comprar esses instrumentos rústicos na primeira lojinha de quinquilharias turísticas perto do hotel. Já na capital amazônica, e principalmente nos seus entornos, ele reconhece o quanto se transformou seu passado infantil. Entendendo, então, que sua tarefa é muito mais relevante do que pensava, quase metafísica, ele é empurrado para a selva, e seus sentidos se aguçam para algo que nunca chegara a captar sua atenção: os sons.

5.
O narrador foi invadido pelos sons da selva, fazendo descobertas a todo o momento. O primeiro som com que se surpreende foi a perdida língua da infância, que o induziu a um regresso a “um equilíbrio perdido havia muito tempo”. Ao mesmo tempo, um rádio ignoto no espaço desconhecido dá novo significado à Nona de Beethoven: “Os executantes sem rosto eram como expositores abstratos do escrito. O texto, caído ao pé destas montanhas, depois de voar por sobre os picos, chegava não se sabia de onde com sonoridades que não eram de notas, e, sim, de ecos despertados em mim mesmo”. Enfim, estamos perante contínuos prodígios conotativos que estão a cada parágrafo. Numa cerimônia fúnebre primitiva, ele observa o feiticeiro rezando e salmodiando o defunto, “uivando” uma forma de música ancestral, o treno, mas com origens gregas (θρήνος – threnos): “Na boca do Feiticeiro, do órfico ensalmador, estertora e cai, convulsamente o Treno — pois isto, e não outra coisa, é um treno — deixando-me deslumbrado pela revelação de que acabo de assistir ao Nascimento da Música”.

6. 
Com a cabeça cheia de sons inéditos, e carregando os instrumentos que buscava, ele está destinado a ampliar para o mundo, e acaba por se incorporar à gesta dos que, antes dele, propagaram o Novo Mundo, tal como fizeram Alexander von Humbolt e Aimé Bonpland nos inícios do século 19 — a diferença é que von Humboldt e Bonpland eram cientistas que, tendo percorrido os mesmos lugares de Os passos perdidos, concentraram-se nos aspectos da flora e fauna amazônica (e não apenas, pois Bonpland acabou como estancieiro no Rio Grande do Sul). Mesmo eu tendo lido, por razões profissionais, o ciclópico e cegante Le voyage aux régions equinoxiales du Nouveau Continent, fait en 1799-1804 [Viagem às regiões equinociais do Novo Continente, realizada em 1799-1804], publicada em Paris por ambos a partir de 1807, não encontrei alusões às sonoridades selváticas — essa tarefa estava destinada à única instância para dizer o indizível, dando-lhes sentido e, principalmente, encanto: a literatura. Por esta grande descoberta, por nos revelar uma perspectiva da América Latina sob um viés incomum e por nos mostrar a importância de um sentido humano em geral desprezado pelos escritores, este é um livro para constar do cânone latino-americano e, claro, ir para nossa mochila.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

Rascunho