1.
Romance canônico do século passado, O homem sem qualidades [Der Mann ohne Eigenschaften], de Robert Musil, traz um engano no título. Eigenschaften significa características, propriedades; já a palavra “qualidades”, ao menos na língua portuguesa, apresenta forte polivalência semântica, mas remete, pelo senso comum, a “atributos positivos” — e tal não é a ideia do autor. Assim, melhor expressaria o título original algo esdrúxulo como “o homem incaracterístico”. Esse alerta inicial é muito importante para que não se imagine que Ulrich, personagem central, seja um desqualificado.
2.
Muitos consideram “o melhor romance do século 20”, nessa mania da cultura contemporânea de estabelecer critérios de hipódromo para tudo. Eu diria: é um romance de altíssima indagação psicológica e feitura literária, que discute as nuances das perplexidades de Ulrich, vienense, matemático de 32 anos. O cenário principal é propício para isso: na Viena em vias de desaparecer na Grande Guerra, encerrando o longo século 19, vivia-se um apogeu cultural, em que circulavam nomes e instituições destinados a perturbar a História, como Freud, Egon Schiele, Mahler, Klimt, Hans Kelsen, Schnitzler, Kokoschka e o esplendor feérico da Secessão. Tudo mudava, tudo provocava. O melhor lugar para uma pessoa que não sabia de si mesma.
3.
Nesse universo evocado por Musil, ocorreu ali um conjunto de múltiplas instituições, tanto civis quanto acadêmicas, que encontraram meios de expandir-se graças a um panorama econômico estável e, sobretudo, à tolerância da livre expressão das ideias. Em tal cenário, nossa personagem surge como alguém que vive o período sem se prender a qualquer tipo de escravidão ideológica ou política — na verdade, é possível desconfiar de que ele sequer compreende por inteiro o que enxerga. O que lhe aparece diante dos olhos, no entanto, é algo que o repulsa: a ostentação vazia dos últimos suspiros de um país. Sim, tudo isso é um prato cheio para quem se interesse pelo estado das culturas representadas literariamente, e os estudos acadêmicos são unânimes em estudá-las em O homem sem qualidades; embora sua validade não seja do meu interesse.
4.
A qualquer leitor sem prévio aviso pode parecer um livro desordenado e, de fato, o é; isso se deve a uma criação por impulsos, quase convulsiva, formada por “quadros” narrativos numerados e nomeados. Se o conjunto assusta, o particular encanta. O conjunto é como um patchwork de situações, historietas, descrições de personagens, de espaços íntimos e públicos e ensaios de natureza psicológica e filosófica. O leitor, esse ser paciente, tentará juntar tudo isso à busca de um enredo e, em especial, de uma diacronia. Poderá inventar, participando da obra como coautor, e o resultado lhe parecerá bom, pois sempre encontrará apoio no texto, como um milagre. Isso é assustador — e confesso que nunca encontrei uma obra com essa tonalidade que, à falta de qualificação, poderia ser comparada às infinitas figuras de um caleidoscópio, às quais o olho dará sentido. Se Musil não foi generoso com o leitor, o devemos ser com ele. É uma obra revolucionária? Eu não diria isso, pois, no fundo, é construída perante os recursos habituais da arte literária, com o prestígio da fabulação. Tal atitude decorre das diferentes fases da vida do escritor, durante as quais foi escrito o romance; some-se a isso o fato de sua prestativa viúva haver reunido ao conjunto mais uma série de escritos ignotos do esposo. A linha narrativa é regida por Ulrich; quer dizer: não nos perdemos nessa selva, conduzidos por esse homem torturado que é um autêntico fim de raça.
5.
Ulrich encontra na sua matemática a matéria de suas fantasias, tal como o projeto da decoração de seu castelo, uma miscelânea que iria dos assírios às vanguardas. De repente, abandona essa ideia, e deixa que os comerciantes de móveis façam como quiserem. Tudo o encanta, mas tudo o aborrece — e aí a questão: ele não sabe bem como encaixar tudo aquilo dentro do seu ethos. Procura sempre alguma coisa nova, grandiosa ou louca, que lhe dê fama; mas o que mais o atrai, paradoxalmente, é a simplicidade que, logo ele sabe, é pouco para um ideal que ele mesmo não sabe qual seja. Assim, vive esmagado pelo mundo, massacrado por ele — o mundo, sim, sabe viver: já Ulrich, não.
6.
Mas segue tentando, quer construir algo: entra no Exército Imperial, participa de duelos, não passa de tenente e pede baixa. Queria ser “genial” (por exemplo, na matemática). Quando percebeu que a tudo chamavam de genial, até a um cavalo de corridas, desistiu dessa competição equina, investindo na fama por outros matizes. E, sim, isso implicava o amor; não as ligações extremamente juvenis e inconsequentes, mas algo maduro, etéreo — próximo do platonismo — a que eu poderia chamar de encontro de seres iguais, ainda que distantes, como está no Wieland de A simpatia das almas, ou no Goethe de As afinidades eletivas. Essa aproximação pode parecer canhestra, mas merece atenção pelo fato de que Ulrich é irmão de Agatha e por ela apaixonado, e não é o incesto que interdita esse amor, mas a certeza de que lhes está destinado um plano metafísico, superior e nobre, tal como propunha [Christoph Martin] Wieland. Mais uma interdição e uma renúncia.
7.
Ulrich vive cercado de cultura e arte, puro divertissement e escusa para ele, e isso começa a ser insuportável, por sua falsidade e, em especial, porque qualquer arte exige participação ativa e consagração. Num momento de diálogo amoroso com sua irmã:
Toda vez que tive de participar de alguma coisa que implicava outras pessoas, alguma questão humana real, me senti como o homem que sai do teatro antes do último ato para recuperar o fôlego, vê o grande vazio escuro com suas muitas estrelas, deixa para trás seu chapéu, seu o casaco e a apresentação, e vai embora.
8.
Eis aí: é a escolha pelo absenteísmo como estilo e desculpa. Eis aí a falta de características (Eigenschaften]) que o conduz à renúncia. Quando, depois, Agatha diz: “Você me deve dar um beijo” e se encaminham para uma cabana e “a porta baixa se abriu sobre a escuridão da noite”, temos uma inescapável conclusão: ele, com seus vazios e suas fugas, ainda assim é uma pessoa de interesse, inclusive para ser amado — mas o dilema é que ele não consegue lidar com a imensidão do mundo, sob o qual ele vive sufocado. Mas não quero adentrar nesse domínio sombriamente trágico para quem lê e quem escreve.
9.
Embora possa se discutir o epíteto de “melhor romance” de sua época, O homem sem qualidades impõe-se como um documento da alma humana. Num momento em que Viena começa a ruir, levando de modo implacável o mundo e o passado consigo, assim ele já não encontra o tempo e a tensão necessários para se reconstruir. Sim, esta obra merece entrar na nossa mochila, pela universalidade desse tema que sempre irá nos assombrar: não teremos um persistente Ulrich dentro de nós?