1.
Ainda que repugnem às consciências hígidas as divisões binárias, seja na sociedade, na política, na ideologia, seja nas religiões — causadoras do ódio irracional entre as pessoas e responsáveis pelas tormentas bélicas que estamos vivendo —, na Europa de antes da Primeira Guerra Mundial essas mesmas divisões mantinham-se latentes, aparecendo por erupções dramáticas; apenas aguardavam o acaso para levar-nos à hecatombe iniciada em 1914 e às segregações em massa dos “diferentes”.
2.
Naquele momento, incubador de desgraças, é publicado o romance Entre as raças (1907), de Heinrich Mann, saído agora no Brasil na tradução de Fernanda Boarin Boechat e Paulo Astor Soethe (ambos dedicados germanistas de nosso país) com posfácios do próprio Soethe e de João Assim — acolhida pela Zain, a única editora que, em nosso país, dedica-se a edições que refletem as relações entre a música e a literatura. Destaque para a conotativa capa de Filipa Damião Pinto sobre um óleo de Edmund Hodgson Smart.
3.
Heinrich Mann é irmão mais velho de Thomas Mann, ambos filhos de pai alemão e de mãe brasileira de Paraty. O título é revelador; perdoemos que ele fale no embrionário vocábulo “raça”, corrente em sua época e hoje abominado, especialmente na Alemanha, em razão da lembrança da propaganda nazista.
4.
O enredo pode ser sintetizado sem dificuldade. Lola, filha de um senhor alemão e de mãe brasileira, é levada pelo pai para viver na Alemanha. Deixa-a lá, entregue a um internato luterano; a menina sente-se só, e, pior, abandonada. Mantém correspondência esporádica com a mãe, e, claro, com o pai, e recebe, quando já moça, a notícia de sua morte. Algum tempo depois, a mãe (Mai, como ela a chamava) aparece na Alemanha, decidida a viver com a filha. Aqui o romance muda de tom. Tem início um périplo por várias cidades europeias, e ambas, mãe e filha, estão dispostas a viver a vida; Lola, por ter conhecido um mundo todo novo, e a mãe, para desforrar-se de seus anos vividos na “selva”. Lola quer ser atriz, depois cantora. Apaixona-se, primeiro na Itália, onde tem um casamento de pesadelo com um nobre. Larga-o, e, na Alemanha, sua vida perece tomar um rumo, e o livro termina com um final em aberto. Soethe, em seu convincente posfácio, sem renunciar a outros aspectos que o texto oferece, analisa-o sobretudo sob a perspectiva de gênero, evidenciando o quanto a geração de Lola sofria com a opressão machista ainda dominante no período pré-guerra, citando os vários momentos em que isso se evidencia. Prefiro, agora, me centrar no aspecto pessoal, reforçando a figura humana de Lola, a que vivia entre “duas raças”.
5.
O espaço natal de Lola pretende ser um locus amoenus, embora haja menções aos desníveis sociais, representados pela existência dos “negros”, meros serviçais que desempenhavam tarefas menores. Lá (ou aqui, no litoral brasileiro), ela era uma igual entre os de sua classe, vendo o mundo através de lentes róseas:
De lá, onde a floresta era menos densa, vinha o som dos golpes do oceano, e do outro lado, na densidade da mata, o som dos gritos de papagaios selvagens e bugios.
A criança aprendeu com a ama negra a falar e a andar sobre a areia entre a floresta e o mar.
Heinrich Mann, que nunca esteve no Brasil, dedicou o melhor de seu talento nessas aliciantes descrições, baseando-se nas memórias de infância de sua mãe e um pouco de imaginação. Lola não conhecia outro mundo.
6.
A transferência brusca para a Alemanha aos sete anos é um acontecimento traumático, primeiro pela solidão do internato e, em segundo lugar, pela necessária adaptação à nova língua e aos novos costumes. A convivência com a avó paterna foi esporádica e fria; o mesmo com os demais parentes. Fantasias de amor infantil deixavam-na empolgada, seja por um professor, seja pelo homem do realejo. Foi quando decidiu atuar no palco, como cantora e atriz. Após uma audição de canto, ocorre uma cena perturbadora.
A filha de um parlamentar do Reichstag disse:
“Foi muito alemão”.
“Foi de muito mau gosto”, Lola repetiu. “E se foi alemão, então foi algo alemão de muito mau gosto!”
Fez-se silêncio: e quando Lola virou-se para suas aliadas em busca de ajuda, elas desviaram o olhar […]. Do outro lado, veio mais uma provocação:
“Afinal, você é mesmo brasileira”. “Se fosse isso, ao menos”, argumentou a filha do parlamentar: “Ela é…” […] Internacional!”.
Bem pensado. A partir daí, sua nacionalidade diluiu-se entre fronteiras invisíveis.
7.
O romance apresenta uma estrutura assimétrica, com a parte I bem articulada, linear (vai desde o nascimento de Lola até seus 16 anos), apresentando diacronia fluente; as duas partes finais que se lhe seguem são mais livres, com mudanças significativas de tempos e de espaços. Isso permite que o autor desenvolva com liberdade as atitudes de Lola perante as instituições conservadoras da época, em especial a tirania com que o poder masculino sufocava e, em alguns casos, matava (um caso é referido no romance).
8.
Vivendo um evidente hibridismo cultural, Lola soube como lidar: a estada brasileira foi curta, mas forte a ponto de solidificar seu modo de entender a vida e, por que não, a arte. Não será má ideia pensar em como ela adquiriu autonomia judicativa e a consciência de que deve lutar para manter essa autonomia, quando tinha as circunstâncias a seu desfavor, especialmente depois do transplante abrupto para a Europa. É possível prospectar dois elementos-chave, não excludentes de outros: o exemplo familiar, com um pai quase abstrato, e as leituras constantes e precoces, começando com o romantismo de Lamartine, encantando-se com Meditações e suas paisagens líricas, a que foram acrescentadas obras críticas. Sua obsessão pela leitura chamava a atenção de todos, notadamente de sua mãe, que ficava desgostosa a ponto de dizer: “Ela está lendo, Pardi! [o marido italiano de Lola, de quem ela se divorcia] Venha aqui para dentro e repreenda-a. Ela é mesmo uma criança”. Ao que parece, ela, ao final, só foi entendida por seu segundo marido, o poeta alemão, Arnold Acton, dotado de uma personalidade flébil, com quem, enfim, poderia conversar acerca de Lamartine.
9.
Um assunto que perpassa a obra, servindo de cantochão ao grande tema da vida de Lola, é a música. O ensaísta João Assim, em seu ensaio O retrato da mãe e a música em “Entre as raças”, nos alerta para uma passagem: “Somente quando canto entendem-me bem, ao norte ou ao sul”. E Assim ainda propõe uma leitura estrutural: embora o romance, como vimos, seja dividido em três partes, a presença da música, por um instante, parece refletir o modelo clássico de uma sinfonia em quatro movimentos — analogia que logo se rompe, com o desaparecimento da música na narrativa. Por trazer à tona uma mulher notável em seu tempo, que soube desembaraçar-se de uma condição binária, tornando-se uma “internacional” no melhor sentido, Entre as raças vai para nossa mochila.