As ligações perigosas

“As ligações perigosas” revela como Choderlos de Laclos constrói personagens complexas para expor o século 18 e assegurar lugar no cânone literário
Choderlos de Laclos, autor de “As ligações perigosas”
01/02/2026

1.
O século 18 foi o mais brilhante, o mais entusiasmado pela vida, o mais cheio de ideias, povoado por cabeças iluminadas (boa parte perdeu-as na guilhotina), território de invenção, forte literatura, malícia, trocadilhos e maldades elegantes, mesmo que tenha excluído uma legião de pobres e ainda outros, miseráveis, que viviam da mão para a boca. O contraste obsceno entre o esplendor das Luzes e a miséria é perturbador: Voltaire, Diderot, Rousseau, Locke e Adam Smith conviveram com os pródromos dos horrores da Revolução Industrial, que escravizou milhões de operários, especialmente crianças e mulheres. A nobreza decadente, agarrando-se a seus privilégios, desdenhava de modo soberano uma plebe que não possuía a menor oportunidade de sair da estagnação social. [Esse quadro nem os séculos seguintes resolveram: o 19 foi banal, triste, burguês, e o 20, o mais devastador do planeta, civilizacional e materialmente considerado. Já o nosso século 21, destruindo a si mesmo e à Natureza, perfila-se para ser o pior do que soma de todos.]

2.
No meio desse caldeirão situa-se um militar francês, da pequena nobreza, Choderlos de Laclos, dotado para a literatura. Não apenas escrevia bem: era um escritor de intensa finura, capaz de erigir uma obra que chega até nossos dias, chamada As ligações perigosas (1782), um romance logo amaldiçoado, logo amado, um sucesso como não se via desde Os sofrimentos do jovem Werther, da década anterior. Todos o liam às escondidas, inclusive a realeza: era um dos livros preferidos de Maria Antonieta. Trata-se de um romance epistolar, isto é, compõe-se de cartas trocadas entre as personagens. Não era uma absoluta novidade, mas era o melhor de todos até então publicados.

3.
Os correspondentes fictícios são, essencialmente, dois jovens aristocratas: o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, detentores das piores qualidades de seu meio social: devassos, cínicos, mentirosos, aproveitadores, enganadores e, ao mesmo tempo, refinados, cultos e dotados de espírito à la française. A par disso, tinham dinheiro e eram belos; a química exata para uma história capaz de interessar quem ali se via representado, mas que eram suficientemente estúpidos para exercer tais discutíveis qualidades.

4.
Corre uma lambança teórica que vem até hoje: por um lado, Choderlos de Laclos fascina-se por suas personagens e seus estilos de vida; ele sente volúpia em descrevê-los; por outro lado, o autor traz à tona os modos de ser de uma classe detestável, quer dizer: ninguém poderá afirmar — e provar — que se tratava de uma denúncia social, nem demonstrar que Choderlos de Laclos aprovava como natural suas condutas. Proponho que deixemos o assunto sociológico e histórico de lado, para que alguém mais dedicado às minúcias tente deslindar o assunto. Pensemos, pois, na literatura de As ligações perigosas.

5.
Trata-se de um topo bastante conhecido: a vingança de uma mulher abandonada. Esta mulher é a Marquesa de Merteuil, cujo amante a abandonou para noivar com a jovem Cécile. A vingança é tão sórdida quanto complexa: Merteuil pede ao seu amigo e ex-amante, o Visconde de Valmont, que seduza Cécile e ensine a ela as coisas do amor. Cécile é, até então, uma flor de castidade e beleza. Aí estão o enredo e o conflito do romance. O restante são as minúcias que o autor acrescenta, e que inclui relações passadas de ambos os cúmplices, as conexões familiares e oficiais, enfim, o painel de uma sociedade descaída que começa a sentir os primeiros tremores de terra da Revolução. Com essa história rala, o que exsurge e se impõe é o tratamento das personagens, estas sim, plenas de conteúdo. [Aliás, o filme de Stephen Frears é exemplar nesse sentido, e não apenas]. Cada qual, e me fixo apenas em Cécile, Valmont e Merteuil, possui sua própria dinâmica interior, sua multiplicidade, suas contradições, e isso é que lhes dá existência. Cada qual é único.

6.
A Marquesa de Merteuil é a mais completa. Não fosse ela, não existiria o romance. Sim, ela é perversa ao elaborar a hedionda trama vindicativa, é uma manipuladora do mal – mas é um ser humano independente dessas qualidades. Depois de uma juventude subjugada, viúva de um homem tão chato como Charles Bovary, ela diz, numa carta para Valmont: “Nasci para vingar meu sexo e subjugar o seu” — (née pour venger mon sexe et maîtriser le vôtre), mas isso não significa uma simplória relação de causa e efeito. Todo o contexto implica um extraordinário dom: o da inteligência e da sensibilidade. Ela se constitui, como ser humano, exercendo esse dom, que é superior ao mal e ao bem. Sua questão essencial radica num insofismável desejo de liberdade, em parte obtida pela providencial morte do marido, mas essa liberdade é consolidada pelo exercício das inteligentes tramas, mesmo que funestas, como arruinar uma jovem e fazer gato e sapato de Valmont, que, entretanto, a adorava.

7.
Quanto ao Visconde de Valmont, este tinha a fama de libertino, mas, tal como o Don Giovanni, de Lorenzo da Ponte/Mozart, a depravação leva-o a um rol de infortúnios próprios — eis aí o que o distingue do clichê do dissoluto. É encarregado por Merteuil de seduzir a virgem Cécile, mas ele está dividido entre o amor antigo por sua amiga e uma nova conquista, uma senhora austera e, aparentemente, virtuosa. Ter de conquistar uma adolescente é humilhante, dado o pouco valor da tarefa. Digamos de maneira mais reveladora: Valmont é um homem cruzado por dúvidas quanto à sua própria masculinidade (síndrome do conquistador) e em eterna dúvida entre o que é certo e o que é errado; no fundo, ele anseia pela paz sexual. Talvez isso lhe devolva a plena existência e a inocência perdida em mil leitos. (A lembrar Don Giovanni: só na Espanha, teve 1.003 amantes).

8.
A jovem Cécile de Volanges é assim descrita por Merteuil: “Ela é realmente bonita; mal tem quinze anos, um botão de rosa, desajeitada, (c’est le bouton de rose; gauche, à la vérité) pouco refinada, mas isso não afasta vocês, homens”. Ao lançar-se à conquista compulsória, Valmont acaba por descobrir que Cécile sabe o que quer, tanto que está apaixonada por seu professor de música, paixão que Merteuil consegue degradar. Depois de violentada e seduzida por Valmont, a jovem torna-se experimentada nas práticas sexuais, engravida, tem um aborto involuntário — quer dizer, passa a exercer sua feminilidade e se descobre como um ente de prazer e culpa.

9.
Esse romance é uma aula de construção de personagens. Elas não vivem em função de um conflito e de um enredo; quando o leitor percebe que são as personagens, elas, que criam o enredo e o conflito, temos uma inesquecível obra-prima. Não por outra causa As ligações perigosas pertence ao cânone do romance universal a, assim, deve vir para nossa mochila.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

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